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Luís Corrêa de Sá: "Na guerra, um herói é um inconsciente com sorte"

Rita Ferro conversa com o visconde de Soveral sobre o tempo em que combateu na Guerra de África.

Joana Carreira
2 de abril de 2011, 10:17

Chama-se Luís Mem Corrêa de Sá (visconde de Soveral, neto do primeiro e único marquês de Soveral, um dos Vencidos da Vida, conhecido diplomata biografado por Paulo Lowndes Marques). Tem 72 anos e duas filhas, Camila e Carlota, a residir actualmente na Bélgica. É filho de pai português e de uma senhora de rara elegância de origem norueguesa, cujo apelido baptizou um vinho do Porto: Krohn. Licenciou-se em HEC (Hautes Études Commerciales) na Universidade de Lausanne (Suíça), em 1962, viveu sempre entre o estrangeiro, Lisboa e Sintra, e esteve, durante 26 anos, à frente dos destinos de uma grande empresa de catering fornecedora de plataformas de prospecção petrolífera, do Brasil à Sibéria, passando por Angola. Mas foi sobre este último país, Angola, e a respeito de um tema bem diferente, que a conversa se desenrolou: o veterano combateu na Guerra de África como alferes miliciano durante dois anos, entre 1964 e 1965, numa missão, embora arriscada, mais estratégica do que bélica: informar companhias de outras geografias da passagem de grupos inimigos, cuja missão era abastecer as tropas que combatiam o exército português. Foram dois anos que considera terem resultado na mais marcante experiência da sua vida, pela heterogeneidade do convívio num cenário de risco onde os laços se estabelecem de uma forma impossível de esquecer e a origem não conta. Em romagem de saudade à casa onde cresceu, no 'sopé' do Palácio da Pena, 45 anos depois de deixar África, falou sobre as memórias registadas num diário único e actualizado ao dia, publicado em 2003 e contendo mais de 200 fotografias extraordinárias tiradas pelo próprio sobre o quotidiano do teatro de guerra.

Luís Corrêa de Sá
Luís Corrêa de Sá
Mário Galiano
- A fotografia é uma paixão?

- Desde os 15 anos. O meu pai já era entusiasta e deu-me a primeira máquina: uma Kodak Retinette. Gostava muito de fotografar pessoas e lugares. Comecei por fotografar os amigos do liceu, os primos, as terras por onde ia passando e tinha família: EUA, Noruega, etc.


- Mas as fotografias do seu livro não podem ter sido feitas com essa Kodak...

- Não. [risos] Foram feitas com uma Leica M3, comprada na Suíça, que era o Rolls-Royce das máquinas fotográficas. Custava, em 1956, doze contos.


- Tinha uma semanada grande...

- Não. Foi o irmão mais ve-lho do meu pai, meu padrinho, que durante 21 anos depositou anualmente um conto de reis numa conta bancária em meu nome, e que, depois de maior, tratei de levantar para comprar essa máquina e ainda uma BMW de 250 CC, em segunda mão. Linda!


- Ainda se encontra com os seus companheiros de pelotão?

- Todos os anos, desde 1986, num almoço organizado por um antigo furriel, Agostinho Palos, e a sua mulher. O ano passado foi em Aveiro e no próximo será na Figueira da Foz.


- Comparece o batalhão inteiro?

- Não, mas quase. Já vêm com mulher e filhos e são almoços que reúnem cerca de 300 pessoas.


- É um elo poderoso...

- Não sei bem explicar, mas penso que é por termos sido diariamente confrontados com a morte, durante dois anos. Ficam laços fortíssimos, de que só me apercebi quando voltei a reencontrar os meus camaradas de armas.


- Conte uma história que o tenha marcado...

- Existe um filme que exprime exactamente o espírito fraternal da tropa: o K-19, com o
Harrison Ford
, passado num submarino atómico soviético. Depois de uma grave avaria no reactor, o comandante reúne a tripulação das mais variadas origens para anunciar que só havia uma saída possível: entrar no próprio reactor para o reparar e sujeitando os voluntários à exposição de combustível altamente radioactivo, o que causou, aliás, a morte de alguns. Enquanto os primeiros se perfilavam para acudir, havia um telegrafista que se achava social e academicamente superior e que assistia à operação frio e indiferente. No entanto, depois de ver sair os primeiros camaradas queimados e desfigurados, decidiu colaborar. Sentiu-se investido da responsabilidade de partilhar aquele sofrimento com os seus camaradas de armas. Perante o risco e o medo, somos todos iguais. E na obrigação de combater, não é tanto a bandeira ou a autoridade do capitão que nos faz estar ali. É o colega do lado.


