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Clara de Sousa: “A experiência faz-nos perder a ingenuidade”

Recentemente separada, a jornalista da SIC garante estar rodeada de amor e, principalmente, do amor-próprio que faz questão de alimentar. Aos 44 anos, mostra “a mãe e a mulher” num livro de receitas.

Paulo Brilhante
20 de dezembro de 2011, 13:14

“Quando sinto que a realidade me pesa, ‘fujo’ para os meus velhos tachos e panelas, aqueles que já me conhecem tão bem como eu os conheço a eles.” As palavras são de Clara de Sousa, a “mulher e mãe” que deixa a jornalista à porta para escrever um livro de receitas que agora apresenta. Aos 44 anos, celebrados no passado dia 29 de novembro, e com dois filhos, Manuel, de 15 anos, e Maria, de 12, frutos do seu primeiro casamento, com Francisco Penim, a pivô da SIC abriu-nos a porta de um espaço especial de sua casa: a cozinha. O divórcio de André Marques, editor de imagem da SIC com quem casou, em segredo, em maio de 2009, e de quem, há cerca de três meses, confirmou estar separada, continua a ser um ingrediente proibido numa entrevista polvilhada de silêncios, feita a propósito do livro “A Minha Cozinha”. A obra é também uma homenagem à mãe, que morreu em 2002, vítima de cancro. “Para a minha mãe, de cuja massa sou feita e que me moldou”, pode ler-se na dedicatória.
– O que se pode encontrar neste livro?
Clara de Sousa  – Partilhas com muito significado. Para muitos pode ser um livro de receitas, para mim são momentos com história que têm lembranças gustativas, olfativas… São pequenas viagens ao passado, cheias de afetividade e de sentimentos. Há muito de mim neste livro, que foi feito com imensa dedicação, muito amor e muito entusiasmo. Foram momentos maravilhosos que resultaram num livro com receitas simples e económicas. Era algo que queria fazer há já algum tempo, mas ainda não tinha acontecido aquele ‘clic’, que acabou por ser a minha presença na rubrica Na Cozinha, do programa da Conceição Lino.
– Além dos dotes e conhe­cimentos de cu­li­nária, sente que este é também um ato de coragem, uma vez que a sua cozinha é agora de todos?
Não sinto que este livro seja um escancarar de portas da minha vida. É a minha cozinha, simplesmente a minha cozinha, e não o meu quarto. Por outro lado, penso que as pessoas não têm que ser ou viver formatadas. Podem ter múltiplos talentos e não estar, obrigato­riamente, fe­chadas no cubí­culo que diz informação ou jornalista.
– O seu ta­­lento de co­zi­nheira fica a dever-se, e muito, à sua mãe, a quem, inclusi­vamente, dedica o livro. É uma forma de lhe prestar homenagem?
É, porque no fundo a minha mãe é a figura inspiradora. Não é segredo para ninguém que a minha mãe era cozinheira profissional, mas, acima de tudo, e até mais do que aquilo que me ensinou, a minha mãe era uma força da natureza. Sendo, por tudo, uma pessoa tão inspiradora, obviamente que este livro tinha de lhe ser dedicado, estivesse ela aqui ou não, como é o caso.
– No livro, as sobremesas ocupam um lugar de destaque, nomeadamente na quantidade de sugestões apresentadas. É o reflexo de uma autora com personalidade doce?
[risos] Depende… Tal como as outras pessoas, tenho tanto de doce como de ácido. Tenho os meus bons e os meus maus momentos. Por regra, não sou muito ácida, mas se tiver de ser, também o serei. Acima de tudo, não podemos ser tão doces ao ponto de nos deixarmos espezinhar. Não, isso não!
– Mas a cozinha, ou pelo menos a sua cozinha, reflete ou não os seus estados de espírito?
Sim, sem dúvida que reflete. Se é um daqueles dias em que acordo mal disposta, vou para a cozinha e passo lá horas a fazer coisas de que não preciso. Quando estou com a neura – o que acontece, por norma, aos fins de semana –, dedico-me aos doces, não para os comer, mas para depois os levar para a SIC. Nestes casos, a cozinha ajuda-me a descomprimir. Por outro lado, quando se está a cozinhar para alguém que sabemos que gosta de nós e nos transmite uma boa energia, o resultado final é sempre muito melhor e vai ao encontro daquela que é a minha perspetiva da cozinha: uma pitada de amor é fundamental. E essa é umas das maiores heranças que a minha mãe me deixou.
– Celebrou recentemente 44 anos, confirmou o fim do seu casamento com André Marques em setembro. Sente que a sua vida está a precisar de uma nova pitada de amor?
A minha vida está cheia de amor. Estou rodeada de amor por todos os lados e, graças a Deus, tenho uma família e amigos que são muito importantes na minha vida. Nunca me faltou amor e, além do mais, tenho o amor-próprio, que habitualmente faço questão de alimentar. Sou uma pessoa muito positiva, que não gosta de dramas. Sou uma pessoa que gosta de olhar em frente e sei que tenho muita energia e uma força que, apesar de não ser inesgotável, até hoje não me atraiçoou.
– Esse olhar em frente passa, obrigatoriamente, pelo fim de um casamento, assunto sobre o qual não fez, até hoje, quaisquer comentários públicos. Porquê?
A experiência faz-nos perder a ingenuidade. Acho que esta frase diz tudo. A experiência, os anos que passam e o que aprendemos fazem-nos perder a ingenuidade. Não nos roubam a essência, não nos roubam aquilo que há mais verdadeiro em nós, mas roubam-nos, e em certo aspeto ainda bem, a ingenuidade. Há um tempo para tudo…
– Já disse que gosta do espírito de renovação de cada ano. O que vai mudar em 2012?
Sem voltar, é como se voltasse ao início. É uma renovação que, no entanto, para mim, não começa a 1 de janeiro, mas sim a 29 de novembro [data do seu aniversário]. É como regressar a uma base para depois recomeçar. Nada disto está relacionado com o facto de se estar casada ou solteira, mas sim com a forma como encaro cada novo ano, que significa sempre começar do zero.
– E que significa também um balanço de vida ou, pelo menos, dos últimos 365 dias?
Os balanços não têm hora marcada. Os balanços devem ser feitos sempre que alguma coisa é questionada. É algo que acontece naturalmente ao longo do ano e feito em relação a todas as facetas da nossa vida. Como disse, não peço nada para o novo ano, mas, com a maior das sinceridades, 2012 é um ano que me preocupa muito. Vai ser um ano muito duro e com perspetivas de futuro muito difíceis. Para quem é mãe, pensar que, ao contrário do que os meus pais fizeram, não vou conseguir deixar um mundo melhor para os meus filhos é uma sensação de impotência avassaladora.
– A Clara disse numa entrevista que gosta de ser surpreendida pela vida. Até porque o Natal se aproxima, que surpresa gostaria de ter?
Uma vez que gosto de ser surpreendida, não posso pedir [risos]. E a verdade é que nada peço, a não ser estar bem, ter energia para trabalhar, para tratar das minhas coisas, para estar com os meus filhos e com as pessoas de quem gosto. Não sou pessoa de pedir, mas de fazer, porque se nos esforçarmos, as coisas acabam por acontecer. A vida encarrega-se de dar o retorno a quem provar o seu empenho.
 

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