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Ana Mesquita: "Eu e o João somos dois bons jardineiros do nosso amor"

Espectadora atenta de tudo o que é moda desde muito cedo, Ana Mesquita tem um à-vontade perante uma máquina fotográfica que muitas modelos não se importariam de ter.

Andreia Guerreiro
16 de agosto de 2009, 15:51

Num corpo de estatura pequena e perfeito à sua escala cabe tudo o que é exigido a uma top model e muito mais. A imagem mignone é mais do que elegância, é a de uma mulher segura, que não precisa nem de elevar a voz nem da extravagância para se fazer notar. Ana Mesquita é mãe de Vicente, de nove anos, e tem dois irmãos, Ana Barros, decoradora, e Ricardo Barros, gráfico e pintor que trabalha na revista que ela dirige, a LA Mag. A jornalista optou pelo apelido do avô materno, Mesquita, por ter sido quem a sensibilizou para a comunicação. À avó materna, Alexandrina, "filha de judeus polacos a quem eu saio", enaltece a elegância, o espírito beneficente e a paixão pela cultura. "Foi das primeiras jornalistas com carteira profissional no nosso país", refere a jornalista, que há 42 anos nasceu em Macuba, local remoto em Moçambique. A mãe licenciou-se em Direito e o pai é empresário, "daqueles que acorda todos os dias com ideias. Acho que saio muito a ele". Ainda existe a avó Ausenda, segunda mulher do avô materno, cuja maneira de ser intensa Ana elogia. Intrépida por natureza, sofreu há quatro meses um acidente na neve quando experimentou, com o namorado, o músico João Gil, as maravilhas do snowboard. Valeu-lhe uma placa de platina na clavícula e um internamento no estrangeiro. Na forja está um talk show para televisão e um livro de ficção.

- A par da elegante, há uma outra Ana Mesquita?
Ana Mesquita - Há quem me conheça só em cima de um skate. Acho que a coquetterie da minha irmã puxou por mim. Isso, aliado ao meu prazer em ler revistas de moda que a minha mãe trazia de França, fez de mim um poço de contradições nesse aspecto. Gosto de actividade física, mas depois tenho o culto do detalhe.

- E é apaixonada por Paris...
- Sempre tive vontade de falar línguas mesmo não as sabendo. A minha mãe tinha uma paciência imensa para ouvir a melopeia das línguas que eu cantava. Pôs-me numa tutora de francês tinha eu oito ou nove anos. Aos 14 falava Francês e Inglês. Exactamente nessa altura a avó Ausenda enviuvou e lá fui eu com ela para Paris fazer de cicerone. Depois, aos 16, fui a Itália com um grupo de jovens da paróquia de Carcavelos que foi agradecer ao papa Karol Woytila a vinda dele cá. Era escuteira nessa altura.

- Aos 19 anos já sabia o que queria ser?
- Quis ser arquitecta até ao 12.º ano, mas fui fazer um ano sabático para Paris. Comecei por ficar em casa de uns amigos dos meus pais e, ao fim de uns tempos, já estava a viver com uma comunidade de amigos. [risos] Comecei a frequentar Belas-Artes, tipo 'penetra' consentida, e depois comecei a fazer traduções, fui fille au pair, cantei no metro [risos] e ia tendo dinheiro para viajar. Fui vendo muita cultura e descobrindo que era à moda que me queria ligar. Dei uma volta enorme para chegar àquilo que acabei por me tornar, e que é ser jornalista. De Paris fui para o Porto, onde fiz Design de Moda no Citex. Depois vim para Lisboa para me casar com o pai do Vicente, Vasco Vila de Freitas, com quem vivi 12 anos. Nessa altura ainda estava a desenhar coisas para grandes superfícies e fui ao Expresso para fotografar uma colecção. Disse ao Rui Ochôa que achava que a imprensa de moda era pouco interessante. Estavam a começar um novo suplemento e tive a oportunidade de começar, sem saber o que me estava a acontecer e sem nenhuma ambição de ser jornalista. Aquilo que me move ainda hoje no jornalismo é não só contar histórias, mas também transmitir conhecimento. Escrevi para o Expresso durante sete anos, ganhei um prémio de jornalismo de moda e fiz uma pós-graduação em Ciências da Comunicação.

Ana Mesquita
Ana Mesquita
João Lima
- Aos 40 anos refez a vida, encontrou um novo amor e continua com ar de menina. De tudo isto, o que foi o melhor de concretizar?

-
Isso tudo. É estar viva e gozar bem isso, faça sol ou chuva. É gostar de me rir com os outros e aprender a rir de mim. Acalentar ambições sem correr demasiado atrás delas. Fazer os possíveis por ser cada vez mais autêntica e preocupar-me o menos possível com coisas de nada. Saber levantar-me dos tropeções como este que dei na neve há quatro meses e dos outros tropeções que nos acontecem para nos porem à prova. Tenho uma família linda, avó, pais, irmãos, cunhados e sobrinhos saudáveis, gente talentosa e bem formada. Tenho um ex-marido meu amigo e um homem na minha vida que amo de paixão. E tenho um filho que está a retribuir tudo o que lhe temos dado e semeado. Começa a demonstrar a pessoa que se desenha nele e que vai ser grande, no que quer que escolha fazer. Só lhe peço que procure a excelência.


- Qual a sua maior obra?

-
Tudo o que fiz até hoje foi como se fosse a minha melhor obra. Não é avidez, é paixão. Nasci em África, sob o signo do ardor. [risos] Mas acho que o meu filho é uma bela obra. [risos] Sou de uma tenacidade férrea. Por qualquer motivo, que talvez se deva à minha educação, sempre soube bem o que queria e o que não queria. O meu telefone sempre tocou com convites para bons projectos. Mas trabalho muito para que ele toque! E sei que nunca teria feito obra nenhuma, boa ou má, sem amigos. Adoro pessoas e sinto que sei lidar bem com a matéria humana. Deve ser por isso que me vejo jornalista ou comunicadora para sempre.


- É uma mulher segura?

-
Tenho as minhas fraquezas e fragilidades e também preciso de um ombro de vez em quando, mas sou muito independente. Gosto de não depender de ninguém.


- Como é a sua relação com o João?

-
Somos dois bons jardineiros [risos] do nosso amor. O João não é só bom na música, também cozinha lindamente. E eu providencio para que não falte nada ao cozinheiro, ajudo-o e faço bons doces. Namoramos há três anos, ainda a procissão vai no adro. Ainda temos muita coisa para fazer. A avidez de viver mata relações. Sei que já fiz bastantes coisas, mas ainda há tanto por fazer... e no amor também. É uma descoberta um do outro. Acho que as boas relações vivem de duas pessoas que cultivam algum mistério com muita abertura. É preciso acompanharmo-nos, e nós fazemos isso um com o outro. Sei que o João tem uma série de características que me preenchem muito. Nós gostamos das pessoas quando os defeitos delas não nos incomodam e quando as qualidades se sobrepõem a todos esses defeitos, e é esse o caso. Foi um belo encontro, desafiante, mas muito maduro também, que ele proporcionou.


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