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Alice Pinto Coelho: “A noite é uma lente, aumenta o bonito e o feio”

Alice Pinto Coelho recebeu Rita Ferro no seu bar, o Procópio, lugar de tertúlia que nestes 39 anos tem acolhido figuras notáveis da sociedade.

Rita Ferro
17 de outubro de 2011, 10:24


Chama-se Alice Pinto Coelho e é a proprietária de um dos ex-líbris de Lisboa: um bar junto ao Jardim das Amoreiras, bem escondido no alto de umas escadinhas, que, durante décadas, foi palco de farras e conspiratas – o Procópio. De bar da moda, antes do 25 de Abril, a ponto de encontro subversivo, depois de 74, viu passar muitas caras conhecidas da sociedade portuguesa, desde políticos a jornalistas, passando por artistas de todos os talentos e figuras mais ou menos notáveis da nossa sociedade. Todos os anos, durante cerca de duas décadas, um júri exigente atribuiu o Prémio Procópio de mérito ou talento a uma figura conhecida da cidade de Lisboa. Fez 39 anos em Maio, e o segredo da sua longevidade está na anfitriã, que acolhe toda a gente com a mesma simplicidade descontraída, do discreto curioso, que passa na rua e entra, ao amigo mais assíduo ou corrosivo. Recebeu-nos no Procópio numa tarde tranquila, poucas horas antes de abrir ao público, para falar dos segredos desse lugar de tertúlia, onde as ideias se discutem até altas horas sem se olhar para o relógio. A decoração essencialmente arte-nova é de Alice e do ex-marido, o decorador Luís Pinto Coelho.
– Quando abriste o Procópio, há 39 anos, a frequência era composta exclusivamente de amigos teus?
Alice Pinto Coelho – Sim, começou só com amigos e amigos de amigos, e, durante dois anos, era como se entrasse em casa: tinha que cumprimentar toda a gente! Depois do 11 de Março, a maioria foi viver para o Brasil, para Espanha e para a Suíça e o cenário alterou-se: passou a ser frequentado por jornalistas portugueses e estrangeiros, políticos e artistas, etc. Mudou de configuração, mas a casa continuava cheia.
– Nomes?
Francisco Sá Carneiro, Mário Soares, Melo Antunes, Manuel Alegre, Nuno Brederode dos Santos, Tareco Sousa Tavares, Raul Solnado, Fonseca e Costa, Céu Guerra, Maluda, Amália, Manuel Bobone, Vicente Jorge Silva, Francisco Lucas Pires, José Cardoso Pires, enfim. Estaria aqui toda a tarde a dizer nomes e não chegaria [risos].
– Qual era a faixa etária quando começaste?
– A minha, à data: 30, 40. Por aí...
– E agora?
– Agora é exactamente a mesma. Mas durante muito tempo foi chamado “o bar dos cotas”, até porque os meus amigos foram amadurecendo comigo. Hoje em dia já são os filhos e os amigos dos filhos, ou mesmo os netos, a aparecer.
– Que horário se pratica aqui?
– Das 6 às 3 da manhã, só fecho ao domingo e, ao sábado, só abro às nove da noite.
– Em alguma ocasião esteve fechado?
– Nunca parou, até porque é disso que eu vivo.
– Como ex--plicas um sucesso tão continuado?
– Não explico, não tem explicação, é o mistério do Alto de São Francisco [risos]. As bebidas e as tostas não são mais baratas do que nos outros sítios. Para mim, é o espaço que tem uma magia própria...
– E uma anfitriã mágica, não?
– Não, nada disso, não acho nada! E mágico é o Luís, que está comigo há quase 15 anos, sempre bem-disposto e sempre prestável a atender a gente nova.
– O nome Procópio é estranho. Por que razão o escolheste?
– Para baptizar o símbolo da casa, que é um boneco de banda desenhada americano. Em 1985, o meu amigo António, cartoonista, lembrou-se de o desenhar em 3 dimensões e passei a oferecê-lo como prémio a quem se notabilizasse nas diferentes áreas: política, jornalismo, pintura, etc. Tiveram bastante repercussão, esses prémios.
– Dantes era o teu marido que recebia as pessoas ou sempre foste tu?
– Fui sempre eu. Mas fazia-o com toda a naturalidade, como se estivesse em casa. Ainda hoje é assim... 
– Tencionas festejar no próximo ano os 40 anos do Procópio?
