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Rita Ferro: “Sou uma apaixonada pela vida, festejo-a de todas as maneiras”

A morte da mãe levou a escritora a visitar o seu passado no livro “A Menina é Filha de Quem?”.

Ana Oliveira
16 de novembro de 2011, 00:16

A publicação do romance autobiográfico A Menina é Filha de Quem? foi o pretexto para esta conversa com Rita Ferro, que o escreveu na sequência da morte da mãe, Paulina Roquette Ferro, em agosto de 2010. Na tentativa de fazer perdurar a memória da mãe, a autora recupera vários episódios que envolvem os avós paternos – a poetisa Fernanda de Castro e o escritor modernista e colaborador de Salazar António Ferro – e o pai, o escritor António Quadros. Sobre os irmãos, António e Mafalda Ferro, guarda uma prudente reserva, sabendo que não gostam de se expor. No dia em que decorreu esta entrevista, o filho de Rita, o humorista Salvador Martinha, ainda não o tinha lido, mas a filha, a psicóloga Marta Gautier, já se entusiasmara a descobrir melhor a avó materna. Um retrato que a autora teme não ser justo, mas que não será definitivo, já que, promete, este deverá ser “o primeiro livro de uma saga biográfica”.
– A sua mãe manteve-se firme no casamento, mesmo sabendo que o marido nem sempre lhe era fiel...
Rita Ferro – Durante toda a vida me perguntei porque é que as mulheres aguentam casamentos tão longos, mas no caso da minha mãe, acho que no fim ganhou. Ela gostava imenso do meu pai e não queria divorciar-se e acabou por realizar um sonho que eu não consegui. Teve endurance para se manter naquele casamento e no fim acabar ao lado dele. Foram 50 anos de paixão profunda pelo meu pai, e isso admiro muito.
– Como é que ela viu os seus divórcios?
– Não dialogava muito comigo. Havia da parte dos dois – o meu pai ainda apanhou dois divórcios – uma censura: casaste, agora tens de aguentar, porque era esse o padrão deles. E faziam uma batota: serem extremamente amigos dos genros. Lembro-me de ir lá dormir já depois de separada do meu primeiro marido e, no quarto onde eu ficava, estar uma fotografia dele. Aquilo não era inocente, havia uma indução velada para que eu regressasse à situação que de alguma forma os tranquilizava.
– Mas conheciam-na o suficiente para saber que não é pessoa de voltar atrás...
– Bom, no primeiro casamento ainda não me conheciam assim tão bem nesse aspeto, porque eu tinha 20 anos. No segundo, sim, já percebiam.
– Quando descreve a sua mãe, imaginamos uma pessoa sempre elegante...
– Sim, o que conseguia com completa naturalidade. A minha mãe era uma pessoa vaidosa, lembro-me de a ver arranjar-se sempre antes de o meu pai chegar. Nunca a vi de roupão, por exemplo. O primeiro reparo da minha mãe para os filhos era sempre para a apresentação: “Estás despenteada, não gosto dessa camisola, essas calças fazem-te o dobro do tamanho...” A estética era quase uma obsessão. E as minhas avós tinham o mesmíssimo sentido estético em relação à casa e ao aprumo com que se arranjavam. Portanto, levei com essa overdose.
– E reagiu bem?
– Reagi muito mal e tive de fazer opções. Nós sabemos que uma mulher, para estar irrepreensível, tem de pensar nisso, tem de dedicar parte da sua criatividade à maneira como se arranja, o que eu acho um bocadinho menor, sinceramente. Portanto, temos que optar entre pensar, raciocinar, trabalhar, ou estar impecáveis. As duas coisas... enfim, acontece, há supermulheres, mas eu não quero ser uma supermulher.
– No livro menciona uma conversa com a sua mãe em que ela diz que a Rita precisa mais que rezem por si do que os seus irmãos. Quer explicar?
– Digamos que os meus irmãos são muito mais sensatos na vida. Apesar de também terem tido uma história de casamentos – nós casamo-nos muito e separamo-nos muito, já vamos todos na terceira volta, alguns candidatos a uma quarta –, uma coisa já provámos, que não tem nada que ver com os nossos pais: quando estamos mal, mudamo-nos. Aí diferimos do modelo de constância sentimental da nossa mãe.
– Também por ser outra época...
– Talvez, mas nós exageramos, estamos à frente da modernidade. A modernidade é casar duas vezes. [risos]
– No seu caso, isso terá que ver com esse ritmo frenético que a leva a acumular dezenas de atividades? Escreve livros, entrevistas, crónicas, no seu blogue e nos dos outros, onde está sempre pronta a responder, faz o programa Moeda de Troika na RTP, e outro na rádio... Quantas horas tem o seu dia?
– Se calhar sou hiperativa, ou melhor, sempre fui. Sempre tive essa noção de limite da vida, e, sobretudo, de limite das faculdades.
– Assusta-a a ideia de ficar mais velha?
– Sim. A partir dos 70 anos as pessoas escrevem pior, passam a ter menos memória, menos agilidade e mobilidade para viajar, portanto, o que acontece é que eu aproveito todas as oportunidades da vida, abro todas as portas. Além de já ter mudado dezenas de vezes de casa, já mudei dezenas de vezes de cenários profissionais.
– Há todo um inconformismo em relação à vida em geral...
– Sim... eu até gosto mais da palavra irrequietude. Sou irrequieta. Rapidamente me maço. As coisas, para mim, são para consumir. Consumi, está visto, vamos para outra.
