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Sofia Sá da Bandeira: "As pessoas devem separar-se com amor"

Mãe de dois filhos já adultos, aos 46 anos a actriz e escritora diz que não tem receio de mudar o rumo da sua vida se isso a encaminhar para um destino mais feliz. Na verdade, o que a assusta é a estagnação.

Melissa Tavanez
29 de julho de 2009, 11:15

Neta do musicólogo João de Freitas Branco e bisneta do compositor Luís de Freitas Branco, Sofia Sá da Bandeira, de 46 anos, sempre viveu rodeada de notas musicais e ainda estudou piano na Escola de Música do Conservatório Nacional, mas a representação sempre fez parte do seu imaginário e, por isso, acabou por falar mais alto. Passou por dois casamentos que terminaram em divórcio - o segundo com um colega de profissão, Nicolau Breyner -, e do primeiro teve dois filhos, Inês, de 26 anos, e José Maria, de 21.
Foi durante uma conversa sem subterfúgios que Sofia falou de sentimentos e afectos, que gosta de explorar e sem os quais se recusa a viver.

- Sempre quis ser actriz?
Sofia Sá da Bandeira - Não, [risos] queria ser veterinária, mas a representação sempre fez parte do meu imaginário.

- Foi uma decisão facilmente encarada pela sua família?
- Os meus pais eram muito novos e sempre me ensinaram que desde que a pessoa sinta amor por aquilo que faz, tudo é importante. Eles encararam a minha opção profissional como outra qualquer que poderia ter seguido.

- Esteve durante algum tempo afastada das novelas e mais ligada à escrita. Agora voltou à televisão...
- Entrei na Vila Faia, pois era um projecto que me interessava, por ter sido o remake da primeira novela portuguesa e ter de certo modo que ver com a nossa afectividade. Actualmente, estou em gravações para a nova novela da SIC, em que me entusiasmou o facto de poder fazer uma personagem que nada tem que ver comigo. É como se tivesse de desaparecer dentro daquela personagem.

- E onde fica a escrita?
- Estou com um projecto bastante interessante, mas do qual ainda não posso falar, pois envolve outras pessoas.

- O facto dos seus casamentos terem falhado, tornaram-na mais céptica em relação ao amor?
- Não. Vejo o amor no sentido lato e acredito profundamente nele nesse sentido, de uma relação com outro que não nós. As ligações e as separações podem fazer parte do nosso crescimento. Se bem que há muitas ligações e separações em que a pessoa pensa que está a mudar, mas o fantasma continua a ser o mesmo. Muda-se de pessoa, mas há uma repetição das mesmas coisas. Quando fazia as crónicas do Expresso, falava sobre isso, sobre a mediocridade das relações. As pessoas vão de inferno em inferno e, no fundo, têm uma certa ternura por essa forma de estar e assim caminham até à morte. Acho que é muito mais libertador e construtivo a pessoa ter a coragem de não ficar em situações de mediocridade afectiva.

A actriz
A actriz
Luís Coelho

- Nunca teve receio de arriscar, do desconhecido?
- Não, a vida é isso mesmo, é um risco. A vida é uma dinâmica para o desconhecido, e tudo o resto são tentativas de controlar essa própria dinâmica e até de nos iludirmos. A vida não é segurança, e não tenho medo de arriscar.

- Mas há quem prefira a segurança do que já conhece...
- Isso para mim é uma forma de morte. Claro que as rotinas são importantes para nos dar uma certa estruturação, mas acho que nos devemos interrogar e criar até ao fim uma relação de prazer com a vida. Acho que as pessoas devem separar-se com amor e até olho com ternura para as coisas que não deram certo.

- Consegue facilmente desligar-se de uma pessoa que a desiluda?
- Sou uma pessoa afectiva, mas o que vejo muito quando olho para trás - e falando em sentido amplo -, é que em situações em que é altura de partir não se deve sentir arrependimento, mas sim perceber que o que se deu foi o possível naquele momento.

- Tem facilidade em apaixonar-se?
- O que é apaixonar-se?! Acho que passa muito pela idealização de um outro. Encanto-me com as pessoas, mas sinto que não idealizo tanto as pessoas como fazia no passado, há uma outra maturidade.

- Encara bem a velhice?
- Completamente. As rugas são a nossa história. O envelhecer é também aprendermos a desencarnar deste mundo e encarar como uma dádiva. Por outro lado, tenho uma avó com 90 anos que trabalha 12 horas por dia, e isso também faz com que tenha um modelo que me faz não ter receios. Faz-me ter uma relação diferente com a idade. Não ligo muito à idade cronológica, mas sim à do espírito. Aliás, fiz anos há pouco tempo e pensei, "que privilégio". Interessam-me todas as fases da vida, aos 80, se cá estiver, estarei a recomeçar qualquer coisa.

- A sua filha Inês já saiu de casa. Foi uma fase difícil?
- Não, foi o começo de uma outra fase. A vida é um bolo e os filhos são uma fatia. Nós temos uma relação muito próxima na distância e entendemos que todo esse tipo de situações fazem parte da vida, e que se assim não fosse seria terrível.

- Que tipo de mãe é?
- Fui mãe bastante nova e crescemos juntos. Sou uma mãe próxima, temos uma relação divertida e íntima. Tenho um enorme respeito pelos meus filhos como seres humanos diferentes de mim e nunca impus nada, cada um tem a sua personalidade. Não vejo os filhos como um prolongamento narcísico meu, e acho isso assustador, quase como um filme de terror.

- Pela idade dos seus filhos, já poderia ser avó. Imagina-se nesse papel?
- Faz parte da dinâmica da vida, é algo natural.

- Fala abertamente da sua vida, dos seus filhos, mas não do lado amoroso...
- Tenho o máximo de cuidado em relação à minha vida privada e não gosto de falar sobre isso. Gosto de falar de projectos quando os acho interessantes.

- O que é que a faz feliz?
- Respirar, conversar, sentir empatia pelo outro. São momentos de intimidade excepcionais.

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