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José Fidalgo esforça-se por não ser um pai ausente: “Sofro muito mesmo por não ter o meu filho e a minha mulher mais perto”

Aos 32 anos, o ator diz que não é fácil conciliar carreira e família, mas que tenta ser um bom pai e marido.

Rodrigo Freixo
17 de outubro de 2011, 10:06

Na ficção é perseguido por papéis de vilão, mas na vida real José Fidalgo, de 32 anos, assume-se como um pai dedicado, preocupado com os valores que transmite ao filho, Lourenço, de dois anos. Por isso mesmo, esforça-se por encurtar os 300 quilómetros que o separam da família, que vive no Porto. Até porque o apoio da mulher, a empresária Fernanda Marinho, de 45, é fundamental para o seu bem-estar e imprescindível para que consiga continuar a apostar na sua carreira de ator, que para José implica dedicar-se a cem por cento aos trabalhos que aceita, como acontece agora, na novela Rosa Fogo, da SIC, que protagoniza, interpretando o papel de Diogo Martins, o mau da fita. Ou um “bom vilão”, como prefere chamar-lhe.
– Aparenta ser um homem determinado e que conhece bem os seus limites...
José Fidalgo – Conheço os meus limites, mas preciso muito de um olhar crítico na construção seja do que for. E preciso de alguém que esteja em sintonia comigo. Ao longo destes anos todos como ator chego à conclusão de que preciso sempre de um realizador ou de uma direção.
– Isso a nível profissional. E na sua vida pessoal?
– Preciso sempre de uma mulher ao meu lado.
– Ou seja, a Fernanda. Ela também avalia ou critica o seu trabalho?
– Sim, bastante. A minha mulher tem o ponto de vista de alguém de fora e expõe de uma forma crítica, o que me ajuda imenso no meu trabalho. Além da perspetiva que ela tem sobre a vida, a nível empresarial e com a experiência de muitos anos, acaba depois por entrar em concordância com a nossa maneira de viver enquanto atores. Porque por muito que possam ter uma imagem intelectual do nosso trabalho, nós não podemos esquecer nunca o lado comercial deste trabalho. E a minha mulher ajuda-me muito nesse aspeto.
– É considerado um dos galãs das novelas portuguesas. É fácil para a sua mulher lidar com isso?
– Ela fica contente por me catalogarem assim [risos]. Quando nos conhecemos, eu já trabalhava como ator há muitos anos. O que eu sinto é que ela tem orgulho em mim e isso é muito bom.
– E ela lida bem com as condicionantes que a sua profissão impõe à vossa vida familiar?
– Eu estou em Lisboa, a minha família está no Porto, por isso, para meu bem, da minha mulher, do meu filho, faço constantes ‘piscinas’ entre Lisboa e o Porto. Faço tudo o que está ao meu alcance para que não existam desequilíbrios na minha vida familiar, mas quando eles acontecem fazemos por encontrar soluções.
– E a essas condicionantes ainda acresce o facto de ser figura pública, o que nem sem é fácil...
– Sem dúvida. A vida de qualquer pessoa que se expõe publicamente nunca é fácil, seja pelos bons ou maus motivos. Por mais que as pessoas possam pensar que a nossa vida é bonita e fácil, ela tem tudo menos isso. Estamos constantemente expostos. Agora estou a falar sobre a minha vida privada, por decisão minha, mas não deixo de me expor. Se bem que no caso da vossa revista, as coisas sejam feitas com conta, peso e medida. É certo que têm de obedecer a determinados critérios para terem audiências, e eu percebo isso, mas sabem separar as coisas, o que ajuda o público a fazer o mesmo.
– Mas é o público que pede um pouco desse lado, não é?
– Pede e eu acredito que tenho que dar um pouco. Mas é preciso saber quais são os limites e não nos deixarmos levar pela sede que existe de todo o tipo de detalhes.
– Anseia pelo momento em que poderá acalmar profissionalmente e estar mais próximo e disponível para o seu filho?