Luís Corrêa de Sá
Luís Corrêa de Sá
Mário Galiano
- O que sentiu quando os reviu pela primeira vez? Reconheceu-os?

- Sim, a todos. E, 20 anos depois, foi como se tivéssemos estado juntos na véspera...!


- Era a favor ou contra a guerra?

- Bom, tinha 25 anos. Não era a favor da guerra nem do sistema colonial, pois sentia que a sociedade portuguesa se deveria aproximar de outras mais evoluídas, como a norueguesa, que eu conhecia mais de perto, além de achar que era um fardo demasiado grande para as nossas possibilidades.


- Nunca pensou desertar?

- Nunca.


- Onde localizaria, na sua anatomia, a sensação de medo de morrer?

- Nas pernas. As pernas perdem imediatamente a capacidade de sustentação. Na guerra, um herói é um inconsciente com sorte. Mas atenção que a Guerra Colonial foi um passeio comparado com a que ali se travou depois, entre o MPLA e a UNITA.


- Conte-nos uma memória...

- Um dia, em que coube ao meu pelotão um deslocamento a São Salvador do Congo e viajámos em jipes e camiões, ouvimos de repente uma rajada de metralhadora no fim da coluna, o que fez com que os homens, imediatamente, se atirassem para a berma da estrada, rasgando-se e esfolando-se todos. Passados uns minutos de silêncio fui à retaguarda ver o que se tinha passado: o 1.º cabo
Vital
, que era caçador na vida civil, ao ver passar um veado, não tinha resistido e disparou a sua espingarda automática.


Luís Corrêa de Sá
Luís Corrêa de Sá
Mário Galiano
- [risos] Ralhou-lhe?

- Não. Como vi que não tinha acontecido nada de grave, e que os colegas do Vital já o tinham insultado, limitei-me a algumas palavras de circunstância para depois lhe ouvir isto: "Mas matei o veado!" Foi então que comentei: "Bom, pelo menos temos almoço para amanhã!"


- [risos] Que registava no diário?

- Era uma necessidade catártica. Cheguei a África sem preparação para nada: para o calor, para o mato, para os bichos, para a guerra, para a vida militar, mas também e sobretudo para comandar um pelotão de 30 homens da minha idade. O diário ajudou-me a separar os problemas pequenos dos grandes e a relativizá-los.


- Que tipo de coisas apontava?

- Principalmente, as minhas insuficiências e impreparação para exercer a autoridade. Era uma pessoa branda, mas indisciplinada, que não sabia dar ordens sem levantar a voz. Frequentemente confrontava-me com essa dificuldade e o diário ajudava-me a exorcizar a frustração. No fundo, acabava por ter a mesma preparação do que eles.


- Escolha um exemplo...

- No dia 11 de Junho de 64, escrevi: "Estou estoirado. Foi para mim bastante difícil, tanto do ponto de vista físico como nervoso. Durante o dia e meio em que estivemos perdidos, competia-me decidir que direcção tomar, se bem que não tivesse a mínima ideia de para onde seguir." (...) "No fim, quando regressámos ao acampamento, não havia correio, mas um pouco de Beatles, de Alain Barrière, e dois cafés bem quentes contribuíram para reequilibrar a balança."


- [risos] O correio era o que animava os homens...

- Absolutamente. Um dia recebi uma encomenda de uma antiga namorada, com queijos podres, chocolates velhos e doces derretidos. Mas fiquei encantado!


- E África? Sentiu aquele sortilégio dos grandes horizontes que torna tão difícil a readaptação no regresso?

- Nada, senti um alívio imenso! Quando vi pela última vez a baía de Luanda, pensei: "África e tropa: nunca mais na p... da vida!"


- [risos] Como eram as relações com as raparigas locais?

- As raparigas locais vendiam-se, mas eram fundamentais para a estabilidade dos homens.


- Houve quem se apaixonasse?

- Apaixonar, não direi, mas davam uma ternura e um consolo que os mantinha equilibrados.


- Diz-se que as tomavam demasiado novas...

- Eram mães e mulheres feitas. Era outro tempo e outra cultura.


- Como encara a extinção do serviço militar obrigatório?

- Com pena. Um exército profissional pode substituir, mas perde-se o tão importante contacto entre os diversos estratos da sociedade, o que é uma experiência muito enriquecedora. Na vida civil, o administrador do banco nunca tem oportunidade de privar com o seu motorista.


- Gostava de voltar a África?

- Claro que sim! Ficou sempre no coração dos portugueses que lá passaram, e, quando lá voltei, em 1978, 12 anos depois de ter combatido, pensei: "Angola é a minha segunda pátria".


Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico

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