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Margarida Rebelo Pinto : “Uma pessoa apaixonada acaba por se fragilizar”

Campeã de vendas desde que lançou o seu primeiro romance, “Sei Lá”, em 1999, Margarida enveredou agora, pela primeira vez, pelo romance histórico, tendo escolhido para heroína D. Inês de Castro.

Manuela Silva Reis
15 de janeiro de 2012, 10:00

A aparência física não é das mais robustas, mas o teor dos livros de Margarida Rebelo Pinto, e até o da sua própria vida, contrasta com essa eventual fragilidade: a escritora é uma mulher forte de espírito, que ama a vida, que ama o amor, que se assume a última das românticas, mas, garante, não é “cega” pelo amor. Dona de uma energia quase inesgotável, mesmo depois de ter tido um AVC há cinco anos, Margarida não tem medo de se confessar uma mulher feliz, escorada numa família de valores e tradições que segue com rigor, sem que se lhe possa aplicar o adjetivo de conservadora.
Campeã de vendas desde que lançou Sei Lá, em 1999, quando lhe perguntámos quais os seus desejos para este novo ano falou-nos em projetos profissionais e os seus olhos até brilharam quando contou que Brasil e França fazem parte da rota de publicação dos seus livros, nomeadamente de Minha Querida Inês, o romance histórico que marca a sua estreia num processo criativo “completamente diferente”, que “envolveu muita investigação, muitos dias a viver na Quinta das Lágrimas e a visitar o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha”.
E se a paixão pela escrita é um dos motores de vida da autora, o filho, Lourenço, de 16 anos, é o centro dela: “É um miúdo muito querido, com quem tenho muita cumplicidade.”
– Escolheu Inês de Castro para heroína do seu 18.º livro porque encontrou nela traços seus?
Margarida Rebelo Pinto – Sim, era uma mulher corajosa, que gostava de desafiar o poder vigente, e ela própria gostava de sentir algum poder, ou não se teria posto na posição de ser a voz privilegiada junto de D. Pedro para defender os irmãos, era uma mulher fogosa e apaixonada e, quanto a mim, daquilo que estudei, consciente do seu destino. Quis acabar com
o mito da desgraçadinha que foi bode expiatório de uma situação política, ou da grande manipuladora que queria prejudicar o grande reino de Portugal.
– Diz que este foi o livro mais apaixonante que escreveu. Porquê?
– Porque implicou investigar, imaginar, projetar e criar uma realidade completamente diferente, que fosse familiar às pessoas. Não queria muitas descrições, como se estivéssemos a assistir à representação de uma época, e sim escrever um romance que fosse como um filme, em que se entrasse imediatamente na história e se fizesse parte dela. Acho que consegui isso num romance histórico. Aquilo de que as pessoas gostam nos meus livros – e que é a proximidade e a identificação com as personagens – está lá, mas com uma mulher do século XIV, e esse foi o grande desafio.
– A certa altura escreve que Inês se indagava porque é que as freiras adoravam Deus, se Ele nada lhes podia dar, e que era bem melhor amar Pedro, a quem podia abraçar. Inês era mesmo assim ou foi a Margarida que a quis apaixonada e sensual?
– [risos] Eu imagino uma Inês quente, fisicamente envolvida com o seu amante, porque não imagino que as relações amorosas não sejam assim. Senão, já me tinha casado com qualquer um dos meus melhores amigos, que são todos ótimas pessoas!
– De qualquer modo, Inês serve a alguém, serve a Pedro... ainda está longe do que somos hoje...
– Hoje não servimos a ninguém, mas quando uma pessoa se apaixona acaba sempre por se fragilizar e baixar as guardas, faz parte da vida. A paixão tem coisas boas e coisas más, a coisa boa é levantarmos os pés do chão, a coisa má é que quando caímos, muitas vezes caímos sem rede... A gestão das relações amorosas é difícil e não há receitas. De qualquer forma, os meus romances são atravessados por mulheres fortes, porque elas dominam o meu universo: tenho uma mãe muito forte, uma irmã muito forte, sobrinhas e uma cunhada muito fortes, duas avós que eram muito fortes e histórias de duas bisavós muito fortes…
– E a Margarida também se sente uma mulher forte?
– Não sei se serei muito forte, mas fraca não sou de certeza. Sabe o que é que eu sou? Sou uma pessoa muito otimista, vejo a vida com bons olhos e, portanto, espero sempre o melhor dela. E quando olhamos a vida com bons olhos e olhamos os outros com bons olhos, eles também nos olham com bons olhos. Sou contra a corrente do pessimismo, da maledicência, da inveja, aliás, costumo dizer que a inveja é um país que nunca visitei. Sou muito otimista e muito apaixonada pela vida.
– É apaixonada em tudo?
– Sou... e não podemos esque­cer-nos de que há cinco anos tive uma pequena visita da “ceifeira” e os instintos de sobrevivência, a alegria e o prazer de viver apuraram-se ainda mais. É muito diferente viver quando damos as coisas como ga­rantidas ou quando percebemos que basta um instante para nos irmos embora, basta um clic...

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