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Nações Unidas

Catarina Furtado 'campeã' dos objetivos do milénio das Nações Unidas

Foi com uma sensação de dever cumprido que a apresentadora e atriz regressou a Portugal após uma semana intensa em Nova Iorque, onde, a convite do secretário-geral da Nações Unidas, Ban-Ki-Moon, participou na Cimeira do Milénio.

Pedro Amante
29 de setembro de 2010, 18:47

- Sente que conseguiu fazer passar a sua mensagem?
Catarina Furtado -
Regresso a Portugal com uma sensação de dever cumprido e com a certeza de que esta semana, vivida praticamente nos corredores das Nações Unidas, foi fundamental para o meu trabalho enquanto embaixadora do Fundo das Nações Unidas para a População. Não só transmiti a minha experiência, o que tenho visto e sentido no terreno, nos diversos países que tenho visitado, como aprendi e debati algumas noções de política e algumas estratégias para abordar o setor privado. Fiquei também muito satisfeita por ter sido inúmeras vezes sublinhada uma realidade que para mim já era evidente: tem de se investir urgentemente na saúde da mulher e da criança, na saúde materna e neonatal, no planeamento familiar. Ficou provado que investir nas mulheres é a única maneira de erradicar a fome, a pobreza e a desigualdade no Mundo.


- Como se sente na pele de Campeã dos Objetivos do Milénio das Nações Unidas?
-
Fico muito contente por ser portuguesa e porque, muitas vezes, não tenho o
feedback
por parte da imprensa nem o suporte de cúmplices financeiros que outros embaixadores têm. O nosso trabalho é exatamente promover os direitos humanos, denunciar situações desumanas, angariar verbas que façam a diferença nestes países, falar em nome dos que sofrem em silêncio. Já são tantas as mulheres e crianças que entraram na minha vida, por ser tão chocante o seu sofrimento, que já não irão sair. Mas, são também o sinal da esperança e resistência que necessitamos. O nosso trabalho é também tentar sensibilizar não só a sociedade civil mas os diferentes governos a agir em determinadas direções. Não existe nada mais gratificante e compensador do que tentar contribuir para ver atenuada uma dor imensa, alterada uma lei injusta, construída uma infraestrutura que salva vidas, mudada uma mentalidade que viola a dignidade e promove a morte.

Bom era que não fosse preciso existirem 8 Objetivos de Desenvolvimento do Milénio para atingir até 2015, isso quereria dizer que as anteriores gerações e as nossas tinham conseguido fazer deste mundo um mundo bem mais equilibrado. Estamos hoje a desvalorizar vidas humanas que podem ser absolutamente vitais para o futuro da nossa Humanidade. Não permitir que mais de metade da população mundial tenha acesso a cuidados de saúde e educação, é desistir de cérebros e corações que podem fazer a diferença. É não ter a consciência que, de facto, cada pessoa conta.


- Teve oportunidade de falar com algumas personalidades. Quem foi que mais a surpreendeu?
-
É muito bom trocarmos experiências, quer quando vimos dos mesmos meios profissionais, mas de países diferentes, quer quando estamos perante pessoas que fazem o mundo girar. Foi muito emocionante estar presente na Assembleia Geral em que participaram todos os Chefes de Estado. Foi incrível ver, lado a lado, presidentes de países europeus, de países árabes e africanos, reis, primeiros ministros e, depois, pensar que, ali, tudo parecia tão fácil de resolver. Ter o presidente do Irão, por exemplo, e apetecer-me dizer-lhe uma série de coisas, ou mesmo o presidente de França... enfim, a dimensão do poder deles senti-a ali mais do que nunca. Outro momento muito importante foi o almoço privado com o secretário-geral
Ban-Ki-Moon
, porque pude, de uma forma muito informal, tirar dúvidas, partilhar opiniões e reforçar estratégias. Muito acessível e muito reconhecido pelo nosso trabalho.
Bob Geldof
também foi muito inspirador, porque é pragmático nas opiniões e livre.
Melinda Gates
, filha de
Bill Gates
, presidente da Fundação Gates foi uma das pessoas que mais gostei de conhecer, porque foi a grande incentivadora de uma doação coletiva de 30 mil milhões de euros para a área da saúde materna e neonatal e para o planeamento familiar, no sentido de garantir que menos pessoas morram por falta de assistência médica e com fome. Todos os dias perdem a vida cerca de 1000 mulheres ao dar à luz e é muito elevado o número de mortes de crianças até aos 5 anos de idade. Há que investir nestas vidas.


- O que sentiu no momento do discurso ? Mais difícil, certamente, do que apresentar um programa de televisão ou interpretar uma personagem?
-
Muito diferente, sobretudo por ser uma oportunidade de luxo sentir que aquilo que vi e partilho pode, modestamente, influenciar os jovens a olharem cada vez mais para lá do seu umbigo e a quererem exercer o seu direito de cidadania. Depois do discurso houve uma sessão de perguntas e respostas também com a participação de jovens que estavam na Libéria e no Irão através de videoconferência e foi emocionante sentir o interesse deles pelas nossas palavras. Foi também curioso perceber que a maior parte dos grandes decisores ou potenciais doadores não conhecem o terreno, nunca viram como é que as pessoas realmente vivem ou tentam viver e o quanto sofrem. Apenas conhecem os relatórios e, por isso, as histórias reais, com nomes próprios, e as nossas opiniões em relação ao que poderia mudar, têm assim um eco importante.


- Quanto tempo demorou a preparar o discurso ?
-
Uma longa e silenciosa madrugada.


- Podes descrever o ambiente que se viveu na gala de encerramento?

-
Foi uma sensação de alivio no sentido em que todos trabalharam intensamente para que, de uma vez por todas, nas agendas políticas e nos compromissos da sociedade civil passe a falar-se na urgência de se atingirem as metas do Milénio. Em cumprir o prometido. Faltam apenas 5 anos e já não é momento para se ser apenas solidário, tem de se agir. O presidente da Virgin,
Richard Branson
, disse uma coisa que me tocou, quando, numa das suas muitas ajudas, um rapaz lhe disse que com a oportunidade que ele lhe estava a dar, quem sabe um dia, ainda ouviriam falar mais dele do que do próprio... São dessas milhares de vidas que não podemos desistir. É muita pretensão nossa vivermos de costas para realidades que nos deviam atordoar o sono.


- Conheceu a rainha Rania da Jordânia?
-
Já a tinha conhecido em Portugal, num jantar para o qual fui convidada pelo Presidente da Republica no Palácio de Belém. Ouvi muito atentamente o seu discurso, onde também destacou o papel decisivo das mulheres para atingirmos os ODM. São as mulheres que dão à luz e educam. São excelentes gestoras e são o grande motor das sociedades.


- O papel de embaixadora é um legado que pretende deixar aos seus filhos?
-
Acho que o mais importante é o exemplo de educação que eu e o João lhes tentamos dar. Eles têm de encontrar o seu papel nesta sociedade e desejo muito que tentem ser muito mais do que apenas cidadãos generosos. Gostava que fossem uns promotores fervorosos dos direitos humanos, da igualdade e da justiça.


- Eles ainda são pequenos, mas já os alerta para estas questões, para as injustiças sociais que existem no mundo que nos rodeia?
-
Hoje em dia, as imagens do sofrimento dos outros entram com grande facilidade nas nossas vidas e isso tem vantagens e desvantagens, porque pode haver uma banalização. Mas aquilo que lhes digo e a quantidade de vezes que lhes digo é inevitável, por ter visto o que já vi. Há imagens que não esqueço em nenhum momento.


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