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Em Paris, Catarina Furtado confessa que é difícil lidar com as desigualdades sociais

Depois de ter estado no Sudão, Catarina visitou Paris, onde nos falou sobre o trabalho e a família.

Rodrigo Freixo
31 de dezembro de 2011, 14:30

Habituada a trabalhar num mundo de glamour como apresentadora e atriz, nos últimos anos Catarina Furtado tem sido confrontada com a realidade dura de países de extrema pobreza. Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) há 11 anos, a apresentadora e atriz revela-se ainda uma mãe atenta e dedicada, que tenta passar o espírito solidário aos filhos, Maria Beatriz, de cinco anos, e João Maria, de quatro. Apesar do pouco tempo que tem para a sua vida privada, Catarina não descura a família, mas realça a importância do apoio que tem do marido, João Reis, que a acompanhou nesta visita a Paris, mas ficou nos bastidores das fotografias.
– Paris é...
Catarina Furtado – Uma cida­de que respira arte. Uma cidade que guarda e promove o amor. Uma cidade que acolheu muitos portugueses trabalhadores.
– Uma cidade romântica, perfeita para uma escapadela?
– É. A língua francesa embala bem os amores. Paris é ideal para romper com o frenesim do dia-a-dia do trabalho em Lisboa e permite concentrarmo-nos um no outro sob uma luz muito especial, cinematográfica...
– Acabou de chegar do Su­dão, onde viu uma realidade confrangedora, e agora está na cidade do luxo. É difícil lidar com esse confronto?
– Sinto esse confronto de cada vez que viajo. As desi­gualdades sociais são gritantes e chocantes. Confesso que é muito difícil assistir a este desajuste entre dois mundos, por isso tento, por diversas formas, criar sinergias de maneira a que uns possam ajudar os outros. Tento sempre que do fruto do meu trabalho resultem projetos de apoio às populações desses países promovendo, nomeadamente, o acesso à saúde e à educação. O mundo onde cresci e vivo é um mundo de oportunidades e tendo a consciência muito clara disso desde sempre ao assistir, por exemplo, à forma terrível como as crianças, meninas e mulheres são tratadas noutros lugares da Terra. Sinto que não tenho alternativa a não ser aproveitar da melhor maneira as oportunidades que me têm surgido, valorizá-las e lutar, através dos meios que estão ao meu alcance, por um mundo mais equilibrado. Temos direitos, mas também temos deveres. Acredito muito na educação para o desenvolvimento e acredito que podemos e devemos passar de geração em geração a eficácia da entreajuda, da partilha e da solidariedade, mas não como uma forma de caridade!
– No seu caso pessoal, imagino que se sinta grandemente privilegiada pelas condições de vida que tem quando olha para quem não tem nada...
– Esse “exercício” faço-o constantemente porque, apesar de nunca ter passado dificuldades quando era pequena, as minhas condições hoje resultam exclusivamente do meu trabalho em várias áreas nos últimos 20 anos. Trabalhar no meu meio exige empenho, esforço, dedicação, coerência e também alguma sorte para que a carreira se solidifique. É um meio de altos e baixos com resultados que podem ser muitos compensadores mas que também podem durar pouco. Tenho sempre essa noção e nunca olho para as minhas condições como dados adquiridos. Honestamente, é muito bom saber que as minhas condições permitem que muitas outras pessoas possam viver bem melhor aqui em Portugal e não só. O que tenho visto ao longo destes anos nos vários países que visito dá-me uma noção muito clara da forma como o mundo é feito. Eu, o realizador Ricardo Freitas e o repórter de imagem Hugo Gonçalves já assistimos a situações que nos marcaram para sempre, que nos tornaram melhores pessoas, que nos dão uma bagagem sobre o mundo que às vezes sentimos que nem sequer através das imagens conseguimos passar. Quem não quer saber do sofrimento dos outros é, para mim, uma pessoa desinteressante. Quem, de uma forma ignorante, não acredita na solidariedade, que com leviandade dá opiniões não sustentadas e que nunca saiu do seu cantinho de conforto para fazer qualquer coisa de verdadeiramente útil vive numa grande ilusão. Felizmente que à minha volta tenho pessoas extraordinárias que comigo fazem uma rede sólida. Acho mesmo que deveria ser uma obrigação de quem pode, preocupar-se com os outros e fazer o que estiver ao seu alcance para atenuar as desigualdades sociais. E as oportunidades não faltam, cada vez mais, até no nosso país.
– Mudou a sua rotina ou estilo de vida depois de iniciar o trabalho como embaixadora da UNFPA?
– Como passei a lidar com estatísticas e a confrontá-las no terreno, passei também a ter muito mais consciência das coisas que poderia ajudar a concretizar. O Fundo das Nações Unidas para a População é responsável por salvar milhões e milhões de vidas em todo o mundo e por tornar outras muito mais dignas. A partir do momento em que assisti à seriedade do compromisso daqueles que trabalham neste organismo das Nações Unidas (que tem muito menos apoios financeiros do qual­quer outro porque aborda temas mais complexos e difíceis como a saúde reprodutiva ou a violência sobre as mulheres) vesti a camisola e tenho posto mãos à obra (com muitas ajudas preciosas). Nada se compara à sensação de ver o antes e o depois quando se fala de vidas humanas e da luta pelos seus direitos. Os muitos projetos que já foram implantados, com a ajuda também dos portugueses, salvaram de facto centenas e centenas de vidas de mães e bebés! Fizeram a diferença e nada se compara a este prazer, a este sentimento.
