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Rui Almeida, sobrevivente do naufrágio: “Nunca tive medo”

O jornalista e a mulher, Graça Moniz e Almeida regressaram a Lisboa no dia 15, depois de terem sobrevivido ao naufrágio do navio cruzeiro Costa Concordia, no dia 13. O navio embateu nas rochas perto da ilha italiana de Giglio, ao longo da costa da Toscânia.

Marta Mesquita
22 de janeiro de 2012, 16:00

Rui Almeida, jornalista na  Super Sport TV, África do Sul, e Graça Moniz e Almeida, professora do ensino básico e animadora na Rádio Atlân­tida, gozavam a sua lua-de-mel quando o navio cruzeiro em que viajavam, o Costa Concordia,  embateu nas rochas, perto da ilha italiana de Giglio, ao longo da costa da Toscânia, na sexta-feira, dia 13. O transatlântico, que transportava perto de 5000 pessoas, tinha saído de Civitavecchia, o porto que serve Roma, e diri­gia-se para Savona, onde deveria atracar no dia seguinte, quando naufragou. O jornalista acredita que houve erro humano e no dia seguinte a este trágico acidente o comandante do Costa Concordia, Francesco Schettino, foi detido e acusado de “naufrágio, homicídio múltiplo e abandono do navio.” Três dias depois do acidente, os recém-casados partilharam com a CARAS como viveram esta tragédia que já fez, até ao fecho desta edição, seis mortos e deixou dezenas de desaparecidos.
– Agora que estão em casa qual é o vosso estado de espírito?
Rui Almeida
– É bem melhor, porque já estamos em casa, o que para nós era bastante importante. Estamos bem, entre os nossos e isso é o que importa.
Graça Moniz e Almeida – Tivemos muita sorte na maneira como fizemos tudo, nas pessoas que encontrámos pelo caminho, pela balsa de salvamento em que fomos... Há passageiros que passaram por situações mais traumáticas. Não foi fácil, mas sinto que fomos poupados e abençoados no meio desta situação. Ainda nem acredito muito que passámos por tudo isso. Olho para o nosso nome nos órgãos de comunicação social e parece que estão a falar de homónimos nossos. Agora é nossa obrigação sorrirmos, termos força para recordar tudo isto da melhor maneira. Estamos vivos e temo-nos um ao outro e agora é termos outra lua-de-mel logo que possível. [risos]
– Durante o acidente, o Rui fez vídeos a relatar o que estava a acontecer. Quem estava ali era o recém-casado ou o jornalista?
Rui Almeida
– Devo admitir que por diversas vezes não me consegui dissociar do papel de jornalista e até já pedi desculpa à minha mulher por isso. Mas não fui o jornalista para reportar e sim para manter alguma serenidade a que as situações de crise obrigam.
Graça –  Enquanto o Rui estava a fazer o seu papel de jornalista, tinha a sensação de que estava quase a acompanhar a situação pela comunicação social. E se calhar foi uma maneira de eu perceber o que estava a acontecer na realidade. Como ele estava muito sereno, ajudou-me a não entrar em pânico.
– Quando sentiram o embate, percebeu de imediato que algo de muito grave estava a acontecer?
Rui Almeida
– Estávamos a jantar quando sentimos o navio oscilar anormalmente para um dos lados, para bombordo, e depois disso houve uma trepidação como se se tratasse de um tremor de terra. Todo o navio tremeu de uma maneira muito forte e ouvimos o ruído da batida na rocha, que rachou a quilha de ferro do navio, e o ruído dos pratos e dos talheres a caírem. Peguei imediatamente na minha mulher e fomos para o camarote. Era o sítio mais seguro do navio naquela altura, e onde podíamos reaver alguns dos nossos objetos pessoais fundamentais e ir buscar os coletes salva-vidas. Aí, coloquei em ação o kit de so­brevivência mental e procurei os passaportes, dinheiro, os cartões de crédito, telemóveis e a minha amiga hand cam, que me permitiu reportar algumas situações.
– Em algum momento percebeu que o barco estava muito perto da costa?
– Não tenho dúvidas de que o navio estava anormalmente próximo da costa. Antes do jantar tinha ido à varanda da nossa cabina e tinha comentado com a minha mulher que estávamos muito perto da costa. Depois, o barco aproximou-se ainda mais, e não era aquela a rota prevista. Não tenho dúvidas de que houve um erro humano. A justiça italiana já tem uma nota de culpa formulada em relação ao comandante.
– Chegaram a ter medo de não sair vivos desta tragédia?
– A minha mulher terá tido a determinado momento a sensação de que aquele podia ser o último dia das nossas vidas. Mas eu não tive medo, tive algum receio de que as coisas pudessem dar para o torto, mais por inoperância dos sistemas de salvamento ou precipitação dos passageiros. Devido à proximidade da ilha de Giglio, nunca tive dúvidas de que se fosse preciso nadar até à ilha, nadávamos.
Graça – Eu senti muito medo e por momentos pensei que ia morrer naquela noite, mas também consegui ter esperança. Pus sempre a hipótese de sobreviver. E só queria ter força para não desistir. Quando chegámos à ilha, sentimos pena por tudo aquilo que era nosso e ficou no meio do Mediterrâneo, mas por outro estava muito aliviada por estarmos a salvo, juntos, sem um beliscão sequer.
– Já fez várias críticas em relação ao procedimento da em­baixada portuguesa em Roma. Não tiveram qualquer apoio das entidades oficiais portuguesas?
Rui Almeida
– Desde o momento do acidente até embarcarmos no domingo, no voo das 14 horas para Lisboa, ninguém da embaixada de Portugal em Roma contactou nenhum dos seis portugueses que estavam no Hotel Hilton em Roma. E esta informação foi confirmada pelo porta-voz do Ministério dos Ne­gócios Estrangeiros, que fez uma declaração espantosa: “Nós não vos contactámos porque ninguém pediu ajuda.” Se é para isto que a embaixada de Portugal em Roma serve, feche-se rapidamente, porque está a gastar dinheiro aos contribuintes. Ninguém da embaixada perguntou se precisávamos de dinheiro, de passaportes, de telemóveis... Era o mínimo que a embaixada devia fazer. A justificação do porta-voz do Ministério dos Negócios Es­trangeiros é ridícula, ridícula! Mas, pelo contrário, o supervisor da TAP no aeroporto de Roma foi inexcedível. E a tripulação do voo em que regressámos é que fez de embaixada e nos perguntou se precisávamos de dinheiro para o táxi, telemóvel para fazer chamadas e de algum auxílio.
– Agora querem esquecer este pesadelo ou vão avançar com algum processo para receberem uma indemnização?
Graça
– Agora, vamos terminar a nossa lua-de-mel nos Açores. O Rui vai trabalhar, mas no Dia dos Namorados volta a Ponta Delgada [Rui divide-se entre a África do Sul e Ponta Delgada]. E vai ser uma boa data para fazermos o que ainda não foi feito. Mas temos de avançar com o processo... Perdemos muitos bens e agora vamos ter de comprar coisas que nos fazem falta para o dia-a-dia. Há uma indemnização prevista e temos direito a ela. Há danos que nunca vão ser compensados e há coisas que não têm preço... Um vestido de noiva que fica no Mediterrâneo não há dinheiro que pague, assim como as fotografias tiradas no cruzeiro... Ninguém nos pode devolver isso.

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