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Morreu Ruy Siqueira

Músico e ex-toxicodependente, Ruy Siqueira morreu ontem, dia 27, no Hospital Garcia de Orta, onde estava internado há vários meses.

28 de dezembro de 2011, 16:19

Nascido numa família aristocrata de Cascais, Ruy Siqueira foi um jovem rebelde que cedo se deixou apanhar pelas drogas. Foram 30 anos de excessos - como contou na autobiografia que lançou em 2006, Agarrado à Vida - de que só se livrou aos 50 anos. Pelo meio foi músico, teve uma filha e viajou pelos quatro cantos do mundo. Morreu ontem, no hospital Garcia de Orta, onde esteve internado nos últimos meses.

Recorde a entrevista que a CARAS fez a Ruy Siqueira em 2006:

É músico, escreve e pinta. Considera-se uma pessoa otimista e bem-disposta e diz que ao longo da vida tem feito "muitas asneiras" mas que também tem tido muita sorte. Aos 51 anos, Ruy Siqueira tem um passado marcado pela toxicodependência, que o acompanhou até há pouco tempo. O seu percurso pelas drogas começou aos 16 anos e, apesar de já ter estado limpo, sofreu uma recaída. Até há cerca de um ano e meio, altura em que decidiu pedir ajuda à Fundação Portuguesa para o Estudo, Tratamento e Prevenção da Toxicodependência. Hoje diz sentir-se em paz consigo mesmo mas quer aproveitar o seu exemplo para tentar ajudar outros toxicodependentes.

A ligação com a Casa da Barragem o centro terapêutico da Fundação, local onde se realizou esta produção fotográfica tornou-se especial, e hoje Ruy é relações-públicas, dinamizador de eventos e tudo o que seja necessário para ajudar este espaço. Para a sua recuperação muito contou também o apoio da família, que nunca o abandonou.

A pintora Fátima Mateus, de 40 anos, tem estado ao seu lado nos últimos 14 anos e a filha de ambos, Carlota, de oito, é o grande amor dos pais. Numa conversa franca e sem preconceitos, Ruy contou-nos o seu passado, falou do presente e da esperança que tem no futuro.

- Como começou a sua dependência das drogas?

 - Antes do 25 de Abril não havia informação nenhuma neste país. Lembro-me de uns cartazes, no Largo do Rato, em Lisboa, que diziam 'droga, loucura, morte', a preto e branco. Olhávamos para aquilo como para um anúncio a um detergente. Por isso, quando entrei neste mundo, não tinha a mínima ideia onde me estava a meter.

- Há quanto tempo está recuperado?

- Eu sou e serei sempre um toxicodependente, é assim que me considero. Por isso não bebo álcool nem tomo comprimidos. Não tomo nada que me possa alterar o humor. Mas estou completamente limpo de qualquer substância há cerca de ano e meio. O que não é muito.

- Como começou a trabalhar nesta Casa?

- Vim para cá em tratamento, pois precisava de ajuda profissional e aqui encontrei isso. Não sou um novato nestas coisas e sei que esta Casa me salvou a vida, foi aqui que reaprendi a viver. Cheguei cá física, emocional e espiritualmente derrotado, mas ressuscitei. Aqui estamos sujeitos a um cuidado que vai para lá do limite da compreensão de imensa gente. A equipa que aqui trabalha faz com que uma pessoa como eu se torne uma realidade. Por isso fiquei emocionalmente muito agarrado a esta Casa, e depois de acabar o tratamento continuei a vir cá. A minha ajuda era pedida para fazer algumas coisas e eu fui ficando...

- Como recorda os tempos em que consumia drogas?

- O mote para o jantar que vamos fazer no Palácio dos Congressos diz que 'Ser livre é um vício'. E é como eu me sinto agora, livre. Quando consumia drogas, lembro-me de que havia alturas em que me divertia imenso, até porque vivia numa insanidade que me fazia olhar para certas coisas como se fossem normais. Mas hoje olho para trás e vejo que estava preso. Eu estava viciado numa coisa que achava que me dava liberdade mas que me prendia emocional, monetária e espiritualmente.

- Tem medo de uma recaída?

- Tenho. Com a minha idade e experiência, sei que estou sempre a um passo da recaída, mas já aprendi que depende de mim ter essa recaída ou não. Porque também estou a um passo de pegar no telemóvel e ligar para um amigo ou terapeuta, conversar e ultrapassar um momento mais complicado.

- Que mensagem quer passar ao público?

- Não penso que irei acabar com o problema e mudar o mundo, mas acho que posso ajudar a que as coisas sejam encaradas de outra forma. Porque hoje há muita informação, mas o acesso também é muito mais fácil! O negócio da droga não acaba porque isso não convém a quem poderia acabar com ele. Se conviesse, as coisas seriam feitas de maneira diferente. E eu não tenho medo de dizer isto! Mas penso que é importante tomarmos uma posição e acho que seria um desperdício deitar fora a experiência que possuo. Quero, com o meu exemplo, transmitir a esperança de que há uma saída. Depois de tudo aquilo por que passei, estou bem e com capacidade de fazer música, poemas, cantar, ser positivo e um membro útil da sociedade. Estou a dizer às pessoas para não desistirem. Se já usam, voltem para trás, pois pode sair-se disto, com qualquer idade, em qualquer circunstância. Para quem não usou drogas, não se metam nisto, porque correm um grande perigo.

- Tem medo de que a sua filha queira experimentar drogas?

- Tenho. Mas, por outro lado, tenho uma relação de muito amor e de grande abertura e pragmatismo com a minha filha, apesar de ela só ter oito anos. Ela sabe que eu não bebo álcool porque me faz mal, por exemplo. Mas há sempre esperança, que mais posso fazer? Não me vou preocupar com aquilo que pode nunca vir a acontecer.

- Está com a Fátima há 14 anos. Como é que ela tem reagido a este processo?

Quando a Fátima me conheceu, eu estava em recuperação. Quando tive uma recaída, que foi no álcool, ela sofreu muito com isso, por mim e pela Carlota. Mas conseguimos fazer com que a Carlota não percebesse a degradação em que eu andava. Agora, com estas declarações públicas, ela vai começar a perceber que eu fiz grandes asneiras. Mas espero que também perceba que tive a força e a coragem necessárias para não desistir de mim próprio, da vida. Isso talvez contrabalance o que ela irá saber. Vai saber por mim, claro, mas espero que isso lhe sirva de uma maneira saudável e positiva.

- Como encara o futuro?

- Como um espaço para construir, porque já estou rodadíssimo em destruição! Apetece-me construir coisas bonitas, escrever, fazer música, cantar. Quero ver a minha filha crescer, viver em paz com a minha família e as pessoas de quem gosto. E quero aproveitar a vida e viciar-me em ser livre! Porque este mundo é muito bonito. Nós é que somos complicados.

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