– Claro, está planeada uma grande festa e faço tenções de convidar todos os amigos e fãs do Procópio!
– Mas não notas que é ao facto de lá estares todas as noites, e de conhecer os teus clientes pelo nome e pela cara, que deves esta fidelização do público?
– Sim, talvez, pode ser. Mas a verdade é que hoje em dia há muita gente nova que eu já não conheço nem identifico e tenho de pedir ajuda ao meu colaborador [risos].
– O José Cardoso Pires escreveu, a respeito do Procópio: “Um chafariz à porta de um bar é cá uma saudação que enternece o maior malvado.” Era outro assíduo?
– Muito assíduo. Escolhia sempre a mesa 2, onde estava o Nuno Brederode dos Santos, e ficavam a discutir até às tantas com todos os que, entretanto, se juntavam a eles. Então se queres um segredo eu digo-te: representa a última tertúlia de Lisboa, já ninguém funciona nestes termos e com esta liberdade. E, na altura, ainda havia mais esta: não havia outro bar aonde as senhoras pudessem ir com o mesmo à-vontade. Apareciam muitas vezes para beber chá e torradas ao fim da tarde...
– O André Jordan, que é outro grande amigo do Procópio, e teu, chamava isto o Rick’s Café de Casablanca, em Lisboa...
– Pois, porque até espiões de países existentes e não existentes aqui vinham, tudo presidido por um outro histórico daqui, o coronel Aventino Teixeira, que, segundo o Jordan, era uma personagem que nem o Graham Green seria capaz de inventar. Gosto muito do André Jordan e penso que é recíproco. Quando fez a Quinta do Lago, homenageou-me dando o meu nome ao bar, junto à Casa Velha: Alice.
– Que ternura tão grande! E o Raul Solnado?
– Ah, tão meu amigo! Tenho muitas, muitas saudades dele, faz-me muita falta! Dizia sempre, no fim da noite: “Bem, vou-me despachar se não perco a camioneta da meia-noite...”
– Isso a que horas?
– Às três, quatro da manhã... [risos]
– Grande Raul! Alice, o que aprendeste com tantos anos de atendimento público?
– Aprendi a conhecer bem as pessoas, o que não é pouco. O álcool é um líquido revelador do melhor e do pior. É bem verdade quando se diz in vino veritas. A educação e o berço são como o azeite: vêm sempre ao de cima [risos].
– Pois, trabalhar à noite deve ser complicado, até por causa disso. Que fazes quando as coisas começam a ficar nubladas pelo éter?
– Só há uma solução: ir ter com a pessoa e falar directamente com ela. Nunca me dei mal com esta técnica. Sabes? Dantes, os bares eram também lugares de sedução, pelo que era fácil resvalar. Tinha de se ter algum cuidado. Hoje em dia já não é assim, porque isso pode ser feito a qualquer hora do dia e até na pastelaria do bairro [risos].
– Disseram-me que dantes passavas filmes aqui...
– Sim, cinema mudo e, regra geral, filmes do Charlot. As pessoas adoravam e ainda hoje me falam nisso. Trazia alguns de Londres. Comecei a trazê-los para projectar numa boutique também histórica que tive na Rua Rosa Araújo e se chamava A Outra Face da Lua. Depois, quando vim para aqui, trouxe-os e comecei a passá-los aqui. Era muito divertido.
– Lembro-me tão bem dessa boutique! Morava ali perto, ao Príncipe Real, e ia de propósito a pé só para a espreitar. Era uma badameca e por isso não me atrevia a entrar. Mas era, como se diz agora, “muito à frente”...
– Pois, só esteve aberta dois anos, mas marcou uma época. Tenho a perfeita noção disso...
– Alice, quando é que as pessoas são mais verdadeiras? De noite ou de dia?
– Eu acho que é de noite. A noite é uma lente: aumenta o bonito e o feio. Durante o dia, espartilhadas nas gravatas e nos empregos, as pessoas representam papéis. À noite, largam a máscara e são elas próprias.
– A crise já chegou aos bares?
– Sim, claro, é o tema de conversa que acompanha todos os copos [risos].
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico
 

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