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Lídia Franco recorda os seus tempos de bailarina

Lídia Franco, que todos associamos à representação, começou o seu percurso pela dança clássica, chegando a primeira bailarina do Grupo Experimental da Gulbenkian. Uma carreira de que desistiu devido a lesões físicas.

Rita Ferro
14 de janeiro de 2012, 14:00

Lídia Franco é uma das figuras mais conhecidas e estimadas do teatro português. Começou por ser bailarina clássica. A sua primeira professora de ballet foi Maria Antónia Luna Andermatt, mãe da bailarina e coreógrafa Clara Andermatt. Seguiu-se a Escola de Ballet do Teatro Nacional de S. Carlos e depois, veio a Companhia Portuguesa de Bailado, o Grupo Fernando Pessoa, o Grupo Experimental de Ballet da Fundação Calouste Gulbenkian, onde foi primeiro nome, o Conservatoire de Bruxelles e o Théatre Na­tional de la Monnaie, também em Bruxelas, sob a direcção de Maurice Béjart.
Recebeu bolsas para estudar dança e teatro em França e Inglaterra e estreou-se como actriz no Teatro Estúdio de Lisboa, com uma peça de John Osborn. Já representou em todas as grandes salas portuguesas e ainda no Chelman Theater, em Inglaterra. Fez digressões pelo Brasil, Cana­dá e Venezuela, e já trabalhou com inúmeros realizadores de cinema, entre os quais João César Monteiro, Manoel de Oliveira, Ivo Ferreira, António da Cunha Teles, Joaquim Sapinho, João Canijo, João Botelho, Celan Jones, Michel Serrault, Robert Mazoyer, Jacques Webber ou Alain Tanner.
Trabalha igualmente em rádio e televisão, em Portugal e no estrangeiro, em peças de teatro, telefilmes, programas de poesia, séries, telenovelas, programas de humor, sitcoms, programas de variedades, dobragens, etc. Recebeu os prémios Revelação em Televisão e Interpretação em Rádio. Conversámos com Lídia – que actualmente interpreta o papel de Teresa Amorim, uma doente de Alzheimer, na novela Rosa Fogo, da SIC –, na Fundação Champalimaud, onde a encontrámos bonita, activa, solicitada e feliz.
– Começaste pela dança clássica no Conservatório e chegaste a ser primeiro nome do Ballet Gulbenkian. Tens saudades desses tempos?
Lídia Franco – Note-se que tive que insistir até à exaustão para conseguir que o meu pai me deixasse aprender ballet [risos]. É claro que tenho saudades de dançar, mas acontece que os bailarinos, tal como os atletas da alta competição, ficam muitas vezes com o “esqueleto” bastante danificado. Foi o meu caso.
– E dançar seria ainda mais exigente do que fazer teatro...
– O bailado é das artes mais exigentes... é um sacerdócio. Ainda hoje, como actriz, aproveito a disciplina adquirida com a dança. Tal como o bailarino, o músico, o pintor, o escritor, etc., o actor tem que trabalhar as suas técnicas para poder “voar” através da sua arte.
– Como foi trabalhar com Maurice Béjart?
– Foi inesquecível, como sempre acontece quando nos cruzamos com um génio. Ele hipnotizava-nos. Não só pelos olhos de gato, mas sobretudo pelo enorme talento, a inteligência, a sensibilidade.
– Queres contar uma história passada com ele?
– Lembro-me do dia em que me deixou levar para estúdio o meu filho bebé. O miúdo ficou sentadinho ao lado dele, todo contente, mas choramingava sempre que não me via em posição de destaque. Foi uma risota geral ouvi-lo explicar ao meu filho que a mãe não podia estar sempre à frente, até porque não era propriamente a estrela da companhia [risos].
– Como se deu a transição para o teatro?
– Foi um processo natural. Sempre gostei de teatro e a minha avó, Alice Ogando, além de escritora foi também actriz, encenadora e directora do teatro radiofónico da antiga Emissora Nacional, pelo que sempre que precisava de uma voz de miúda lá ia eu toda contente!
– Não era vulgar uma menina como tu fazer teatro longe de casa – em Paris e Londres. O que favoreceu essa oportunidade?
– Tive uma bolsa da Gulben­kian e do British Council, graças à qual estudei teatro em Londres e frequentei outra escola em Paris. Mas uma das principais razões por que abandonei um emprego “certinho” e resolvi mergulhar no teatro, já com 30 anos e a viver sozinha com o meu filho, foi por fazer parte do surpreendente número de actores que sofre de terríveis problemas de timidez e se serve das diferentes personagens para conseguir comunicar com o mundo.
– Com que peça te estreaste?