– E como é que conseguia fazer isso na juventude, numa época em que era mais espartilhada pela educação, pela sociedade?
– Tinha castigos! Há uma história que conto no livro: a minha mãe era vigiada antes de ir para as festas e davam-lhe água de flor de laranjeira quando achavam que ela estava muito excitada, para não “fazer figuras”. Comigo o padrão reproduziu-se, também ouvia: “Acho-te um bocado exaltada!” [risos]
– E chegava ao ponto de a proibir de ir a uma festa pelo que previa do seu comportamento?
– Sim, sim. Embora tenha dito várias vezes que não aprecio por aí além a longevidade – não é para mim um valor extraordinário, prefiro uma vida cheia a uma vida longa –, sou uma apaixonada pela vida. Festejo-a de todas as maneiras.
– Essa contenção de comportamento que a sua mãe exigia também remete para a educação católica. Há um certo peso ca-tólico na família...
– Há, mas neste momento não vou à missa. Sou melhor cristã do que católica.
– Porque a vida vos encaminhou noutro sentido...?
– Eu não sei se os padres, por exemplo, compreendem isto, mas há uma coisa em concreto que me afastou da igreja: as pessoas que se casam pela segunda vez, o que não podem fazer pela igreja, não devem comungar, e eu acho que uma missa sem comunhão não é a mesma coisa. Isto pode parecer um absurdo – vamos ali prestar um culto, vamos refletir – mas a mim afastou-me da igreja.
– Mas pensa em si como uma católica?
– Eu absorvi de tal maneira o catecismo, foi-me inculcado de uma maneira tão forte, que acho que aqueles rudimentos, os princípios fundamentais, são o fiel da balança das minhas escolhas. Posso desviar-me, como já me desviei várias vezes, mas é sempre aquela a norma que tenho. Acho que não há modelo mais perfeito para transmitir moral que o da igreja católica.
– São depois as questões práticas que não funcionam...
– As questões práticas e, sobretudo, as duas vidas que nós fazemos, uma que tem a ver com uma certa obediência a essas normas e outra em que lhes desobedecemos para nos aguentarmos em prova na vida pragmática, e que são normalmente antagónicas.
– Como é a sua rotina de escrita?
– É mesmo a única rotina que tenho, escrever, de resto, não tenho rotinas. Nunca me dispo para a mesma cadeira, quando chego a casa não pouso os óculos e as chaves no mesmo sítio... Não consigo ter rotinas, nem sequer na hora de tomar refeições. A única coisa com que não posso brincar é precisamente com a escrita, porque não se compadece com criatividade selvagem. Tenho de me levantar cedo, quando estou mais fresca de cabeça, e escrever até às quatro da tarde. A minha escrita é penalizada quando paro um mês, dois meses. Perde-se o ritmo, já não se escreve aquele livro, começa-se a criticar...
– Escreve no livro: “Cruzar o charme discreto da burguesia com a viagem ao fim da noite foi um distúrbio que, já percebi, passei aos meus filhos.” Soa a falsa queixa...
– Sim, mas é um distúrbio, porque de facto há uma clivagem tão grande entre alguma profundidade com que se vive a vida e depois a leveza das relações sociais. Que não são tão leves como se pode pensar, senão não fumávamos nem bebíamos o dobro! Aparentemente, as relações sociais são frívolas, mas acho que cansa menos lavar uma casa de banho do que ir a um jantar.
– Essa opinião não resultará de ter observado as tertúlias em casa da sua avó poetisa, com a vibrante Natália Correia e outras figuras de peso como Ary dos Santos numa ‘guerra’ de egos?
– Não, não é por isso, é que acho que as ondas contrastantes de uma reunião social, de um encontro – não sei como hei de pôr isto, também não quero que me julguem antissocial – são difíceis. A adaptação a diferentes pessoas ao mesmo tempo é uma coisa desgastante.
– Mas não foge desse convívio social...
– Não, mas doseio muito.
– Já a ouvi dizer que cada vez gosta mais de objetos que de pessoas.
– Reconheço que é uma blague que pode inferir um certo atraso de sensibilidade, mas há pessoas tão exasperantemente chatas e objetos tão redentoramente inspiradores!
– Quem entra em sua casa não tem dificuldade em perceber que valoriza os objetos... Tem aqui toda uma vida em pequenos testemunhos. Se tivesse de guardar apenas um ou dois, seria capaz de os escolher?
– Seria. Escolheria uma peça que está ligada à parte da maternidade [pega numa peça de bronze com a imagem de uma mãe e um filho], que é sempre a mais importante. Sou muito maternal, os bebés calam-se todos ao meu colo, e tenho a mesma tendência na vida amorosa, que é um erro horroroso, mas até me provarem o contrário os homens são todos meus filhos.
– E um dia saem de casa e vão à vida deles...
– O que vale é que fui sempre eu a sair.
– E sai-se assim facilmente de casa?
– Levo um tempo, mas na hora de sair, saio, até para não profanar o melhor da relação.
– Não a imagino uma mulher de arrependimentos.
– Não sou. Sou muito escrupulosa, o que é diferente. Agora em relação às coisas que fiz, nunca me aconteceu arrepender-me. Não as faço levianamente, quando faço é porque já estou plenamente decidida.

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