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Luís Borges e Eduardo Beauté contam toda a história do bebé com Trissomia 21 que os conquistou

“Vai ser um Natal especial e diferente, com toda a família reunida.”

Cláudia Alegria
30 de novembro de 2011, 18:05

Este tem sido um ano de emoções fortes para Luís Borges e Eduardo Beauté. Depois de terem oficializado a sua relação em maio, o manequim, de 23 anos, e o cabeleireiro, de 44, tomaram a decisão de assumir a paternidade de Bernardo, o menino que conheceram em abril e que os conquistou desde o primeiro minuto. Depois de alguns percalços e mal entendidos, o casal está agora ansioso pelo dia em que será tomada uma decisão em relação ao pedido de custódia partilhada com que deram entrada em tribunal, e tudo indica que tal deverá acontecer nos próximos dias. Se a decisão for favorável, Eduardo e Luís ficarão com poderes paternais sobre Bernardo, ou seja, serão responsáveis pela educação, crescimento e desenvolvimento do menino até ele chegar à idade adulta, sempre com a presença da sua mãe biológica. Quanto a esta, concordou que seria a solução para assegurar um futuro melhor para o seu filho, já que não terá condições financeiras que lhe permita assegurar os cuidados de que uma criança portadora de Trissomia 21 necessita. Durante a entrevista que deu à CARAS, o casal mostrou-se entusiasmado com esta nova fase da sua vida, e revelou como será o Natal deste ano, o primeiro que passam juntos em família.
– A custódia partilhada terá sido a alternativa possível, uma vez que a adoção não será legalmente permitida a casais homossexuais?
Eduardo Beauté –
O tema adoção começou a surgir em alguma imprensa sem que nós tivéssemos falado dele, até porque nesse caso haveria um desvincular total da mãe e da restante família, o que não acontece, nem é o que pretendemos. É importante o Bernardo crescer com a presença da mãe e das duas irmãs.
Luís Borges – E de facto em Portugal também ainda não é possível a adoção de crianças por parte de casais homossexuais.
– Quando se casaram, já fazia parte dos vossos planos partilhar a vossa vida com uma criança ou foram as circunstâncias que ditaram esta decisão?
Logo a seguir ao casamento, passou a fazer sentido sermos pais. É o sonho da maioria das pessoas. Como a adoção não é permitida, chegámos a ponderar a hipótese de recorrer a uma barriga de aluguer. Sempre gostei de crianças, e adoraria também ser pai de uma menina negra.
Eduardo – Sempre falámos em ser pais, de uma ou mais crianças, não esperávamos é que fosse tão cedo. Mas Deus quis pôr o Bernardo no nosso caminho e nas nossas vidas.
– Em que circunstâncias é que conheceram o menino?
Em abril, uma tia-avó do Bernardo apareceu no nosso salão de cabeleireiro e propôs que eu e o Luís o criássemos como nosso filho. O Luís, que na altura estava a trabalhar em Nova Iorque, conseguiu ter mais sangue-frio e achou que seria melhor esperar mais algum tempo, uma vez que já estávamos a dar um grande passo com o casamento, que se estava a aproximar. Além disso, o cenário traçado por essa tia-avó em relação ao contexto familiar da criança assustou-nos, o que, mais tarde, viemos a constatar não correspon­der de todo à realidade. A verdade é que ela se tinha responsabilizado pelo menino, mas rapidamente percebeu que não era fácil criá-lo e educá-lo, sendo uma criança com Trissomia 21. Na minha opinião, ela quis libertar-se dessa responsabilidade, dando a entender à família que o ia entregar a duas pessoas idóneas e responsáveis. Quando a família se apercebeu disto, considerou um abuso de confiança, mas toda aquela situação acabou por proporcionar um encontro entre nós e a família materna do menino, com quem temos hoje uma excelente relação. É uma família humilde e muito trabalhadora. Pouco tempo depois, foi a própria mãe quem nos propôs avançarmos para a custódia partilhada, dizendo-nos que seria o melhor para o futuro do menino, o que considero ser um verdadeiro ato de amor para com o seu filho.
– Houve algum momento de hesitação da vossa parte?
Luís –
Assustei-me quando o Eduardo me falou pela primeira vez do Bernardo, porque achava que era cedo demais, mas quando vi o menino entrar pela primeira vez no salão esqueci tudo isso. Foi amor à primeira vista. No fim de julho decidimos que iríamos ficar com o Bernardo, porque não só já estávamos rendidos, como ele pre­cisava de cuidados que a tia-avó não estava a conseguir dar-lhe.
– Pouco tempo depois o menino foi-vos retirado, quando já tinham criado uma ligação emocional com ele. Foi um momento muito doloroso?
Eduardo –
