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Luís Gomes: "Talvez possa dizer que esta livraria sempre existiu"

Rita Ferro conversou com o dono da livraria Artes & Letras, um dos alfarrabistas mais fiáveis do mercado, tanto pelo critério do inventário como pela seriedade do anfitrião.

Andreia Guerreiro
27 de novembro de 2010, 19:48

Chama-se Luís José de Almeida Gomes, nasceu em Lisboa, tem 44 anos e é descomprometido. Estudou Náutica e as chamadas 'artes de fogo' (olaria, ourivesaria, etc.), dedica-se à horticultura nas horas vagas (tem uma horta na sua casa de São Bento) e está, neste momento, a tirar uma licenciatura em Antropologia. É colaborador regular da imprensa e autor de um livro recente de homenagem a Luiz Pacheco, o 'escritor maldito'. Os livros são a sua segunda pele e já não respiraria sem eles. Torceu o nariz ao termo 'misantropo', mas a verdade é que se trata de uma personalidade esquiva e reservada, feroz na defesa da sua privacidade. Amável e de aparência serena, viveu onze anos num barco atracado em Alcântara, tendo-nos confiado, nos bastidores da produção, que experimentava uma necessidade esporádica de visitar a cidade apenas para confirmar o júbilo de viver como vivia, ou seja, sobre água. Tem um alfarrabista no Chiado, mais precisamente no que chamamos Largo da Misericórdia, mas cujo verdadeiro nome laureia um magistrado e político, também escritor: Trindade Coelho. A casa chama-se Artes & Letras e é das mais fiáveis de Lisboa, não só pelo critério do inventário como pela seriedade e pelo carisma do anfitrião.

Rita Ferro e Luís Gomes
Rita Ferro e Luís Gomes
Mário Galiano
Rita Ferro - Conta-nos um pouco da história desta casa...

Luís Gomes -
A história da casa passa pela minha história pessoal. Desde que me lembro que os livros ocupam um lugar central na minha vida e no meu dia-a-dia, pelo que talvez possa dizer que esta livraria sempre existiu.


- E de onde te vem o gosto por livros?

- Quando penso na minha infância, penso inevitavelmente em livros, sobretudo numa muito particular zoologia com imagens de bicharada e homens de paragens exóticas, que folheei vezes sem conta. Foi aliás com esse livro em particular que aprendi a ler, sozinho, desafiado pelas maiúsculas que indicavam o nome do animal sob a estampa.


- E este mundo dos alfarrabistas? É gente mais chegada ao achado do que ao lucro, ou é possível fazer-se o que fazes com um objectivo meramente comercial?

- Bom, penso que, como qualquer negócio, também este pode ter como fim o lucro puro e duro, pelo que seguramente os haverá numa base meramente mercantilista.


- Que te dizem os livros, para além do que contam?

- Os livros em si, como qualquer outro objecto, porque os livros também são objectos, têm uma história de vida, ou de vidas, para além da que vem escrita nas suas páginas. Nas nossas relações com os objectos podemos perguntar-lhes, interrogá-los, e encontraremos sempre respostas. Precisamos é de lhes saber perguntar, pois as respostas dependem da capacidade que temos em formular a pergunta.


- E as dedicatórias? Contam uma história?

- Mais que histórias! Testemunhos, testemunhos de amor, de amizade, de cumplicidades...


Luís Gomes
Luís Gomes
Mário Galiano
- Qual a dedicatória que mais gostaste de 'encontrar'?

- Tenho encontrado frequentemente dedicatórias fascinantes, mas penso que das que mais me tocaram foi uma, em particular, que li num exemplar da primeira edição da
Clepsidra
, de
Camilo Pessanha
, que não era autógrafa, isto é, não era escrita pelo autor, mas por uma jovem esposa ao marido que partia para um destino distante, investido de uma qualquer missão:
"Para o meu amorzinho ler nas longas noites e não se sentir sozinho. Da esposa..."
Curioso porque este livro, para além desta terna e significativa dedicatória, tinha uma encadernação artesanal de cetim amarelo que, ao que tudo indicava, teria sido feita, pessoalmente, por esta senhora apaixonada.


- Lindo! E em que mãos estará agora?

- Neste caso até sei: nas de um querido amigo, que, penso, ainda hoje o conserva.


- Passou por aqui uma parte substantiva da nossa intelectualidade. Que autores conheceste e que figura te impressionou mais?

- Na livraria, ou por causa dela, conheci e continuo a conhecer muita gente! Entre outros, foram frequentadores habituais e amigos
Mário de Cesariny
,
Luiz Pacheco
,
Pina Martins
,
Raul Rego
. Homens que, infelizmente, continuam entre nós, mas já só através das memórias ou do trabalho que deixaram. Mas, vivos e bem vivos, também passam outros e não só consagrados, alguns, muito jovens, que um dia seguramente se virão a afirmar nos mais variados campos da Arte e da Cultura.


