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Katia Guerreiro: "Continuo a acreditar no amor, quero reconstruir a minha vida"

A assinalar dez anos carreira e com um novo CD, a fadista fala da paixão com que faz tudo na vida.

Joana Carreira
30 de julho de 2011, 10:00

São já dez os anos em que se deixa levar pelas Asas do Fado, nome que deu ao seu novo disco, em que registou os temas que melhor se sentiu a cantar. Nascida na África do Sul, embora considere os Açores a sua terra, por ter lá chegado antes de completar um ano, a fadista e também médica Katia Guerreiro fala-nos da sua descoberta do fado e do sentimento verdadeiro que impõe a tudo o que canta. Fala, também, do seu divórcio - após quase seis anos de casamento, com Rui Ochôa -,sem mágoa e com muita consciência da realidade, não renegando as experiências que advêm do casamento, instituição contra a qual nada tem. No tempo presente, aposta numa renovação de imagem, "ao fim ao cabo, para que o que se vê por fora coincida com o que sou por dentro". E, também no tempo presente, Katia Guerreiro é uma mulher de sorriso largo e que revela paz de espírito.

Katia Guerreiro
Katia Guerreiro
Luís Coelho

- Já lá vão dez anos... que balanço faz?

Katia Guerreiro -
Dez anos...parece pouco, mas o que é certo é que, numa carreira artística, em dez anos, acontece muita coisa. Em primeiro lugar, e a nível pessoal, aconteceu-me um enriquecimento imenso. Quando somos artistas, aproximam-se de nós pessoas que têm um manancial de cultura emocional profundíssimo e que nos enriquecem, que nos tornam pessoas mais preenchidas, sensíveis e interessadas. Sempre fui muito interessada, mas acho que me tornei muito mais interessante, porque fui bebendo de várias fontes. Toda a cultura e sabedoria que hoje tenho é resultado do que aprendi com os outros. Quando estou em cima do palco sou muito verdadeira, não sou uma personagem.


- É a Katia, mas a fadista?

- Sou a mesma Katia, que naquele momento tem necessidade de se entregar completamente. No dia-a-dia vou-me entregando às pessoas que me são próximas, familiares e amigos, mas no palco a intensidade é muito maior. Quando subo ao palco, é para me entregar e revelar na totalidade. Ali tenho uma ferramenta muito forte, que é a música, que é o fado, que são as palavras dos poetas que me oferecem aquilo que foram capazes de escrever e que eu não sou. E utilizo isso como ferramenta de entrega. Quando faço isso, estou a despir-me perante os outros. E a maior parte das vezes estou, sem que as pessoas se apercebam, a revelar o que sinto e o que estou a viver.

Katia Guerreiro
Katia Guerreiro
Luís Coelho

- Uma espécie de catarse?

- Exatamente. Às vezes, é no palco que choro, não é em casa sozinha, é com os outros, que me ajudam a fazer a minha catarse. No palco, não se consegue fingir as emoções. Acho que as pessoas que me acompanham percebem muito bem quando as emoções são autênticas ou representadas. Acho que no fado não é possível fingir. Ou então não é fado.


- A sua relação com o fado foi casual?

- Nunca pensei que o fado pudesse ser a minha vida, porque ela estava traçada, e era para ser médica. Eu tive que ir conhecer o fado. Porque o fado não se aprende. E não se começa a gostar só porque se ouve. Há um momento da nossa vida que nos aproxima do fado, que nos ajuda a descobri-lo na sua verdadeira essência. Acho completamente impossível que haja pessoas que não se apaixonem pelo fado. O fado tem a capacidade de ajudar quem canta e quem ouve a encontrar-se consigo próprio e foi exatamente isso o que aconteceu comigo.

Katia Guerreiro
Katia Guerreiro
Luís Coelho

- No seu caso, quando é que se deu esse "encontro"...

- O fado foi entrando aos poucos. Quando era miúda, ouvia
Amália
e ficava fascinada. E sempre fui muito sensível ao som da guitarra portuguesa. Eu estava num rancho folclórico e nos intervalos a vocalista cantava fado, cantava uma coisa que adoro, que é o
Amar
, da
Florbela Espanca
, que foi imortalizado pela
Teresa Silva Carvalho
. E um dia deixou-me a cantar sozinha... Depois, vim para a Faculdade de Medicina e na tuna tinha uma série de amigos que gostavam de ir a casas de fado. E lá íamos. Depois, invariavelmente, diziam-me:
"Ó Katia, vai lá cantar."
E eu, a medo, lá cantava os três fadinhos que sabia cantar, entre eles a
Lágrima
e o
Amar
. Mas era só mesmo isso. As coisas foram acontecendo sem que nunca olhasse para mim como fadista


- O facto de se ter divorciado deixou-a de pé atrás em relação ao casamento?

- Continuo a acreditar no amor. O que vivi, fi-lo de forma séria e intensa. Quando chegou ao ponto em que já não era nada, não valia a pena continuar. Eu, apaixonada como sou, nunca iria deixar-me acomodar. E quero muito reconstruir a minha vida.

Katia Guerreiro
Katia Guerreiro
Luís Coelho

- E quer ser mãe?

- Quero ser mãe. Sou muito maternal. Tive uma experiência gira com a filha mais nova do Rui. Aprendi imenso.


- Como é que lidou com a separação?

- Já lá vai mais de um ano... Não acredito numa separação sem dor, seja por que motivo for, e há um período de reequilíbrio, porque a vida passa a ser outra. Mas já me reequilibrei. Comecei logo a criar e isso ajudou-me muito nesse processo.

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