Em agosto, ele foi de férias connosco para o Algarve e, como surgiram fotografias na imprensa, a tia-avó teve de se justificar à família, que não sabia que o menino estava connosco. Quando voltámos para Lisboa, ela foi a nossa casa, pegou no menino e levou-o. Estivemos cerca de 15 dias sem o ver, foram dias horríveis. Entretanto, no final de agosto, foi a mãe quem decidiu procurar-nos. Conversámos e chegámos à conclusão de que o melhor seria o menino ficar comigo e com o Luís. Foi quando nos encontrámos com o advogado, o Dr. Luís Bello dos Santos, e tratámos de tudo para oficializar a custódia e ficar com poderes paternais.
– O Eduardo foi pai muito jo­vem, de um menino que nasceu prematuro e morreu aos seis me­ses. O Luís foi entregue pela mãe a uma instituição quando tinha apenas dois meses e, mais tarde, adotado por uns tios. As vossas histórias pessoais terão certamente pesado nesta decisão de quererem ficar a tomar conta do Bernardo, sobretudo tratando-se de uma criança diferente...
Luís –
Acho que a minha história terá pesado mais. A minha mãe não tinha condições para me criar e achou por bem entregar-me a uma instituição. Mais tarde, os meus tios tomaram a decisão de pedir a minha guarda e acabaram por me criar. É isso queremos que aconteça com o Bernardo: criá-lo e dar-lhe o amor que os meus tios me deram a mim.
Eduardo – Eu fui pai muito jo­vem e, infelizmente, o bebé não resistiu a graves problemas de saúde. Mas aqueles seis meses de vida foram tão bons e felizes, foi tanta a alegria, que fiquei sempre com vontade de voltar a ser pai. Nunca deixei de ter fé e esperança de que isso acontecesse. Se o Bernardo não tivesse esta diferença, a decisão seria a mesma. Mas, obviamente, apegámo-nos ainda mais ao Ber­nardo quando soubemos que tinha Trissomia 21.
– E tornou tudo mais urgente?
Este ano aconteceu tudo nas nossas vidas. Casei com a pessoa que amo e com quem quero se­guir a minha vida. Depois fomos abençoados com um filho. Em tão poucos meses, foram muitas as emoções. E muito fortes!
Luís – O meu ano ainda correu melhor! Casei-me, tive um filho e ainda ganhei um Globo de Ouro! [risos] Foi um ano em cheio!
– A sociedade convive mal com minorias. Não receiam que o Bernardo seja alvo de discriminação, seja por ser diferente, seja por ser educado por dois homens?
Eduardo –
Ser diferente já será motivo para ser alvo de discriminação, e ser educado por dois homens pode levar a que seja ainda mais discriminado, porque, infelizmente, ainda vivemos num mundo com alguns problemas de saúde social, como a homofobia e o racismo. A não aceitação da orientação sexual das pessoas é uma doença que afeta alguns nichos da sociedade. Claro que temos de proteger o Bernardo, mas o que interessa é a nossa felicidade e, eventualmente, de mais alguma criança que venha a fazer parte das nossas vidas. Tenho de ser feliz e não me posso preocupar ou viver reprimido por causa dessa doença que, suponho, terá tendência a diluir-se com o passar dos anos. Há uns anos, por exemplo, esta conversa seria impossível...
– Vocês foram, aliás, das primeiras figuras públicas a assumir publicamente o vosso relacionamento e a oficializá-lo...
Para viver em sociedade sou obrigado a confrontar-me com esses nichos. Se todo este mediatismo à nossa volta puder abrir horizontes e ajudar a curar essa ‘doença’, de forma a que daqui a uns tempos os nossos filhos e so­brinhos já não tenham de passar por aquilo que eu e o Luís passámos... Que a nossa relação, a nossa vida, não seja uma bandeira, mas um exemplo, para que as pessoas percebam que somos pessoas normais. Infelizmente, ainda há muita discriminação e preconceitos em relação à homossexualidade, sendo frequentemente confundida com pedofilia ou sida.
–Dividem as tarefas relacionadas com o Bernardo? Quem é que, por norma, muda as fraldas, dá banho e se encarrega das refeições?
Luís –
Eu! [risos] Quando estou fora de Portugal, é o Eduardo quem tem de tomar conta do Bernardo, apesar de termos uma ama que nos ajuda muito.
Eduardo – Todas essas tarefas são maravilhosas, até porque é nessas alturas que o Bernardo nos surpreende sempre com algo de novo. Cada dia que passa amamo-lo mais!
– Sendo portador de Trissomia 21, o Bernardo terá certamente necessidade de um maior acompanhamento...
Sim, tem uma psicopedagoga que o acompanha de segunda a sexta-feira, duas a três horas por dia, porque estas crianças precisam desse acompanhamento especial.
– Este Natal será certamente um muito especial para todos?
Sim, vai ser um Natal especial e diferente, até porque vamos reunir toda a família, com muitas crianças, alegria e presentes. Vai ser o primeiro Natal que passamos casados e com um filho.

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