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Carlos Martins, da banda Caruma: “Estão a dar-nos cabo do país e nós cantamos”

Rui Costa, Pedro Santos, José Carlos Duarte, Ana e Carlos Martins são os elementos da banda Caruma, responsável pelo êxito ‘Nossa Senhora do SIS’. Rita Ferro conversou com Carlos Martins que, além de músico, é também o autor das letras.

Rita Ferro
25 de dezembro de 2011, 17:37

São cinco, vieram de Leiria e da Marinha Grande, formam uma banda chamada Caruma, gravaram a expensas próprias o primeiro álbum e, em tempo recorde, ficaram conhecidos a nível nacional. Um dos seus êxitos, Nossa Senhora do SIS, não passa de moda pelas palavras cruas, certeiras e mordazes, constituindo um verdadeiro hino de desmantelamento da figura prepo­tente e anacrónica do macho misógino. Presencialmente são de uma simpatia, coesão e naturalidade contagiantes.  Dizem-se contra os maneirismos, o machismo e o poder político actual, e as suas letras são eivadas de ironia no que toca a costumes e a comportamentos. O êxito antecipou-se às próprias expectativas, os convites para tocar sucedem-se, mas não perdem o fio à meada: vieram para estoirar com algumas tradições acéfalas e para meter o nariz onde não são chamados. São o Rui Costa (baixo e guitarra eléctrica), o Pedro Santos (euphonium, piano e hammond), o José Carlos Duarte (bateria), o Carlos Martins (voz e guitarra acústica) e ainda a Ana, vocalista e única mulher do grupo, mas com uma voz que se impõe e enfatiza o recado. Rita Ferro esteve com todos os elementos no Hotel Mirage, em Cascais, e falou com o Carlos Martins, que é, além de músico, o autor das letras que tantos já entoam.
– Que condições vos juntaram?
– Havia nove temas que queriam ver a luz do dia e para isso precisaram de músicos. O Carlos convidou o Rui, o Rui trouxe o Pedro, o José Carlos estava ali a jeito e trouxe a Ana.
– Demoraram até acertar no elenco?
– Foi muito rápido. Desde a formação até à edição do álbum tudo aconteceu naturalmente como se sempre tivéssemos existido e o encontro entre todos decorreu num clima de pura magia: uma enorme fluidez no contacto pessoal, uma sintonia raríssima entre perfis tão diferentes, uma consonância imediata com o espírito da banda – foi um chegar a casa, uma adesão tão natural como seguir o som de uma flauta.
– Quando se estrearam e onde?
– No dia 30 de Abril de 2010, no Teatro Miguel Franco, em Leiria, no âmbito do Fade In. Por tradição, o festival acolhe grupos consagrados e nesse aspecto estávamos em desvantagem. A Caruma não tinha ainda experiência de palco, mas apesar do feixe de nervos a sala encheu-se e a aposta foi ganha.
– Que dificuldades enfrentaram? É preciso ser-se muito teimoso, não é?
– Sempre acreditámos neste projecto e ser teimoso ajudou. Os obstáculos foram ra­pidamente ultrapassados, até porque o que mais nos importava era não perder de vista o que realmente nos interessa e respeitar a mensagem que queremos passar. Não foi fácil, porque alguns de nós tiveram de investir em instrumentos e o primeiro álbum foi gravado à nossa custa. Mas compensou: recebemos logo várias propostas de editoras e de agenciamento.
– Onde ensaiam?
– Em casa uns dos outros. Temos a sorte de ter familiares com muita paciência. A fase de composição é mais solitária, cada um trabalha por si e mostra aos outros o que fez. Depois, quando chega a fase de ensaiar, fazemo-lo com moderação, até para não perdermos espontaneidade no palco.
– Quando sai o próximo álbum?
– Se tudo correr bem, no princípio do ano. Haverá temas com maior carga política, social e até religiosa, e ainda uma surpresa de fado que, parecendo agora deslocada, fará todo o sentido no contexto – constitui uma espécie de duelo entre o fado clássico e tradicional e a nova projecção identitária da nossa juventude, que mudou radicalmente, mas hesita em situar-se.
– E as letras, Carlos, que acabam por ser o ex-líbris da personalidade dos Caruma?
– A intervenção é inevitável, os artistas também servem para dizer o que as pessoas sentem e não têm tempo nem facilidade de expressar. Aliás, todas as músicas são de intervenção desde que transportem em si uma verdade. E a nossa verdade passa pela procura de um determinado país que ainda existe, mas que já mal reconhecemos. Nessa linha, somos totalmente contra os maneirismos, o machismo e o poder político actual. Na essência é isto: estão-nos a dar cabo do país e nós cantamos. Mas não é como quem assobia para o lado, é mais um berro com classe do que outra coisa. [risos]
– O êxito brutal do tema Nossa Senhora do SIS apanhou-vos desprevenidos?
– Sim. É duma gratidão enorme sentir que as pessoas o adoptaram e se identificam com ele.
– Como se eu não soubesse: quem é a Nossa Senhora do SIS?
– É a padroeira do que cheira a mofo. Aliás, todo o álbum exprime uma luta entre convenções, padrões empedernidos e falsidade e a visão de um futuro norteado pela esperança, a verdade e a claridade.
– O Carlos Matos, da Associação Fade In de Leiria, definiu o vosso estilo como pop-marialva. Revêem-se neste epíteto?
– Sim. O Carlos Matos tem um olho (leia-se ouvido) muito aguçado, é um homem com uma cultura musical gigante, quase freak, e foi depois do nosso primeiro concerto, que ele próprio organizou, que utilizou a expressão. A intenção, evidentemente, não foi chamar-nos marialvas, mas destacar o nosso modo descarado e de certo modo galifão de abordar as questões, dizendo pouco e muito ao mesmo tempo, com uma segurança quase... marialva.
– Que projectos têm?
– Queremos tocar, há muito por dizer. Havendo, haverá Caruma. Queremos che­gar cada vez mais aos jovens, contactá-los directa­mente, tocá-los, estimular neles uma certa responsabilidade pelo seu destino, e conseguir manter este mesmo espírito ao longo de toda a carreira, sem desfalecimentos.
– Que recado gostarias de deixar às novas gerações?
– Que não aceitem de mão beijada o menu que lhes põem à frente, que questionem tudo o que lhes acontece. Concordo que se vá para a rua protestar, mas não para pedir antídotos como quem pede medicamentos para as dores. A corrupção grassa, as pessoas deveriam ser extraordinárias mas não são, há corruptores e corruptos, pelo que o resultado é uma democracia falível e gulosa, que se aproveita dos buracos do sistema e lucra com eles. Ir para a rua, sim, mas sabendo exactamente não o que está mal, mas por que razão está mal e como pode ser mudado.
– O que é que te irrita mais neste país?
– Irrita-me que as novas gerações não saibam o que significa ser português e as poten­cialidades que temos como povo. Educar não é injectar informação na cabeça dos miúdos, é dizer-lhes quem são e de onde vêm, até porque ser português é uma vantagem e em muitos aspectos a maioria dos jovens desconhece esse poder. A tendência é para sermos mais ame­ricanos e europeus do que portugueses, é para pôr nomes estrangeiros a bares e discotecas nacio­nais por se achar mais de vanguarda, quando isso, em si, apenas revela atraso e provincianismo. Ser português é maravilhoso e poderoso e tem uma energia e uma valia pró­prias que muitos não usam a seu favor por completo desconhecimento da nossa história e da nossa identidade. De tanto querermos ser iguais aos outros acabamos por ser nada.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico

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