Nas Bancas

Michelle Williams fala sobre a morte de Heath Ledger: "Foi um dos piores momentos da minha vida, fiquei desorientada"

Nomeada para um Óscar pelo filme 'Blue Valentine', a atriz fala pela primeira vez da morte do pai da sua filha, Matilda.

Joana Carreira
27 de fevereiro de 2011, 10:25

Há pouco mais de três anos, Michelle Williams recebia em Estocolmo, onde gravava um filme, a notícia de que Heath Ledger, pai da sua filha, Matilda, agora com cinco anos, tinha sido encontrado morto em casa. Os dois conheceram-se nas gravações de Brokeback Mountain e rapidamente se tornaram uma das mais badaladas relações de Hollywood. Estavam separados há seis meses, mas nem por isso Michelle sofreu menos com a morte do ator, provocada por uma mistura de comprimidos. "Foi um dos piores momentos da minha vida, senti-me completamente desorientada", revela. Desde então, pouco se ouviu falar da atriz, de 30 anos. Sabe-se que manteve um romance com o realizador e produtor Spike Jonze durante um ano e que mantinha o sonho de materializar um projeto antigo, que agora surge sob o nome de Blue Valentine - Só Tu e Eu, um filme intenso e de fortes emoções que tem gerado alguma controvérsia por incluir uma cena de sexo oral entre os protagonistas, Michelle e Ryan Gosling. "O filme é muito mais do que essa cena e é realmente uma linda e triste história de amor, e tentámos torná-la o mais real e honesta possível", afirma a atriz. Nos EUA o filme recebeu uma classificação que o impediu de ser mostrado em diversas salas, mas acabou por ser tão falado que isso fez o próprio sucesso do filme. E foi também o 'renascimento' da carreira de Michelle Williams.

- É-lhe fácil controlar a intensidade emocional que um filme como Blue Valentine exige de si?
Michelle Williams - A fronteira entre a personagem e nós próprios é muito ténue e houve momentos em que tanto o Ryan como eu já não nos sentíamos nós próprios, mas uma versão criada pelas nossas personagens. Não discutimos ou ensaiámos o que íamos fazer nas cenas de sexo, por isso foi um processo difícil.

- Nesses momentos não é assim tão divertido ser atriz...
- Nunca fico contente quando estou a interpretar uma personagem. Sinto sempre algum transtorno e agonia quando estou a gravar, de tal forma que tenho que me obrigar, física e psicologicamente, a prosseguir o trabalho. Não foram apenas as cenas de sexo que foram difíceis para mim. Tive vários dias de gravações complicados, como as cenas em que tinha de gritar muito ou discutir com o Ryan, e o Derek [Cianfrance, o realizador] levou-nos além dos nossos limites e queria que estivéssemos realmente zangados um com o outro, tanto quanto as nossas personagens era suposto estarem.

Michelle Williams
Michelle Williams
Reuters
- Alguma vez esperou que a cena de sexo gerasse tanta controvérsia?

- Enquanto gravávamos, nunca pensámos na classificação que seria dada ao filme. O Ryan, o Derek e eu discutimos o assunto e concordámos que se eu não me sentisse confortável com a cena ou ficasse incomodada com a versão final, seria cortada na edição. Depois, quando a vi pela primeira vez, nunca senti que fosse escandalosa ou ordinária ou até esquisita. Foi apenas um momento na vida daquele casal. Por isso, fiquei chocada com a classificação que tornou o filme interdito em muitas salas de cinema. Felizmente tudo acabou bem e o filme ganhou até alguma atenção devido a toda a discussão, até porque não tem nada que ver com sexo, e espero que ninguém fique com essa impressão.


- Como conseguiu interiorizar a mudança de sentimentos da personagem, que começa por ser muito feliz e depois sofre uma reviravolta completa?

- Tentei analisar o meu próprio período de inocência na juventude e a forma como mudei ao longo do tempo. Passei muito tempo a pensar como iria mostrar uma mudança que acontece em seis anos. Quando olho para fotos minhas de há seis anos, reparo que sou a mesma pessoa, mas agora pareço mais cansada, exausta. E transportei isso para a personagem. Ela deixou de ter tempo para cuidar de si própria. Tudo o que tem ou pode dar é para a filha. É a filha que tem roupas novas, um corte de cabelo fantástico, tudo. Ela torna-se extremamente desleixada consigo própria. E a verdade é que conheço muita gente assim, até eu própria.


