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Virgílio Castelo: "Lutei para ter a vida familiar que tenho hoje"

A par de uma carreira de sucesso como ator, e agora também na escrita, Virgílio construiu uma família feliz ao lado de Maria Lucena. Numa conversa franca, o ator partilhou os sentimentos que têm pautado a sua vida.

Joana Carreira
27 de março de 2011, 10:27

A completar 58 anos ainda este mês, Virgílio Castelo diz-se um homem feliz, mas não realizado. Com mais de 35 anos de carreira na representação, o ator e escritor sente permanentemente uma necessidade de mudança, de fazer diferente, de viver outras histórias, de não se acomodar àquilo que já conquistou nem dar nada por adquirido. Daí dizer: "Na insegurança e instabilidade de ser ator encontrei a minha própria estabilidade."
Se profissionalmente o ator procura a mudança, na vida pessoal encontrou a serenidade e a harmonia que há anos procurava. Depois de algumas uniões que não resultaram, o ator realizou, ao lado de Maria Lucena, o sonho antigo de formar a sua própria família. Pai de Tâmara, de 26 anos, fruto de um anterior relacionamento, de Violeta, de seis, e de Sancha, de dois, do seu atual casamento, e avô de Flor, que está quase a completar um ano, Virgílio confessa-se um profundo admirador das mulheres e do seu universo particular.
Foi durante uma tarde passada no Inspira Santa Marta Hotel que o consultor para a ficção da SIC conversou com a CARAS sobre o homem que vai sendo todos os dias.

- Esteve recentemente no palco do Teatro Tivoli com a peça Um, Ninguém e Cem Mil, que vai levar em digressão pelo país. Gosta mais de estar sozinho ou rodeado de pessoas?
Virgílio Castelo - Tem dias. Esta coisa de um, ninguém e cem mil diz respeito a todos nós. Há momentos em que nos sentimos um só, único, em que não há ninguém como nós. Há momentos em que nos sentimos miseráveis e somos como ninguém e outros em que nos sentimos a partilhar com toda a gente, capazes de nos sentirmos cem mil.

Virgílio Castelo
Virgílio Castelo
Mário Galiano
- Mas à primeira vista parece ser uma pessoa reservada, que gosta de estar no seu mundo e que não é dado a grandes festas. É assim ou essa imagem é enganosa?

- Sim, não tenho esse lado mundano. Quanto muito, tive um lado noctívago, saía muito, mas mesmo assim era sempre sozinho. Nunca fui de grandes movimentos coletivos, sempre tive um espírito mais isolado.


- Acredito que hoje seja diferente desse homem de hábitos mais noctívagos. Prefere a sua vida agora ou é uma pessoa nostálgica?

- Como
Ortega y Gasset
dizia,
"o homem é a sua circunstância".
E a minha circunstância com vinte e poucos anos não era a de agora. Cada época tem o seu equilíbrio. Agora tenho a vida que quis ter a partir de certa altura. Lutei para ter a vida familiar que tenho hoje, para ter uma nova família, mais filhos... Eu quis isso, mas houve um momento em que não tinha desistido, mas estava de algum modo descrente em relação a esse tipo de vida. Entre os 42 e 45 anos, tinha posto isso de lado, porque pensava que não ia voltar a apaixonar-me sequer.


- Por que é que pensava que nunca mais se ia apaixonar?

- Achei que o meu espírito solitário podia sobrepor-se a uma ligação. Felizmente que conheci a Maria e tudo isso caiu por terra. Hoje em dia sinto-me um homem feliz, mas não consigo conceber a ideia de estar realizado, porque continuo a não ter certezas de nada. Sinto sempre uma vontade enorme de mudar, de largar tudo e começar coisas novas. Representar é uma maneira de mudar, e eu preciso disso. Na insegurança e na instabilidade de ser ator encontrei a minha própria estabilidade.


- Mas esse seu espírito solitário parece contrastar com a procura que parece ter tido ao longo da sua vida de constituir a sua própria família, daí os seus anteriores casamentos...

- Tenho a minha consciência tranquila no que diz respeito a mim próprio. As famílias que constituí antes desta não acabaram por falta de empenho nem sequer por minha vontade. Os meus casamentos acabaram sempre sem ser por minha vontade. A ideia de família talvez tenho existido desde o primeiro casamento, mas como não resultou, tive de continuar a procurar até encontrar. Quando somos novos, a ideia de que podemos ser felizes sozinhos está mais presente, embora com o tempo percebamos que isso é completamente impossível.


Virgílio Castelo
Virgílio Castelo
Mário Galiano
- Como é que tem vivido a experiência de ser avô?

- A minha neta, a Flor, vai fazer um ano e a minha filha mais nova tem dois. Se eu não tivesse tido estas duas filhas, provavelmente agora estaria a experimentar a sensação de ser avô de uma maneira mais singular e única, mas neste momento está tudo muito misturado. O amor está muito próximo e não há grande diferença entre uma filha e a neta. É uma pessoa que se ama.


- Está rodeado de mulheres. É difícil lidar com o mundo feminino ou sente-se perfeitamente à vontade nele?

- Gosto muito mais do universo feminino do que do masculino. A minha própria inconstância de que falava é muito mais, julgo eu, tipicamente feminina do que masculina. Ou seja, o universo feminino é muito mais imprevisível do que o masculino. A emoção nas mulheres tem uma sabedoria que as transporta para atitudes racionais que não são previsíveis um minuto antes! E isso é fascinante! Dá uma trabalheira desgraçada, mas eu gosto disso. Gosto de não saber o que é que vai acontecer com as mulheres. Tudo o que é previsível para mim é um tédio enorme.


Virgílio Castelo
Virgílio Castelo
Mário Galiano
- Mesmo assim, e tendo uma família e crianças pequenas, é obrigado a lidar com rotinas...

- Sim e acontece uma coisa muito engraçada, que é o meu sentido de responsabilidade, uma herança do meu pai. Gosto muito de mudar, mas quando estou num sítio ou numa situação, estou e faço tudo
by the book
.


*Este texto foi escrito nos termos do novo acordo ortográfico.

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