- Por que será que esta zona tem a maior concentração de alfarrabistas de Lisboa?

- É, pelo menos desde o século XVI, uma zona de editores, livreiros e tipógrafos.


- Queres contar-nos um episódio marcante ou pitoresco passado neste espaço?

- Mais uma vez a pergunta se prende comigo, pelo que os episódios são pessoais e todos eles relacionados com a oportunidade que tive de conhecer e privar com pessoas cujo trabalho admirava e admiro.


- Não sejas chato, conta lá uma...

- Conto, mas lembra-te que foste tu que pediste. [risos] Um dia, um bêbado bem apessoado entrou aqui e, olhando em volta, gritou:
"Estou num alfarrabista, não estou?"
Um cliente presente antecipou-se:
"Sim, é isso mesmo. Está num alfarrabista!"
Foi então que o homem fez
"hummm..."
e perguntou, apontando-me o dedo:
"Então você é que é o alfarrabo, certo?"


Rita Ferro e Luís Gomes
Rita Ferro e Luís Gomes
Mário Galiano
- Extraordinário. [risos] Bom: qual foi o valor mais alto por que vendeste um livro e de que se tratava?

- Os livros marcam-me não pelos valores, mas pelo facto de me terem passado pelas mãos.


- E entre todo este espólio, que título não venderias por nada deste mundo?

- Qualquer dos meus livros do
Herberto Helder
.


- Nele, as dedicatórias são raras...

- Todas as dedicatórias são raras. Os autógrafos que se despacham na Feira do Livro não têm direito a essa designação.


- Já te aconteceu vender livros aos próprios autores? Se afirmativo, sentes um constrangimento?

- Já, muitas vezes. E em relação a alguns, sim, senti. Quando me acontece, resolvo o problema oferecendo-lhes os livros.


- Um dia, há mais de dez anos, o Luiz Pacheco mandou-me um livro enrolado em papel higiénico. Tiveram de me explicar que não era uma ofensa, digamos que... personalizada... [risos]

- Bom, conheci bem o Luiz Pacheco. No caso, não era de todo uma ofensa personalizada! Muitos dos assinantes da Contraponto, editora do Pacheco, foram contemplados com livros enrolados em papel higiénico e um papelinho a pedir, na volta do correio,
"vintes"
, que era como ele chamava às notas de vinte escudos... [risos]


- Sorte a minha, a mim não cravou ele nada. [risos] Bom, viveste onze anos num barco. Este espaço é um pouco o prolongamento desse isolamento ou nesta zona é impossível? Disseram-me que és muito popular no bairro e que até os sem-abrigo te visitam...

- Penso que sim. A livraria, tal como o barco ou a minha casa na Ilha, são, na realidade, apenas complementares entre si, e todos eles reflexo do meu espaço interior. Um espaço interior que é de algum, salutar, isolamento. O que não me impede de ter alguma popularidade em alguns meios.


Luís Gomes
Luís Gomes
Mário Galiano
- Fala-nos desse teu lado misantropo...

- Misantropo, Rita? Que é isso? Não, não me considero um misantropo, até gosto bastante de socializar. Agora: não gosto de confusões nem de barulho, e, por incapacidade, não consigo estar com muitas pessoas ao mesmo tempo. Duas, idealmente... [risos]


- E essa mítica casa das Flores para onde te escapas sempre que podes?

- Bom, as Flores são o meu Paraíso, o meu Jardim do Éden.


- Uma pergunta indiscreta: lês que te desunhas ou já só 'petiscas'?

- Primeiro petisco, provo, passo uma vista de olhos. Depois leio ou não, mas, se me abalanço, leio vorazmente: começo à noite e acabo de manhã. Também me acontece 'ir lendo'. Algumas vezes demoro meses a acabar um livro.


- Qual o género, ou época, que te interessa preferencialmente?

- Talvez a poesia, toda a poesia de todas as épocas.


- Que tipo de perfil te visita mais frequentemente? Pode traçar-se um paradigma?

- Não, há de tudo. Desde jovens, ou menos jovens, à procura de um resumo d'
Os Maias
, até àqueles que entram apenas para namorar as lombadas.


- O que te fascina mais? Os livros ou os autores?

- Os dois! Já fiquei fascinado por autores cuja obra nada me disse, e também o inverso: li livros extraordinários de escritores que, uma vez conhecidos, me desapontaram. As obras e os autores têm vidas próprias que, na maior parte das vezes, não coincidem no interesse que despertam.


- Enfim: é possível enriquecer-se neste negócio?

- Claro, das duas formas. No meu caso, só culturalmente. [risos]


- E tens um gato, um gato que percorre este templo, majestático, como se fosse o último imperador da China...

- Não é gato, é gata. E não a tenho: ela é que me tem!


Nota:
por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico


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