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Luís Coelho

Carlos Castro: A carta que o cronista social deixou para ser lida depois da sua morte

Carlos Castro foi assassinado em Nova Iorque na última sexta-feira, 7 de janeiro, por Renato Seabra, que já confessou o crime. O cronista social partilhou por diversas vezes com os que lhe eram mais próximos o medo de ser morto e deixou, inclusivamente, uma carta a Miguel Villa, um amigo próximo, com a indicação expressa de a abrir no dia do seu funeral.

Redação CARAS
12 de janeiro de 2011, 12:28

"Para um dia...
Aos 7 de Fevereiro de 2010, faço como fiel depositário e proprietário, cerca de 10.000 slides de tudo o que se possa imaginar. GENTE deste país e do mundo que tive a honra de conhecer, entrevistar. LUGARES nunca imaginados que eu tantos dias, tantas noites, passeei, viajei, dei os meus passos dos dias, com alegrias e por vezes tristezas.
Estes slides retratam toda uma época (1977/2000) faz parte do meu percurso enquanto profissional do jornalismo. Aqui está toda a gente deste país. Muitos já partiram, outros, ainda aí estão. Alguns, esquecidos do tempo em que "o Carlos Castro dava uma mão sem nada receber em troca".
Deposito todo este valioso espólio a uma pessoa que considero, tal como eu, amigo das boas gentes, dos artistas e dos lugares. O MIGUEL VILLA fica assim como herdeiro universal destas imagens maravilhosas, algumas dramáticas, todas elas verdadeiras.
É a este homem que gosta e ama os artistas e toda a classe de PESSOAS boas deste país a quem entrego este depósito.
Um dia, quem sabe, outro dia, eu já cá não esteja, alguém se lembre de dizer que afinal "o cronista social que tanto teimaram denegrir" tinha muito mais para dar e mostrar. Mas o medo, a vergonha, a inveja, o ódio e esse MOSTRENGO português que nunca mais acaba, faz esquecer e matar as suas PESSOAS.
Camões escreveu e bem INVEJA na sua última palavra como que o grito de um povo que continua miseravelmente a não saber conviver, aceitar e tolerar.
Tenho a consciência tranquila. Tomara intelectuais, jornalistas, passassem, conhecessem, pelos lugares onde estive e apertasse a mão de GENTE notável. Mas eu nada sou.
Sinto que o meu tempo acaba. Dentro em breve. Manuel Rovisco tinha tanto talento. Inconformado e incompreendido. Abandonado tantas vezes. Lembro-me tanto da sua partida porque não queria estar num "país de gente tão cinzenta".
Hoje, aos milhares que me deviam ter dito OBRIGADO eu deixo as minhas eternas palavras de continuar a SER POR FORA O QUE SOU DENTRO DE MIM.
Lisboa 7 de Fevereiro 2010-02-07.
Carlos Castro"

 

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