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Pedro Canavarro: "Gosto de passear sobre o mistério"

Licenciado em História e diplomado em Museologia e Conservação de Museus, o trineto do político Passos Manuel recebeu Rita Ferro em Santarém, numa casa outrora habitada por D. Afonso Henriques.

Joana Carreira
21 de maio de 2011, 10:25

Chama-se Pedro Manuel Guedes de Passos Canavarro, é trineto do político e parlamentar Passos Manuel e vive em Santarém numa casa outrora habitada por D. Afonso Henriques, mas que, desde 1841, se mantém na família. Divorciado, com três filhos e dez netos, é licenciado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa e diplomado em Museologia e Conservação de Museus no Museu Nacional de Arte Antiga, onde veio a ser docente.
Foi leitor de Português no Japão, nas universidades de Tóquio, Keio, Sophia e Línguas Estrangeiras e, na Faculdade de Letras de Lisboa, ensinou História de Arte, Arte Portuguesa e Ultramarina, Civilização Grega, Urbanismo e Cultura Portuguesa. Não haveria espaço para inventariar tudo o que fez na vida, desde Comissário-Geral da XVII Exposição de Arte, Ciência e Cultura até membro da Assembleia Municipal e vereador da Câmara Municipal de Santarém, passando por militante, secretário-geral e deputado do PRD (Partido Renovador Democrático) e candidato independente às Eleições Europeias, em Itália.
É ainda autor publicado de preciosos contributos nas áreas de História, Arte, Cultura e Política, e foi distinguido com importantes condecorações: Medalha Pró-Mérito do Conselho da Europa, Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e Grã Cruz do Mérito do Descobridor do Brasil Pedro Álvares Cabral, além da Ordem do Sol Nascente com Raios de Ouro pelo Imperador do Japão.
Com tudo isto, podia permitir-se a alguma jactância, mas cultiva a atitude contrária: amável, acolhedor e excelente conversador, terminou a sessão de fotos a jantar com os elementos da nossa equipa num restaurante ao lado de casa, frente às Portas do Sol, e as horas passaram sem ninguém olhar para o relógio. No dia 14 de Maio, presta um novo serviço a Portugal e a Santarém: inaugura a Casa-Museu da Fundação Passos Canavarro, que preside, tendo em permanência duas exposições particulares cujo teor revelará aqui.

Pedro Canavarro
Pedro Canavarro
João Lima
- Esta casa, situada numa alcáçova conquistada por D. Afonso Henriques, começa por ser residência real. Que voltas dá até chegar às mãos da sua família?

- Depois de nela habitar Afonso Henriques, a casa varia de proprietários até ter sido comprada por Passos Manuel e sua mulher a 1 de Maio de 1841.


- Fale-nos um pouco dela...

- A casa actual não tem uma arquitectura particular, já que foi construída sobre sucessivas ruínas. Tem porém um encanto especial pela sua localização no Morro da Alcáçova, desenvolvendo-se em rés-do-chão à volta de um jardim claustral, dando as traseiras para o jardim das Portas do Sol e abrindo-se a N/E num terraço que olha de frente o Tejo e a lezíria ribatejana.


- Quer confiar-nos mais algum dado interessante sobre a casa? Algo secreto que os turistas não conheçam?

- O mistério poderá estar naquilo que as escavações arqueológicas trouxerem alguma vez à luz do dia. Por enquanto, gosto de passear sobre o mistério!


- Sobre o seu trisavô Passos Manuel, que fundou esta casa histórica: que ideia pessoal tem dele?

- Passos Manuel foi um político de pensamento muito avançado para o seu tempo, preocupando-se prioritariamente com a educação e a participação cívica. As suas ideias são transversais do séc. XIX até hoje.


Pedro Canavarro
Pedro Canavarro
João Lima
- Ainda dorme no quarto em que nasceu, o que é raríssimo. Que sentimento experimenta quando pensa nisso?

- É um sentimento forte de identidade com o espaço e o tempo, os quais sempre procurei casar, não só com o quarto mas com a própria casa. Mais do que dormir, o privilégio é nele descansar!


- Foi também o quarto onde Almeida Garrett pernoitou, a convite do seu trisavô, e começou a escrever Viagens na Minha Terra. Que escreveu ele sobre esta casa, no livro?

