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CONTO DE NATAL: A semente da papoila

por Rita Ferro

Andreia Guerreiro
24 de dezembro de 2010, 19:32

Em casa de Xin Lau, um dentista chinês a residir no Porto há muitos anos, não se enxergava, na véspera da consoada, um único sinal festivo. Herta, a romena que lhe limpava a casa, até estranhou:
- Na China não há Natal?

Bondosamente, o médico explicou-lhe que era cristão e que na sua terra também se festejava o Natal. A figura do velhote barbudo chamava-se Dun Lhe dao Ren e as famílias também ornamentam árvores com lanternas e flores de papel.

- Então por que não enfeita a sua casa?
Xin Lau contou-lhe que não conhecera os pais nem tivera nunca filhos ou mulher.

- Como é possível? - espantou-se ela. - Os médicos têm sempre mulheres!
Sorrindo, Xin Lau lembrou-lhe que, nesse caso, não seriam mulheres, mas aves de rapina.
Herta corou.

- Está bem. Mas o doutor é bonito, e aos homens bonitos nunca faltam namoradas!
Sorrindo ainda, Xin Lau explicou-lhe que também a essas não deveria chamar "mulheres", porque era um insulto às que amavam de verdade.

- Ora - riu-se ela. - O doutor também deve ser exigente!
- E sou - riu-se ele. - Não és também?
Herta não soube o que responder. Assim, de repente, não lhe ocorria um único momento em que tivesse exigido alguma coisa à vida. E tirou o avental, dizendo:

- Olhe, doutor. Se não se incomodar, trago-lhe ainda hoje umas luzinhas, para não passar o Natal às escuras.

Xin Lau concedeu. Toda a festividade o magoava, mas a ideia da empregada, tão carinhosa, provocou-lhe uma ventania na alma. Depois de lhe pagar as horas, disse:
- Hoje vou chegar tarde, mas entra e faz o que entenderes.

E assim foi: Xin Lau chegou tarde nessa noite, mas, mal meteu a chave à porta, viu que toda a casa resplandecia graças a uma enorme bola de madeira iluminada que a empregada pendurara na sala, contendo, no centro, uma Sagrada Família. Era tosca e faltava-lhe o Menino Jesus - talvez se tivesse descolado do conjunto sem que Herta desse por isso - mas a intenção comoveu-o.

Xin Lau sabia que, em Bucareste, as festas se iniciavam a 6 de Dezembro, dia de São Nicolau, e se prolongavam até 7 de Janeiro, dia de São João. Os meninos enfeitavam o abeto com bombons e bolas coloridas, significando, segundo a doutrina cristã, os frutos da Árvore da Vida. Os sinos também não podiam faltar, pois representavam o júbilo associado ao nascimento de Jesus. Mas aquela bola de madeira que Herta lhe deixara, e o seu conteúdo alegórico, era a tradição mais bonita de todas, por simbolizar o verdadeiro espírito da quadra.
Emocionado, resolveu ligar à empregada:
- Boa noite, Herta. Incomodo?
A rapariga respondeu: "O doutor nunca incomoda", mas Xin Lau encontrou-lhe uma tristeza na voz.

- Olha. Vinha só dizer-te que apreciei muito o que me deixaste aqui, e que até sei que, em romeno, se chama steua. Estou a pronunciar bem?
- Não - riu-se ela, agora já divertida. - Mas dito assim até é mais engraçado!

Seguiu-se um pequeno silêncio, que era Xin Lau a arranjar coragem:
- Herta. Trabalhas para mim há dois anos e nunca te perguntei: tens família?

Herta não respondeu e Xin Lau modificou um pouco a pergunta:
- Vives sozinha?
- Sim, doutor.
- E a tua casa? Está iluminada?

Ao silêncio sucedeu-se desta vez a surpresa de uma risada fresca:
- Ó doutor, isto é para rir: afinal quem está às escuras sou eu! Cortaram-me a luz por falta de pagamento, veja lá. E logo hoje, já viu?

Xin Lau ordenou-lhe então que chamasse um táxi e que fosse até a sua casa para festejarem juntos o Natal. E que não se preocupasse porque ele mesmo pagaria a corrida. Por sua vez, Herta disse-lhe que aceitaria apenas na condição de lhe poder levar sarmale, umas almôndegas de carne e arroz envolvidas em folhas de videira, e ainda uma caixa de cozonac cu mac, uma espécie de bolos de noz ou de sementes de papoila, alusivos à natividade.

- Traz, se queres. Arranjarei forma de honrar o teu gesto.
E assim foi. Não houve risos de crianças à volta da árvore, como nas outras casas, mas a steua com que Herta enfeitara a sala acabou por acender aquelas duas almas. Não logo. Lá mais para a madrugada, quando Xin Lau enfiou uma aliança no quarto dedo da rapariga, explicando-lhe que, segundo a lenda, era nesse e não noutro que passava uma certa veia que ia direita ao coração. Desvanecida, mas sem nada de valioso para retribuir, Herta confiou ao patrão a sua nudez esplendorosa, oferecendo-lhe, no dia de Natal - sem saber, sem poder sequer imaginar - a figura que faltava para completar o Presépio.

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