– Penso nisso, sim, mas gosto muito da vida que tenho. Sofro muito mesmo por não ter o meu filho e a minha mulher mais perto, por não ter uma vida mais normal, mas acho mesmo que nasci para ser ator. Por mais que isso implique esforçar-me para mostrar o meu valor, independentemente das circunstâncias da vida e de como o nosso meio nos põe etiquetas, por mais aspetos negativos que esta profissão tenha, é uma profissão que adoro e orgulho-me do que faço. Faço novelas, teatro e cinema e adoro cada um deles. Queria fazer mais, mas existem certos grupos que não aceitam e isso dói, sobretudo a alguém que tenta mostrar o seu valor. Mas não trocava isto por nada. A vida que tenho foi a que escolhi e não me arrependo de nada.
– Acha que o seu filho sente a sua ausência?
– Ele ainda só tem dois anos, fica muito contente por ver o pai na televisão, adora mesmo ver-me. Nesta fase, estar longe dói-me mais a mim do que ao meu filho, porque perdi alguns momentos importantes, como as primeiras falas dele.
– Assusta-o a ideia de ele um dia querer seguir a sua profissão?
– Não me assusta que o meu filho um dia queira ser ator. Acre-dito que ele vai saber escolher o caminho dele. O mais importante para mim é saber educá-lo para que tenha  liberdade de escolha. Independentemente de ele fazer as suas maluqueiras, como todos nós fazemos, quero que tenha uma personalidade forte, para que dependa apenas dele próprio. Seja qual for a escolha de vida que ele fizer, vai fazer-me feliz. Claro que, como sou ator, acharei engraçado se ele também for, assim um dia poderei contracenar com ele. Mas para já preocupo-me mais em transmitir-lhe boas bases e valores. Independentemente de não estar muito presente, não sou um pai ausente. Faço por não ser.
– Por tudo o que já falámos, a sua mulher deve ser um apoio fundamental na sua vida...
– Sem dúvida. A minha mulher é uma ótima mãe e uma excelente mulher, e isso é fundamental, porque me equilibra. Ou porque  me deixa espaço para os meus desequilíbrios [risos].
– Neste momento está totalmente dedicado à novela ou tem outros projetos?
– Totalmente, mesmo. Até já recusei dois projetos que noutras circunstâncias não recusaria de forma alguma. Esta personagem é um mimo que me deram, é muito forte e é protagonista. Nunca aceitei fazer de protagonista até hoje, não para me regozijar dessa
recusa, mas porque os papéis não me interessavam. Este interessou-me, aceitei-o e dedico-me muito a ele.
– Em Rosa Fogo volta a interpretar um vilão... é um ‘estatuto’ que o persegue?
– É! Se bem que neste caso penso que se pode chamar um bom vilão.
– É fácil entrar neste tipo de personagem?
– Não é nada fácil interpretar este tipo de personagem, porque podemos facilmente cair no cliché. É preciso sempre dar um toque de verdade às características da personagem, à sua maneira de ser e estar. E tudo depende muito da interação com os outros atores. Não se cria um papel sozinho. Criamos as bases com o que nos dão, mas é preciso saber onde nos movemos, em que espaço cénico, com que atores.
– Tendo em conta que faz muitas vezes de mau da fita, não deve ser fácil rever-se nas suas personagens...
– Pois... mas isso não invalida que adoremos fazer esta ou aquela personagem. O facto de não nos revermos nela não implica que não existam características nela que gostemos de fazer. E que na vida real nunca poderíamos fazer. Acaba por ser contraditório, a cair para o perverso, mas é muito por aí. Claro que certas personagens têm atitudes que eu nunca teria, mas em ficção vale tudo e dá-me prazer fazer isso. Na vida real, a educação e os valores que tenho não me permitem fazer certas coisas. Tenho o respeito como base fundamental da educação. E exijo também que me respeitem. Mas o nosso lado menos lapidado às vezes leva-nos a ter vontade de fazer coisas que são socialmente erradas. E é aí que entra a magia da representação, que nos permite fazê-las.
 

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