– Não será comparável, mas por certo também lhe dá muito prazer o sucesso de programas como A Voz de Portugal. A outro nível profundamente diferente, lida também com frustrações e momentos muito felizes.
– É tudo muito relativo, mas, mais uma vez, o que interessa é viver a vida intensamente, dar a cada momento a importância devida e olhar para além do nosso umbigo. O formato de A Voz de Portugal é muito justo e viciante. Os candidatos que aparecem foram escolhidos num grupo de cerca de 7 mil e essa seleção não é mostrada porque neste formato o que interessa é promover a qualidade, dar uma oportunidade a quem tem o sonho de fazer uma carreira musical e ajudar a seguir o seu próprio estilo. Eu vivo as alegrias e as tristezas quer das famílias quer dos concorrentes, e tento sempre passar uma mensagem de esperança baseada na necessidade da persistência. Há muitos casos de carreiras que começaram mais tarde e que têm muito sucesso. Para mim é também muito importante que cada candidato saia do programa sentindo que foi tratado com dignidade e respeito.
– São vários os papéis que tem na sua vida, mas ser mãe destaca-se...
– Esse é o papel onde tenho mais medo de falhar ou de que falhe qualquer coisa que me ultrapasse e que ultrapasse as minhas competências. É o território onde fico mais suscetível. No meu trabalho vou tendo dúvidas, mas a experiência e as minhas convicções dão-me uma força extra e um otimismo que é difícil de derrubar. Ser mãe traz receios difíceis de afastar. É maravilhoso ser mãe e vê-los crescer como seres individuais, mas também com os olhos postos em nós, o que nos dá ao mesmo tempo uma pequena visão do que somos.
– Sente que consegue ser uma boa mãe, tendo em conta as constantes viagens, o trabalho na televisão, a representação?
– Claro que sim. Não são as ausências temporárias e geridas com sentido de responsabilidade que me tornam uma mãe menos atenta. Quando viajo com os Príncipes do Nada trago-lhes histórias de vida que só os enriquecem e em relação aos outros trabalhos, o segredo está na gestão do tempo. Eles sabem que ando bem e preenchida como profissional, mulher, cidadã e mãe e isso deixa-os felizes! Eles são uma esponja e não vale a pena pensarmos que não se apercebem dos nossos estados de espírito.
– A Catarina é a prova viva de que termos filhos não tem de condicionar os nossos sonhos...
– Sou, mas também porque tenho ajudas preciosas da família e do João, marido e pai. Sou empreendedora de feitio, por isso estico o tempo, durmo menos, mas faço. Não falo apenas, faço. Sem a cumplicidade do João seria muito, mas muito mais difícil, menos produtivo e menos compensador.
– O João parece ser o marido e pai perfeito...
– É, sem dúvida. As nossas imperfeições completam-se, aceitam-se e contornam-se. O amor é o grande poder.
– Voltar a ser mãe é um desejo?
– Não faço previsões. Esse é um dos grandes males das sociedades ocidentais, pensar demasiado no futuro e viver aquém do presente. Mas estou muito bem com “meus” quatro filhos.
– Está quase a completar 40 anos. A idade preocupa-a?
Coco Chanel dizia qualquer coisa como “uma mulher pode ser deliciosa aos 19, encantadora aos 29, mas é só aos 39 que se torna absolutamente irresistível. E uma mulher que já foi irresistível nunca passa dos 39”. Estamos, por isso, salvaguardadas: a partir desta idade já não avançamos no tempo! [risos]
– Este ano a quadra natalícia é difícil para muitos portugueses. Também se sente afetada pela crise?
– Felizmente sinto-me muito menos afetada que a maioria dos portugueses, mas tenho consciência de que o futuro não está garantido. A minha profissão e a do João estão sujeitas a imensas oscilações porque trabalhamos sempre a prazo e nesse contexto é difícil ter garantias. Procuro focar-me no essencial, ajudando os que me rodeiam e contribuindo para criar um sentido de justiça e responsabilidade social nas minhas missões. Sinto-me afetada, sim, quando quem tem responsabilidades de criar opinião e quem tem responsabilidades governativas faz demagogia com a miséria dos outros. As mentes pequenas não cabem no meu Natal.
– E como é o seu Natal?
– Em nossa casa, com a família reunida. A lembrar os nossos queridos avós, que já não estão por perto.
– E mantêm tradições?
– Sim, as mesmas de sempre, mas sem os nossos avós inspiradores. Mantemos a tradição da mesa com as mesmas receitas: as fantásticas filhós que agora são feitas pela minha tia Lucília, outras delícias feitas pela minha tia Luísa e pela tia Elisa do João, e a minha mãe toma conta do bacalhau. O resto da família delicia-se!
– Esta é uma época mais especial quando se tem filhos...
– Sim e tento recuperar o espírito de sempre: fazer um grande espetáculo antes da meia-noite, com teatro, música e dança. E nestas noites, para variar, não sou eu a apresentadora!
– E eles como estão? Cada vez com uma personalidade mais vincada, não?
– Sim, a ficarem gente! Já não tenho grande decisão no que toca a escolher a roupa da Beatriz e o João Maria já me diz que não é bebé! Enfim, tento agarrá-los o mais que posso antes que cresçam sem eu dar por isso.
– É uma felicidade perceber que todos mantêm ótima relação, incluindo com os filhos mais velhos do João?
– Somos uma verdadeira família e todos têm que cumprir as suas obrigações. Cozinhamos tudo com amor e respeitamo-nos uns aos outros como gostamos de ser respeitados. Acredito que vão ser cidadãos cumpridores, atentos, participativos com capacidade para se indignarem, mas pró-ativos também.

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