- Só há pouco tempo começou a falar do que sentiu ou passou com a morte de Heath Ledger. Consegue descrever ou falar do que passou nessa altura?

- Tive um terrível sentimento de perda, e por toda a atenção que o caso teve, não consegui voltar a viver em Nova Iorque, foi muito difícil encontrar um sentido para tudo o que estava a acontecer... Foi-me difícil pensar em trabalho de novo, porque dei por mim completamente isolada do mundo real. Fazer
Blue Valentine
devolveu-me a vontade de representar. Quando gravámos as primeiras cenas, voltei a sentir-me eu própria.


Michelle Williams com a filha, Matilda
Michelle Williams com a filha, Matilda
g3online
- Mas esteve quase a recusar o papel...

- Sim. Senti-me muito mal quando o Derek me ligou e disse que finalmente tínhamos dinheiro para fazer o filme. Mas tinha prometido a mim própria que iria levar a minha filha à escola todos os dias, o que não poderia acontecer se fosse filmar para a Califórnia, como estava previsto. Por isso disse-lhe que teria de encontrar outra pessoa para o papel, mesmo depois de ter passado tantos anos a trabalhar no projeto. Mas ele arranjou forma de gravar em Nova Iorque e aí não pude recusar.


- Brokeback Mountain marcou um ponto de viragem na sua carreira e na sua vida. Que significado tem o filme para si hoje?

- Significa tanto para mim... Foi, talvez a primeira vez que senti que tinha conquistado algo especial com o meu trabalho de atriz. Claro que o filme significa muito mais para mim do que fazer parte dele enquanto atriz. Foi ali que conheci o pai da Matilda, num momento muito bonito da minha vida. Tudo isso o torna um momento transcendente na minha vida. Sei que um dia, quando for mais velha, a Matilda vai ver este filme comigo. Vai ser um momento muito difícil, mas também muito especial para nós.


- Começou a representar aos dez anos. Foi algo que sabia estar destinada a fazer?

- Representar é algo que faço desde que me lembro de fazer alguma coisa. Mudei-me para Los Angeles quando tinha 15 anos e fiz uma petição ao tribunal para me emancipar dos meus pais. Era muito despachada [risos].


- Foi um desafio arriscado mudar-se para Los Angeles sozinha...?

- [Risos] Foi um risco ainda maior do que eu imaginava, mas tinha uma tremenda vontade de seguir com a minha vida e não perder tempo. Por isso, foi um ato de coragem e de loucura também. Los Angeles pode ser uma cidade muito solitária e difícil se as coisas não correrem bem. Felizmente demorou apenas alguns meses até conseguir o papel na série
Dawson's Creek
, que provavelmente me salvou. Deu-me liberdade financeira, segurança e a sensação de que conseguiria viver da forma que queria. Foi um dos melhores momentos da minha vida.


- Fez 30 anos em 2010. Foi um momento de reflexão?

- Sinto que consegui seguir de acordo com aquilo que queria ser e fazer. Sempre fui ansiosa e com muita pressa de crescer, de atingir objetivos. Mas aos 25 anos era muito nova para ter um filho e fazer parte de uma relação tão profunda como a que tinha com o Heath. Sinto que agora tudo está mais equilibrado na minha vida e ainda tenho um longo caminho a percorrer.


A CARAS acompanha, a partir da 1h00 da manhã a cerimónia de entrega dos Óscares. Em
poderá ver todas as fotos de passadeira vermelha, conhecer os vencedores da famosa estatueta dourada e ainda dar a sua opinião no nosso blogue!


*Este texto foi escrito nos termos do novo acordo ortográfico.

Comentários

ATENÇÃO: ESTE É UM ESPAÇO PÚBLICO E MODERADO. Não forneça os seus dados pessoais (como telefone ou morada) nem utilize linguagem imprópria.

Nas Bancas

Newsletters

Receba grátis no seu email as notícias, as últimas caras!

Caras Nas Redes

Mais na Caras