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Jacqueline Kennedy ‘regressa’ numa sessão de má-língua

“Acho que as mulheres nunca deveriam meter-se na política. Simplesmente, não fomos feitas para isso.” (Jackie Kennedy)

Ana Paula Homem
10 de outubro de 2011, 15:12

Quatro meses depois do assassinato de John Fitzgerald Kennedy (JFK), 35.º presidente dos EUA, a 22 de novembro de 1963, durante um desfile pelas ruas de Dallas, a sua viúva, Jacqueline (Jackie) Kennedy, deu início a uma série de conversas com o historiador Arthur Schlesinger. Jackie, que não gostava especialmente de jornalistas e raramente dava entrevistas, decidiu falar com Schlesinger (que recebera um Pulitzer em 1946 e fora conselheiro de JFK na Casa Branca) por ter a noção de que testemunhara de perto momentos incontornáveis da história não só dos EUA, mas do mundo – como, por exemplo, a invasão da Baía dos Porcos, em 61, e a forma airosa com que JFK conseguiu dar a volta a esse fracasso americano – o que a fazia sentir-se na obrigação de deixar para a posteridade o relato da sua experiência. Essas conversas, que se prolongaram de março a junho de 64, dando origem a oito horas e meia de gravação, acabam de ser publicadas em vários países, num livro intitulado no original Jacqueline Kennedy: Historic Conversations on Life with John F. Kennedy e que é acompanhado pelo registo sonoro em CD.
A condição da senhora Kennedy foi que estas conversas, em que recorda muitos episódios da sua vida pública, mas também da privada (descrevendo os anos da Casa Branca como “os nossos anos mais felizes”), só fossem editadas 50 anos depois. A sua filha, Caroline, de 53 anos – a última sobrevivente deste ramo do poderoso clã Kennedy, pois a mãe morreu em 94, vítima de cancro, e o seu irmão mais novo, John John, cinco anos depois, num acidente de avião – desrespeitou essa vontade materna, antecipando a publicação em três anos, de forma a assinalar os 50 anos da subida do pai à presidência.

A intenção de Caroline, no entanto, não foi apenas homenagear o pai. Foi, também, reabilitar a imagem pública da antiga primeira-dama, que, em sua opinião, foi muito deturpada. “Quis mostrar que ela não foi apenas um ícone de moda”, disse, por exemplo, numa entrevista à Parade Magazine, ressalvando características da mãe como o sentido de humor, a vasta cultura, a inteligência, o gosto pela arte, pela literatura e pela história, a capacidade de observação, o código de conduta rigoroso, a disciplina moral. E, no entanto, aquilo que mais salta à vista, e que toda a imprensa americana destacou depois da saída do livro, foi a revelação de uma outra faceta de Jackie: a tendência para a má-língua.
Na verdade, a viúva de JFK, que na altura tinha apenas 34 anos, tece comentários nada diplomáticos sobre muitas das figuras da cena mundial que conheceu naqueles anos, nomeadamente Charles de Gaulle (“egocêntrico”), Indira Gandhi (“ácida como uma ameixa”) ou Winston Churchill (“quando o conhecemos o pobre já estava bastante gagá”). Ao falar do ativista dos direitos dos negros Martin Luther King, por exemplo, usa palavras como “problemático” e “hipócrita” e conta que terá tido acesso a provas do FBI em como King tinha amantes. E não poupa o número dois da política americana da altura, o vice-presidente Lyndon Johnson, revelando que um dia o marido lhe disse: “Oh meu Deus, consegues imaginar o que aconteceria a este país se um dia Lyndon fosse presidente?!” E a verdade é que um ano depois da morte de JFK, Lyndon foi eleito presidente e logo a seguir começou a guerra do Vietname...
O desbocado relato de Jacqueline não poupa alguns Kennedy, como a sogra, Rose, que questionaria sistematicamente se esta ou aquela pessoa seria católica, ou a cunhada Eunice, que descreve como “desmesuradamente ambiciosa”. Segundo o historiador e analista da CBS Douglas Brinkley, esta faceta desabrida de Jackie deve-se a alguma imaturidade, pois com a idade, assegura, ela transformou-se numa mulher “discreta e cheia de pose”. Mais, atrever-nos-íamos a dizer, tornou-se para os americanos a rainha da elegância e do saber estar.
Defendendo estarmos perante um documento único, pois foi a última entrevista em que a mãe falou de JFK e da sua passagem por Washington, Caroline lembrou também, à cadeia televisiva ABC, que se trata de um flashback “a um mundo que dificilmente reconhecemos”, adiantando que as suas filhas, Rose, de 23 anos, e Tatiana, de 21, ficaram “absolutamente horrorizadas” com a forma antiquada como a avó encarava o papel da mulher, no-meadamente na política: “Acho que as mulheres nunca deveriam meter-se na política. Simplesmente, não fomos feitas para isso”, refere Jackie a Schlesinger.
Talvez por acreditar mesmo nisso, nas oito horas em que fala com o antigo assessor de JFK, a mais amada das ocupantes da Casa Branca não refere uma única vez o acontecimento mais marcante da sua vida: o assassinato do marido. Mas o branqueamento deste dramático episódio, considerado “inexplicável” pelo jornalista e escritor Edward Klein, numa análise das gravações que fez para a revista francesa Paris Match de 15 de setembro último, pode ter outras razões: tudo era ainda demasiado recente e Jackie não teve coragem para abordar o tema ou Caroline decidiu excluir essa parte. Klein, antigo diretor da New York Times Magazine que se tornou próximo da viúva Kennedy e escreveu três livros sobre ela, defende esta última hipótese. Salientando que Jackie viveu até ao fim obcecada com a ideia de que a morte do marido fora um complot e que tal obsessão sempre embaraçou Caroline, o escritor acha que ao “censurar” essa parte ela quis apenas proteger a memória da mãe. Estranhamente, pois ao divulgar os seus comentários virulentos não lhe prestou esse favor.

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