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Catarina Furtado em Moçambique e Timor: "Estou rica numa perspectiva real e humana do mundo"

A apresentadora confessou que sente saudades da família nestas viagens, mas admite que isso é o mínimo perante a realidade dura de outras mulheres, que muitas vezes nem conseguem alimentar os filhos.

Melissa Tavanez
29 de setembro de 2009, 16:29

Em 2001, Catarina Furtado foi nomeada embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA). Mais tarde, através da RTP e de um programa da sua autoria, a apresentadora começou a mostrar a realidade das mulheres e famílias em vários países subdesenvolvidos e ao mesmo tempo a angariar fundos e bens para auxiliar essas comunidades. Agora, regressa com o programa documental Príncipes do Nada, que mostra as suas viagens, a realidade em que vivem as populações bem como os projectos que tem ajudado a desenvolver nesses locais e os resultados dos mesmos. A CARAS relata o que Catarina viveu em Moçambique e Timor, incluindo as saudades que teve dos filhos - Maria Beatriz, de três anos, e João Maria, que faz dois anos em Outubro - e do marido, João Reis, à emoção de reencontrar rostos que acompanha há alguns anos e que tem ajudado a terem uma vida melhor.

- Timor e Moçambique foram viagens importantes para o projecto que tem desenvolvido. Como correram as coisas desta vez?
Catarina Furtado - Fiquei absolutamente contagiada por aqueles exemplos de vida e senti necessidade de voltar ao terreno e dar voz a outras histórias e projectos. Desta vez, ao regressar a Moçambique e Timor, já tenho um olhar um bocadinho menos exterior e também sinto um enorme carinho por parte das populações, que me olham como uma amiga que lhes permite fazer a ponte para o resto do mundo.

- É difícil conviver com realidades tão duras?
- Tem sido muito duro, mas muito gratificante. Seria mais fácil não fazer nada perante tanta pobreza e tanta desigualdade social, mas como a minha convicção é a de que cada um de nós tem a obrigação de contribuir de alguma forma, já que habita este mundo onde os decisores, os governos, não conseguem fazer tudo, essa é a minha opção de vida como mulher, mãe e profissional de televisão.

- Que projectos tem desenvolvido nestes locais e que outros estão ainda por desenvolver?
- É um grande orgulho, por exemplo, saber que, com a contribuição de todos os portugueses e a participação da Cooperação Portuguesa, foi nosso o maior donativo alguma vez dado ao Fundo das Nações Unidas para a População, do qual sou embaixadora de Boa Vontade. Com esses 500 mil euros, cada um de nós pode ficar muito feliz, porque na Guiné, neste momento, são muitas as mulheres que se salvaram, que fugiram à morte e à do seu bebé, porque se construiu um bloco operatório onde se fazem cesarianas, porque se colocaram painéis solares (a Guiné vive às escuras!) e se entregaram ambulâncias, para além da formação de médicos e enfermeiros e de todo o trabalho de sensibilização.

- Qual foi o momento que mais a emocionou?
- São tantos os momentos e tantas as caras que não esqueço, pessoas que abdicam de todo o conforto para viverem o seu dia-a-dia a dar, partilhar e transformar a vida dos outros numa existência mais digna. A enfermeira Olinda, de Moçambique, que acolhe crianças órfãs da sida e que através da sua Associação Reencontro lhes dá comida, oportunidade de estudar e até de concretizarem alguns sonhos.

Catarina Furtado em Moçambique e Timor: "Estou rica numa perspectiva real e humana do mundo"
Ricardo Freitas/Até ao Fim do Mundo

- Tem revisitado pessoas que conheceu anteriormente?
- Sim, faço questão, mas as nossas agendas são sempre intensas. Em nove dias de viagem, fazemos cerca de sete reportagens. Desde o amanhecer até a luz permitir, estamos sempre a trabalhar. Não me queixo, porque tenho uma equipa perfeita, o produtor Ricardo Freitas e o repórter de imagem Hugo Gonçalves são uns verdadeiros cúmplices, já contaminados com este vírus bom que nos faz querer estar onde poderemos fazer alguma diferença. Nos projectos que envolveram angariação de fundos e entrega de bens materiais, vou sempre ver como estão as coisas a funcionar, e a verdade é que são as pessoas que marcam a diferença.

