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Isabel Leal: "Somos, antes e depois de tudo, animais"

A psicóloga clínica e psicoterapeuta desmantela nesta entrevista os chavões mais recorrentes associados à sua profissão.

Andreia Guerreiro
15 de julho de 2010, 10:25

Os leitores conhecem-na bem e já não prescindem da sua sabedoria. É, desde o n.º 1, colaboradora infalível desta revista, assinando semanalmente a rubrica que hoje se chama CARAS Psicologia. Trata-se, é claro, da psicóloga clínica e psicoterapeuta Isabel Maria Pereira Leal, de 53 anos, casada, doutorada pela Universidade Católica de Louvain, professora do ISPA, investigadora, cronista, autora de numerosas obras de referência e especialista em 'saúde sexual e reprodutiva' e 'parentalidade'.

Recebeu Rita Ferro no seu refúgio mágico da Quinta da Carregueira, em Belas, propício não só ao equilíbrio de que precisa para aguentar uma vida rigorosa, mas ao que lhe cabe, por sua vez, transmitir aos pacientes. Positiva e estimulante, mas ferozmente racional, desdobrando-se em múltiplas solicitações clínicas e académicas, lidando diariamente com o sofrimento alheio, conversou connosco sobre a dor, dissolvendo alguns mitos e dúvidas elementares sobre a profissão de risco que escolheu e se expande entre os abismos da alma, os labirintos da mente e a contribuição dos genes.

Rita Ferro - Socorro, Isabel! Hoje em dia, ao mínimo desabafo, surge sempre alguém pronto a debitar um diagnóstico 'técnico'. Ouvir constantemente coisas como "estás com a auto-estima em baixo" ou "em processo de negação" é uma coisa que me deixa histérica...
Isabel Leal - A ti e a mim. A psicologia, aliás, como quase todas as ciências, desceu à rua e passou a aparecer nos discursos das gentes, como se a utilização de algumas palavras, expressões ou chavões interpretativos mostrassem conhecimento. Claro que isso, em si mesmo, não é grave. Mas torna-se chato quando velhas categorias e atávicos preconceitos vestem novas roupagens e acabam a querer legitimar opiniões, juízos de valor e intrusões na vida alheia.

- Suponho que, mesmo ao fim de décadas de prática de psicoterapia, o paciente que se senta à tua frente pela primeira vez ainda te reserve surpresas...
- Essa é a boa notícia do meu trabalho. Depois de todas as comunalidades que um dado indivíduo partilha, e que consigo reconhecer e identificar, o que sobra é ainda um núcleo riquíssimo de particularidades e idiossincrasias que são verdadeiramente únicas e exclusivas. Quando deixar de me surpreender, quando deixar de conseguir lá chegar, terá soado, certamente, a hora de parar.

- Durante as consultas, onde a exteriorização do sofrimento e do fracasso pode ser tão onerosa, detectas imediatamente quando um paciente te 'engana' ou há 'actores' com talento suficiente para te despistar?
- Em psicoterapia, as mentiras e batotas não são importantes. Cada um vai dizendo o que pode, como sabe e consegue, indicando de forma nítida as suas zonas de dificuldade. Tão importante como o que se diz é o que não se diz, o que se repete incansavelmente, o que se escamoteia e deixa buracos abertos a que um dia se há-de regressar. Em psicoterapia, tal como a entendo e pratico, tem de se respeitar o ritmo das narrativas, deixar que cada romance privado se construa e dilua na medida exacta das necessidades e possibilidades de cada um.

Rita Ferro e Isabel Leal
Rita Ferro e Isabel Leal
Mário Galiano
- E a tão romantizada dependência entre terapeuta e paciente? É verdade ou mito?

- Exagera-se muito essa dependência. Para que um processo terapêutico funcione é necessária uma aliança tecida em confiança que, uma vez instalada, faz do espaço e do tempo terapêutico uma situação excepcional. E exactamente por se centrar em torno das necessidades específicas de cada indivíduo, ou seja, irrepetível noutros contextos, é expectável que, durante um determinado período de tempo, se torne uma zona privilegiada. Mas, como todos os processos, evolui de fase em fase e extingue-se naturalmente.


- Imagino que um técnico, perante o quadro que analisa, se preocupe prioritariamente em desculpabilizar quem sofre. Essa excisão da culpa, mesmo responsável, não se arrisca a tornar as pessoas mais duras e insensíveis perante a vida ou o sofrimento alheio?

- A culpa, só ela, daria um sem-fim de ensaios. A que o paciente vai expressando, conscientemente, durante a consulta, tem pouco que ver com um sentimento de culpabilidade mais profundo e enraizado que, regra geral, convive paredes-meias com agressividades contidas e escondidas. Desse prisma, não me parece que se corra o risco de tornar alguém inflexível ou menos desinvestido, mas, pelo contrário, mais responsável e menos atormentado.


- Como se processa o 'desmame' de um paciente depois da 'alta'? Não se enfrenta um primeiro momento de vertigem, equivalendo, como nas aves, ao primeiro voo desamparado?

- Acho que se ensina a voar durante a psicoterapia. Um dia, naturalmente, dá-se conta dessa autonomia e de que se tornou possível voar-se sozinho. É quando aquele tempo e aquele espaço deixam provavelmente de fazer sentido, que as razões que conduziram até eles se dissolveram, e que outras, que entretanto surgiram, e que até então justificaram os encontros, se foram, também elas, desvanecendo. Tudo acontece com uma enorme naturalidade, sem dores de separação nem angústias de abandono.