- Garrett descreve a chegada a este jardim e a esta casa, as conversas sobre Santarém à volta da mesa, o acordar ao repicar dos sinos da igreja da Alcáçova e o espanto quando abre a janela deparando-se com a indescritível paisagem.


- Quando se entra pasma-se logo com duas coisas: pintura magnífica e manuscritos raros e antiquíssimos. Com é possível não ter havido alienação de património ao fim de tantos anos, tratando-se de coisas tão valiosas?

- Desde Passos Manuel que não houve partilhas familiares até à geração dos meus pais e tios. A partir daí lutei, como historiador, para que os objectos mais significativos ficassem na minha posse para um dia dar a esta casa o conteúdo histórico-artístico que se impunha.


Pedro Canavarro
Pedro Canavarro
João Lima
- Antes ainda de falar na Fundação: quer partilhar connosco dois ou três desses documentos raros?

- Documentos familiares assinados pelos reis de Portugal e seus ministros tais como o Marquês de Pombal, desde
D. João V
a
D. Luís
, assim como mapas do séc. XVI que instruíam os nossos navegadores a viajarem na Arábia e no Mar Roxo.


- Sobre a inauguração ao público da Fundação Casa-Museu Passos Canavarro, já a 14 de Maio. Observam-se aqui obras de vulto: teve apoios?

- Candidatei-me a alguns programas europeus mas acabei por não ser aceite por razões só compreensíveis no âmbito da nossa tipicidade de ser e estar. [risos]


- Se bem percebi, serão inaugurados dois museus, situados em zonas distintas da casa: um, de pintura, outro, de arte japonesa. Que expõe o de pintura?

- Há uma área museológica dedicada ao espólio da pintora francesa
Mimi Fogt
doado à Fundação: óleos, aguarelas, desenhos e tapeçaria. Uma amizade de 30 anos levou-a a entregar-me "os seus filhos" - já que os queria reunidos sob a luminosidade com que Portugal a conquistou. A outra área comporta as xilogravuras de
Pedro de Sousa
que foram oferta da sua mulher e filho após meses de investigação, nesta casa, no arquivo de Passos Manuel, fundamental para as publicações da Prof.
Magda Pinheiro
. Estas xilogravuras são uma proposta de inexcedível modernidade alcançada por um jovem artista que desapareceu na força da sua existência.


Pedro Canavarro
Pedro Canavarro
João Lima
- Que expõe o museu do Japão?

- Mobiliário, bules de ferro, pintura, máscaras do Teatro Nô, são exemplos que reflectem a cultura nipónica, por mim intensamente vivida nos anos 60, quando fui o 1.º leitor de Português em Tóquio.


- Vai estar aberta ao público? A que horários? Será o Pedro em pessoa quem receberá os visitantes ou tem quem os guie e instrua?

- Sim. Diariamente, às 11 e 15 horas, excepto à segunda-feira. E, sempre que puder, terei o prazer de as guiar.


- Entre mil coisas, foi Comissário-Geral para a XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura. Tem saudades dessa adrenalina empreendedora?

- As maiores! Pelo espírito de equipa, por ter sido a 1.ª exposição do Conselho da Europa que ultrapassou as fronteiras europeias e estimulou outros grandes projectos culturais em Portugal.


- Foi fundador e deputado do PRD (Partido Renovador Democrático). Quer contar-nos essa aventura?

- A aventura política mais do que ser contada, vive-se! Num partido inovador que nasceu da democracia, ser militante, secretário-geral, eurodeputado e presidente trouxe tais cargas experimentais que me envolveram para sempre com a bandeira com que fiz política.


- E agora? Afastou-se da política ou continua a não lhe resistir?

- Sou cidadão independente que não deixa de participar tanto quanto possível. Fundei em 1996 uma Casa da Europa para incentivar o sentido crítico dos cidadãos na construção europeia e fui 2 vezes mandatário de altas figuras políticas actuais.


- Também foi autarca, aqui mesmo, em Santarém. Como o vêem as gentes daqui? Com simpatia ou reserva?

- As gentes de Santarém sabem que podem contar comigo, daí preservarem-me tanto quanto baste! [risos]


- Para terminar: onde estava no 25 de Abril? [risos]

- Era assistente na Faculdade de Letras de Lisboa e, a partir dessa data, responsável, com outros colegas, da gestão democrática daquela casa até serem aprovados os novos estatutos.


Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico

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