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Margarida Marinho: "Ser mãe é o meu maior orgulho pessoal"

Aos 46 anos, a actriz encara a idade sem dramas e antes como a soma dos conhecimentos adquiridos. Algo que deseja passar aos filhos, Manuel e Carlota.

Melissa Tavanez
5 de agosto de 2009, 11:57

Penúltima de seis filhos, Margarida Marinho cresceu num ambiente feliz mas disciplinado pelo olhar arguto dos quatro irmãos rapazes e dos pais e espera proporcionar aos filhos, Manuel, de 16 anos, do seu relacionamento com o realizador João Canijo, Afonso, de 12, filho do marido, Ricardo Zúquete, e Carlota, de sete meses, filha dos dois, o ambiente de conhecimento que viveu com os pais. Actriz com mais do que provas dadas, quer no teatro, no cinema ou na televisão, Margarida, de 46 anos, assinou contrato para fazer a telenovela da TVI Fruto Proibido, no dia em que a entrevistámos no belíssimo cenário que Eduardo Cruzeiro criou para a peça do Teatro D. Maria II Agosto em Osage, entretanto cancelada devido a problemas de saúde de um dos actores. Este mês vamos ainda poder vê-la no filme 4 Copas, de Manuel Mozos.
A entrevista, que decorreu ao ritmo de uma conversa franca e aprazível, apresentou-nos Margarida Marinho nas suas várias versões: mulher, mãe, irmã, filha e, claro, actriz. Filha de uma professora primária, Margarida estudou em casa com a mãe e só na 4.ª classe começou a frequentar o ensino público, onde permaneceu até acabar o curso de Sociologia no ISCTE. Na mesma altura, fez a sua formação de actriz, no Instituto de Formação e Investigação e Criação Teatral, incentivada por Paulo Filipe Monteiro, seu professor de Teorias Sociológicas e fundador do Grupo de Teatro Íbis, onde trabalhou. "Fiz tudo o que havia para fazer, mas nada me foi facilitado", frisa.

- Começo por aquela que poderia ser a última pergunta: é uma mulher feliz?Margarida Marinho
-
Hum... A felicidade, a segunda grande questão do século XX - porque a primeira é a da sobrevivência -, ocupa o espaço mental de toda a gente porque estamos a viver momentos de grande depressão e de grande pressão. O escape? A felicidade, o sonho, a ilusão. É muito difícil conviver com estes grandes temas porque, quando era pequenina, ensinaram-me que deveríamos viver o dia-a-dia e olhar para as coisas pequeninas que são os nossos grandes momentos. Graças aos céus, há pessoas à minha volta que convivem com as coisas pequeninas e me dão a mão. Não acredito que alguém que viva momentos como o que estamos a viver não olhe para a vida e não perceba que há uma finitude cada vez mais próxima. É obrigatório ser feliz quando se partilham determinados bens, sejam eles dinheiro, saúde, família ou amor. Quem não for feliz com isso...[risos]-

A actriz
A actriz
João Lemos

Agora sim, faço aquela que podia ser a primeira questão: como foi enquanto criança e adolescente?
- Como penúltima de seis filhos, fui extremamente controlada e vigiada pelos meus irmãos rapazes, que me fizeram tudo o que lhes deu na real gana... e ainda fazem! Podia ser voyeur, mas não podia ter participação activa, porque eles sabiam exactamente as asneiras que o mundo masculino me oferecia. Os meus pais foram sempre pessoas muito ligadas à abertura do espírito, mais do que à abertura da porta. A minha infância foi muito lúdica e virada para o conhecimento. O meu pai pintava, a minha mãe pinta, escreve e canta.

- Mas quem acabou por saltar para a ribalta foi a Margarida!
- Sim, mas os meus irmãos são criativos. O António é promotor de música, o Pedro, o mais velho, fez crítica de jazz, o Francisco é arquitecto e pinta, o João esteve de alguma forma ligado ao desenho e a minha irmã é que é a generosa, é enfermeira.

- É daquelas pessoas que dizem que se voltassem atrás não mudariam nada?
- Mudaria muita coisa, já fiz muitas asneiras. Acho que teria pensado mais tempo nas coisas. Vivemos em agenda e acabamos por passar para os nossos assuntos mais profundos e importantes esse timing, que não é bom.

- De que é que se orgulha mais, profissional e pessoalmente?
- No primeiro caso, orgulho-me de ter cada vez mais capacidade para ser espectadora, para bater palmas e para estar cada vez mais disponível. A nível pessoal, o meu maior orgulho é ser mãe. Não mãe-coragem, mas sim mãe-doméstica. [risos]

Margarida Marinho
Margarida Marinho
João Lemos

- Há diferença entre ser mãe aos 30 ou aos 46 anos?
- Não há nenhuma. Todo e qualquer deslumbramento teve um momento, uma felicidade, uma descoberta. Não se tem um filho sozinha e sim com um pai com quem se partilha. Nós existimos em contracena e nem na maternidade sou solista. Esta bebé existe com os irmãos, que partilham comigo e com o pai esta experiência e são a minha família. A grande alteração é assistir à mudança maravilhosa de protegidos a protectores. Eu estava muito focada no nascimento desta prenda que a vida e que o meu marido me deram, a maior prenda de amor que ele alguma vez me poderia dar, e o bónus foi a relação com os irmãos.

- Quais as suas grandes preocupações no futuro das crianças?
- A educação neste país preocupa-me profundamente. Quando olhamos para um país onde a escola não chega, onde existe uma televisão, devemos preocupar-nos. Daí que haja da minha parte uma grande responsabilidade, quando estou a trabalhar em televisão, de oferecer tudo o que sei. Quando faço novelas, não estou a brincar, não estou lá só a ganhar dinheiro. Estou a ganhá-lo, mas a dar o meu melhor, e a minha convicção é que temos de dar o melhor seja em que suporte artístico for.

- Quais são as suas grandes motivações?
- Profissionalmente, a minha grande ambição é sempre trabalhar com as pessoas de quem eu gosto, mas são raras as pessoas que conseguem fazer isso.

- É uma personalidade sensível ou ancorada na terra?
- [risos] Pergunte ao meu marido... Sou sanguínea. Sinto muito as coisas, mas não é dramático.

- O que é que a faz perder a cabeça e o que é que a faz rir-se de felicidade?
- A deslealdade, seja em que mundo for. Depois, é o sentido de humor, que nem sempre está ligado à felicidade. O humor pode estar ligado a momentos muito dramáticos, mas que me salva, sem dúvida alguma.

- Hoje, quando olha para trás, tem a certeza de que escolheu a profissão certa?
- ... Creio que sim.

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