- Saberias esboçar um paradigma da 'dor portuguesa'?

- Saber, não sei. Sei que o que é verdade para os indivíduos não o é para os grandes grupos. Mas essa passagem de nível de análise é uma tentação de todos os psis, a começar pelo incontornável
Freud
, que escreveu alguns textos soberbos sobre a psicologia colectiva. Não sei se há
"uma dor portuguesa"
. Achas que sim?


Isabel Leal
Isabel Leal
Mário Galiano
- Olha, ocorreu-me O Medo de Existir, do José Gil, que aponta alguns dos nossos atavismos...

- Mas aí a reflexão é assumidamente filosófica, ainda por cima a partir de um lugar que é o do próprio Gil, repartido entre duas culturas, o que, provavelmente, lhe permite, por um lado, alguma exterioridade e, por outro, um termo de comparação fixo. Acredito que enquanto povo tenhamos as nossas idiossincrasias e as nossas formas de expressão particulares, mas a dor, essa, parece-me universal...


- À infância maltratada ou negligenciada corresponde necessariamente um traumatismo ou há quem possa escapar-lhe?

- As infâncias infelizes não explicam muito. Acho que toda a gente percebe que a infância é um período sensível em que se experiencia pela primeira vez, se não tudo, pelo menos muito. Daí resultam marcas, impressões, que deixam lastro pela vida fora. Aliás, a tese de que a infância deve ser um período da vida especialmente protegido decorre desse entendimento. Mas uma coisa é esse reconhecimento, outra, bem diferente, a teoria determinista que aponta para que tudo se radique e se explique por experiências precoces razoavelmente imutáveis. Felizmente para nós, seres em perpétua construção, em qualquer idade se podem viver experiências significantes. Os maus-tratos e negligências são tão indesejáveis como a hiperprotecção em redomas assépticas, por exemplo.


- Indirecta para certos pais 'modernos'...

- Gosto de dizer que somos quem somos não por causa do que nos aconteceu, mas apesar do que nos aconteceu. Só isso pode explicar a diversidade de comportamentos em pessoas com origens e formações idênticas.


- Como reages ao recurso tão frequente àquilo a que os americanos chamam 'gestores de felicidade'? Não será, de certa forma, uma batota ou um adiamento?

- Aqui, Rita, apetece-me dizer sobre a felicidade o que o
Baudrillard
dizia sobre o consumo: será apanágio de todos quando já nada significar.


- [risos] E a influência dos genes?

- Desde que os genes não sejam elevados à categoria de Deus Nosso Senhor, tudo bem. Sabes? É que por vezes parece que temos tendências monolíticas e nos agarramos a um único tipo de explicações: umas vezes é o cérebro, outras, os genes, outras, espiritualidades quase místicas, outras ainda, o psiquismo, como se fosse um derivado da alma a pairar no éter. Somos, antes e depois de tudo, animais. A importância da biologia e
par cause
dos genes é definitiva e ponto final. Sem hesitações. Mas também somos animais de cultura. Quero dizer, se estamos biológica ou geneticamente programados para qualquer coisa, essa coisa chama-se cultura. E a cultura, qualquer cultura humana, evolui em luta contra a natureza primordial.


Isabel Leal
Isabel Leal
Mário Galiano
- Mas há as causas reactivas e as endógenas, certo?

- Numa lógica de catalogação grosseira, chamamos depressão a qualquer tipo de sentimento de tristeza. A nossa civilização impacienta-se com as tristezas arrastadas, ainda que bem fundamentadas, e com os humores pardacentos. Nós próprios fomo-nos tornando pouco tolerantes à frustração e à perda. Muitas depressões são reactivas a acontecimentos que, ainda que previsíveis, fazem mossa (a morte dos pais, p. ex.) e outras demonstrando o que já se sabia: que lidamos mal com demasiados acontecimentos a bater-nos à porta ao mesmo tempo. Existem depois outros quadros de depressão que emergem e se desenvolvem por razões intrínsecas ou endógenas. São as mais raras e são as tais que remetem para razões dominantemente fisiológicas.


- Krishnamurti dizia: "Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente como a nossa." Queres comentar?

- Talvez não sejamos tão bem adaptados assim. Cada um de nós à sua maneira tem zonas de relevante inadaptação mesmo que não se tornem públicas e notórias. Viver com elas em sociedade obriga-nos a uma constante
performance
. Desempenhamos papéis, muitos papéis, sem a arte dos profissionais, mas com a convicção dos amadores que conseguem sentir gratificação e estima com muito pouco. Talvez o dilema de permanecermos únicos sendo simultaneamente idênticos a tantos outros seja, em si mesmo, um malabarismo difícil.


- Provocação final: Pessoa teria os mesmos heterónimos sob o efeito do Prozac?
- Seguramente que sim! Mesmo que em diagnósticos retroactivos seja possível dizer que o Pessoa tinha uma perturbação afectiva, isso não explica a qualidade da sua produção. Nem todos os que consideramos 'loucos' são geniais (a maioria não é), da mesma forma que nem todos os que consideramos 'geniais' perdem o pé.




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*Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.


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