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José Fidalgo: "Tive o meu lado marginal como qualquer jovem tem"

Aos 31 anos, o ator diz que não é um homem de arrependimentos e que está satisfeito com o que alcançou.

Joana Carreira
28 de setembro de 2010, 10:31

José Fidalgo é muito reservado e faz os possíveis por não expor a sua vida privada. Por isso, estava implícito neste encontro com a CARAS que seria a vida profissional a marcar o ritmo da conversa, a propósito da estreia do filme Marginais, que protagoniza na pele de um homem instável e perigoso que dá aulas de jiu-jitsu de dia e à noite participa em lutas de rua ilegais. No entanto, no decorrer da conversa, José Fidalgo acabou por nos falar um pouco mais de si e contou como está a viver o papel de pai de um rapaz, Lourenço, de 11 meses, fruto do seu casamento com Fernanda Marinho Fidalgo.

- Também tem o seu lado marginal ou rebelde?
José Fidalgo - Tive o meu lado marginal como qualquer jovem tem. Venho dos subúrbios de Lisboa, é natural que existisse um pouco, não dessa marginalidade, mas uma forma de viver diferente da de uma pessoa que morasse, por exemplo, num condomínio fechado. Era um rapaz dos subúrbios, as minhas brincadeiras eram ir para o mato montar casas nas árvores ou andar de bicicleta nas ruas. E o contacto com essa marginalidade é regular, porque nos subúrbios há sempre bairros sociais, até a escola que frequentei propiciava esse contacto. Acabou por me ajudar a captar o lado marginal de que precisava para o filme, embora me tenha sido sobretudo útil o estudo que fiz observando as pessoas que entraram no filme, como o caso de Sandro Bala e da sua escolinha de jiu-jitsu. Ele ajudou-me imenso a captar a essência e os maneirismos desse modo de vida.

- Como foi essa adolescência? O que fazia antes de ser ator?
- Tive trabalhos normais, como toda a gente, e aos 15 anos comecei a fazer anúncios. Tive trabalhos paralelos, mas para meu próprio gozo, para pagar as minhas despesas. Os meus pais concordaram e educaram-me dessa maneira. Como comecei a trabalhar muito cedo, também consegui arranjar uma forma de subsistência através deste meio, onde cresci como homem e ator. Primeiro, preocupei-me com os estudos, depois, com o trabalho. Sei que não me vou arrepender daquilo que fiz, porque estou bem e gosto. O meu percurso, fi-lo de acordo com a minha consciência.

José Fidalgo
José Fidalgo
João Lima
- A tatuagem que tem no fundo das costas vem desses tempos de 'rebelde' da adolescência?
- Não. Foi uma coisa pensada e existe uma justificação para ela, mas fica para mim. Já a fiz há mais de dez anos e não me arrependo. Não sei se vou ou não fazer mais alguma, fiz esta porque foi um momento da minha vida que eu quis marcar. Hoje em dia as tatuagens são utilizadas mais com objetivos estéticos, em consequência de um certo culto da beleza. Não tenho nada contra as pessoas que o fazem, mas defendo outra filosofia.


- E como vai marcar o nascimento do Lourenço? Com outra tatuagem?
- Não, o nascimento dele já marcou. Foi o nascimento dele que marcou a minha vida como homem.


- E o que é que mudou desde que foi pai?
- A primeira coisa que me veio à cabeça quando nasceu o meu filho foi o sentido de responsabilidade em educá-lo, seguindo os moldes de educação que recebi e que fui aprendendo ao longo da vida.


José Fidalgo
José Fidalgo
João Lima
- É difícil o papel de pai? É difícil educar um filho?
- É um trabalho de grande responsabilidade e é claro que também tenho medo de errar enquanto pai. Às vezes optamos por uma determinada atitude que na altura pensamos ser a mais correta e mais tarde percebemos que nos enganámos. Há esse medo, mas tudo isso faz parte da responsabilidade de educar uma criança. De qualquer forma, não penso muito nisso, vou vivendo o dia-a-dia e vou-me preocupando sempre com ele e com o seu crescimento, mas tento não fazer disso um bicho de sete cabeças.


- Ser pai é muito diferente daquilo que imaginou?
- Quando a criança nasce, é que se leva um 'baque'. Agora sou pai! A mulher vai passando fisicamente pelos nove meses de gestação, que nós acompanhamos e nos dá alegria, mas talvez se prepare mais concretamente do que nós. Do lado do pai, toma-se verdadeira consciência de tudo só quando o bebé nasce. Pelo menos foi assim comigo.


- É a melhor sensação do mundo?
- Ao dizer que sim, estarei a diminuir muitas outras grandes sensações que existem pelo mundo fora. O que posso dizer é que ser pai foi, até agora, se não a melhor, uma das melhores sensações que tive na vida. É uma sensação única, sem comparação.


José Fidalgo
José Fidalgo
João Lima
- Por motivos profissionais, ausenta-se várias vezes de casa. É difícil lidar com as saudades?
- Tenho saudades do Lourenço e da Fernanda como qualquer pai tem saudades do seu filho e da sua mulher. É difícil, mas lido bem com isso. Tem de ser. Tenho de trabalhar para sustentar a minha família, para seguir o meu sonho, a minha profissão e ambição como ser humano.


- Depois de interpretar o papel de um marginal no filme, passou a ver essas pessoas com outros olhos? Ganhou tolerância e compreensão para lidar com casos problemáticos?
- Primeiro ponto: nós nunca devemos julgar à primeira. Há uma coisa que se chama presunção de inocência e que se aplica tanto na lei como na vida. É óbvio que nós somos seres humanos e, como tal, imperfeitos. Erramos em muita coisa, e acabamos sempre por tirar ilações precipitadas em relação ao comportamento das pessoas, mas o desafio é pensar primeiro antes de julgar. Eu tento ir por aí, não tomar aparências por essências.


- Há pouco referiu o nome do Sandro Bala, perito em artes marciais, que é suspeito de pertencer a um grupo organizado considerado altamente perigoso que forçaria os donos de espaços de diversão a contratarem-nos como seguranças na sequência de ameaças e atos de violência. Tinha conhecimento desse lado da vida dele? Como foi trabalhar com ele?
- O que posso dizer é que desconhecia isso. O Sandro Bala foi, quer para mim, quer para toda a equipa, um amor de pessoa. Sei que por vezes as pessoas mais dóceis são também as que têm o poder de ser o contrário... Sei que ele tinha a sua escolinha, através da qual participava em combates oficiais, tanto nacionais como internacionais, que ganhou prémios e foi contratado pelo
Hugo Diogo
para participar no filme e ensinar um pouco as técnicas de combate de rua. E foi essencial. Tenho a maior admiração por ele. E é como digo: tem direito à presunção da inocência até prova em contrário.


José Fidalgo
José Fidalgo
João Lima
- O Zé também aprendeu algumas técnicas de combate. O filme entusiasmou-o a praticar esse tipo de desporto?
- Não consigo ter uma rotina para praticar esse tipo de desporto. Em pequeno, praticava karaté, mas à medida que fui crescendo nesta profissão tornou-se difícil manter uma rotina desportiva e sempre tive pena disso. Não temos horário fixo, não há forma de estabelecer esse tipo de rotina.


- Qual seria o seu programa ideal para um dia de folga? Sem telemóvel.
- Sem telemóvel não posso.

É a minha ferramenta de trabalho. Mas um dia ideal para mim, sinceramente, seria ir com a minha família à praia e 'apanhar' umas ondas.


*Este texto foi escrito nos termos do novo acordo ortográfico.

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