– Estreei-me no Teatro Estúdio de Lisboa com a encenadora Luzia Maria Martins e a peça de John Osborn, Testemunho Inadmissível.
– Com que outras figuras “intimidantes” privaste?
– A primeira vez com a Eunice Muñoz paralisei! Olhava-a e não conseguia falar. Uma vez contracenei com o Gérard Depardieu, pediu-me para o levar aos fados e apresentei-lhe a Mariza. Um outro actor célebre em França, o Francis Huster, com quem contracenei num filme, pediu-me para lhe mostrar Lisboa e ficou espantadíssimo por não lhe pedirem autógrafos nas ruas e só me reconhecerem a mim [risos]. E também contracenei com o Mickey Rooney e mais alguns.
– Como é trabalhar em digressão, como já fizeste, no Brasil, Canadá e Venezuela?
– Antigamente fazia-se digres­sões em que se parava numa terra durante alguns dias e se seguia depois para outra e outra e outra... era óptimo! Como são óptimas as digressões que ainda hoje se fazem ao estrangeiro, percorrendo as comunidades portuguesas! Sentimo-nos em casa. Inesquecível foi a digressão com a Barraca por grande parte do Brasil, representando para um público absolutamente maravilhado!
– Qual o segredo para se decorar grandes papéis? Uma memória prodigiosa ou um prodigioso esquema de memorização?
– Se for bom, o texto envolve sempre um mundo fascinante! Temos primeiro de o explorar até à exaustão e só depois interpretá-lo. Se começamos por decorar o texto antes de entrar nesse mundo, ficamos sempre à porta. É claro que também é possível decorar umas cenas para o dia seguinte, mas, como diz o anúncio, “não é a mesma coisa”. E não nos esqueçamos de que o cérebro é um músculo que uma vez exercitado produz milagres!
– Queres falar-nos dos teus momentos de desânimo?
– Pouco depois de me estrear fiquei dois anos sem trabalho. O actor não pode parar, porque é através do trabalho que tem oportunidade de evoluir artis­ticamente. Como esta não é apenas uma profissão, mas muito mais do que isso, e eu não podia sequer conceber a hipótese de desistir, enchi-me de coragem e gravei umas cassetes com trabalhos meus, pedi uma lista de contactos de realizadores e produtores espanhóis e franceses e lá parti, de comboio, pois não tinha dinheiro para aviões. Durante dois meses, fiz inúmeros castings e fui escolhida para vários trabalhos. Finalmente, propuseram-me ficar em Espa­nha e também em Paris. Optei por voltar para Portugal, por causa do meu filho, mas já com a convicção de que tinha qualidade e valeria a pena continuar.
– Elege três momentos históricos da tua carreira...
– O primeiro: quando larguei tudo para ir para o teatro, por sentir que essa era a minha “via”. Segundo: o momento actual, porque é o único que conta. Ter­ceiro: ainda não chegou [risos].
– E o cinema, Lídia?
– O teatro é a arte do actor tal como o cinema é a arte do realizador. Claro que prefiro o teatro! Adoraria também trabalhar no cinema com grandes realizadores. Mas, acima de tudo, gosto e preciso de representar. Por isso, seja qual for o meio, tento sempre dar o meu melhor.
– O que é bom e mau no teatro?
– Uma coisa boa do teatro são os actores e o trabalho de equipa que se faz com todos os intervenientes do espectáculo. Uma coisa má é a falta de união que se observa entre os actores em Portugal – e entre os portugueses em geral.
– Também dás aulas de interpretação...
– Comecei por dar aulas de teatro na minha junta de freguesia, mas ultimamente tem sido na Hopelanda e na Vocare (em Lisboa, Cascais, Torres Vedras, Cartaxo, Marinha Grande e Porto). Em digressão, costumo dar uma master class no dia a seguir aos espectáculos e é emocionante poder contribuir para o desenvolvimento desses jovens e assistir aos seus primeiros voos.
– Que andas a fazer?
– Há umas semanas frequentei um seminário dado por Jan Harlan, que foi assistente do Kubrick. Estou a gravar a telenovela Rosa Fogo, onde interpreto uma mulher que sofre de Alzheimer. Continuo a dar aulas e retomarei a digressão
teatral pelo país com o monólogo de Eric-Emmanuel Schmitt, Oscar e a Senhora Cor de Rosa, e, logo a seguir, a partir do próximo mês de Março, com uma peça de Peter Asmussem, Sangue jovem, com encenação de Beatriz Batarda.
– Finalmente: o teu sonho é…
–... encontrar uma comédia de qualidade, pois ultimamente tenho feito mais drama. Mas é sempre mais difícil encontrar uma boa comédia...
NOTA: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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