- Em termos pessoais, deve ser um trabalho gratificante...
- Estou rica, com uma perspectiva muito mais real e humana do mundo. Com histórias de verdadeiras lições de vida para partilhar e que me ajudam a fazer com que os meus filhos percebam a importância de sermos cidadãos do mundo com direitos e deveres.

- Ser mãe fá-la viver com maior intensidade estes problemas?
- Acho que bastava ter tido, como tive, uma educação atenta à tolerância e à diferença, mas é claro que depois de ter recebido esta missão das UNFPA, fiquei com uma noção muito mais exacta do sofrimento de milhares de mulheres por razões tão diferentes como a fome, discriminação, violência, abusos dos direitos humanos. Ter assistido pessoalmente ao sofrimento de tantas mulheres para poderem dar à luz, depois de eu própria ter sido mãe, com dois partos maravilhosos, deixa-me muito indignada e com vontade de procurar ajudar na medida das minhas possibilidades.

- E isso mudou a sua maneira de estar enquanto mãe?
- Talvez seja um bocadinho mais exigente com eles, apesar de serem tão pequeninos. Mas mesmo com os meus enteados, dou permanentemente "lições" de valorização das coisas que têm e do conforto, e conto exemplos que tenho conhecido. Sou rigorosa nos presentes e muito pouco sensível aos pedidos constantes que hoje em dia as crianças fazem. E dou amor, muito amor, porque acredito que é meio caminho andado para virem a ser adultos confiantes, com a auto-estima em ordem e, sobretudo, sensíveis aos outros.

- Como foi estar este tempo afastada da sua família?
- Custa muito, tenho saudades infinitas, mas, sinceramente, custa muito mais ver o que vejo e saber que aquela é a realidade daquelas pessoas. Eu volto para o meu conforto e mato todas as saudades, mas elas ficam lá.

Catarina Furtado em Moçambique e Timor: "Estou rica numa perspectiva real e humana do mundo"
Ricardo Freitas/Até ao Fim do Mundo

- Como vai matando saudades da família?
- Telefono e, à noite, nos quartos, falo baixinho para dentro de mim e relato-lhes o dia intenso.

- Em algum momento receou pela sua segurança ou saúde, tendo em conta os locais de risco que visitou?
- Não, mesmo na Guiné, onde a instabilidade é grande, não senti medo, o povo é muito gentil e tenho tido todas as facilidades para trabalhar. Em Timor também. É verdade que, infelizmente, hoje em dia mesmo os voluntários e trabalhadores de ONG e Nações Unidas são também alvo a abater, mas até agora nunca senti perigo. Em relação à saúde, sou muito cuidadosa e pouco aventureira, por exemplo, nas comidas.

- Estas suas ausências significam responsabilidades acrescidas para o João...
- Claro! E o contrário também. Ainda há pouco tempo o João foi durante 15 dias a S. Paulo, Brasil, fazer a peça Turismo Infinito, de Ricardo Pais (um enorme sucesso!) e as minhas responsabilidades dobraram! Cá em casa está tudo muito bem distribuído.

- A vossa relação assenta, certamente, numa base de grande respeito e entreajuda...
- ... admiração, humor e muita poesia...

- Será esse um dos segredos para a felicidade?
- Acordo a sorrir.

- Gostaria de voltar a ser mãe ou a família está completa?
- Por enquanto, concentro-me com todas as minhas forças em ajudar a minorar a dor das milhares de mulheres que dão à luz no mundo lusófono, com quem temos um passado que não podemos ignorar.

- Entretanto, continua com outros projectos televisivos...
- Estou muito contente com o trabalho variado que tenho vindo a desenvolver com e na RTP, onde me sinto sempre em casa.

- Podemos esperar para breve o regresso à representação?
- Gostava muito de voltar ao teatro, porque a última peça, Transacções, foi uma experiência muito feliz!

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