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Júlia Pinheiro: O retrato de uma mulher confiante

A propósito do seu primeiro romance, a apresentadora conversou sobre as diversas facetas do amor e de como as sente na sua própria vida

Andreia Guerreiro
17 de junho de 2009, 10:00
Júlia Pinheiro
não compõe uma personagem. No seu discurso há transparência e espontaneidade. Neste encontro, que decorreu nos jardins do York House Hotel, descobrimos que por detrás da 'apresentadora-furacão' há uma mulher apaixonada que sabe amar de forma desmesurada e para quem a família está sempre em primeiro lugar. Esta entrevista, planeada no seguimento da história que criou para o livro
Não Sei Nada Sobre o Amor
, acabou por ganhar outros contornos, mas foi precisamente o título do seu primeiro romance, que vai na sexta edição, que lhe deu o mote. Nesta conversa, a apresentadora de televisão, de 46 anos, fala do amor puro que vive há 25 anos com director de antenas da RTP,
Rui Pêgo
, do amor incondicional pelos filhos,
Rui
, de 20 anos, e as gémeas
Matilde
e
Carolina
, de 15, e de quem a ensinou a amar: os pais. Há referências à sua adolescência, à doença do pai e à forma como lida com o seu próprio corpo.


- Não acredito que não saiba mesmo nada sobre o amor...
Júlia -
Costumo dizer que apenas sei sobre os meus amores, sobre o amor dos outros sei pouco. Acho que cada história de amor transcende os próprios, cada história de amor é única, irrepetível, daí ser tão fascinante. Sendo a história mais velha do mundo, é sempre nova. Isto é o que sei sobre os amores dos outros, sobre os meus estou bem e recomendo-me. [risos]


- Parece viver um grande amor, mas, curiosamente, o seu livro retrata quatro mulheres que nada sabem da matéria...
-
Pois, é um livro sobre o desamor. Fala da dificuldade de o encontrar, entender, viver e, sobretudo, manifestar. É a história de gente que emocionalmente não foi preparada, que não foi ensinada a amar. Há duas vertentes do amor, o conjugal e romântico e o maternal, quer num contexto quer noutro os amores que as personagens vivem não são bem sucedidos...


- Ao contrário do seu amor com o Rui...
-
A nossa força é a capacidade de nos entendermos, de nos interessarmos mutuamente e de termos uma cumplicidade que transcende, muitas vezes, o facto de sermos homem e mulher na mesma relação. Digo muitas vezes que o Rui é meu marido, meu amante, meu namorado, minha amiga, minha irmã, ele é tudo, e acho que essa é a riqueza da nossa relação.


- Como constroem esse amor?
-
A responsabilidade é muito do Rui, que é mais trabalhador do que eu nesse sentido. Ele é um romântico, alguém que rompe a normalidade e faz com que as coisas pareçam mágicas. Eu não tenho nenhuma dessas capacidades, costumo dizer que ao lado dele sou um tijolo. [risos] Vá-se lá saber porquê, ele gosta de mim, eu dele, e o nosso casamento corre bem.


- Ainda é amor ou outros sentimentos falam agora mais alto?
-
O amor, no estádio em que estamos, transcende aquilo que é a dimensão do fascínio. Ultrapassa o amor romântico, o amor físico, sendo que temos uma óptima temperatura nessa matéria. [risos] É uma coisa de proximidade, de intimidade absoluta. Ao lado dele posso estar alegre, triste e até em silêncio. Pode não parecer, até porque as pessoas têm de mim apenas a imagem pública e profissional e acham que sou doida varrida, mas preciso muito de tranquilidade, de não ouvir barulho, de uma espécie de bloqueio absoluto da agitação, e ao lado do Rui consigo isso. Ele compreende e percebe qual a altura em que preciso desse silêncio. E, aliás, é mais falador do que eu...


- Mesmo não parecendo...
-
Pois, ele tem um ar sisudo, mas é muito divertido. Uma das coisas que nos dá muita força é que nos divertimos tremendamente ao lado um do outro. Não me divirto tanto ao lado de alguém como ao lado dele.


- São quase o casal perfeito...
-
Não, de todo. Somos um casal que resulta e, seguramente, se Deus nos der saúde, acabaremos ao lado um do outro.


- São um daqueles casos para quem o amor e uma cabana chegariam?
-
[risos] Se for uma cabana jeitosa. Hoje temos um certo desejo de estarmos sozinhos num sítio pequeno, que não dê muito trabalho.


- No livro diz que antigamente as mulheres não expressavam o seu amor. De que forma expressa o seu?
-
Verbalizo, digo muitas vezes às pessoas que gosto delas... Aos meus filhos di­go-lhes que os amo todos os dias, ao meu ma­rido, de três em três dias, porque às vezes não o vejo. [risos]


- Em algum momento do vosso casamento pensaram desistir?
-
Tivemos maus momentos, mas nunca desistiríamos.


- Como é que os vossos filhos olham para a vossa relação?
-
Com um tédio imenso. [risos] Julgo que sentem sobretudo uma grande segurança.


- Consegue descrever o amor que se sente por um filho?
-
É insano, estúpido, total, absoluto, incondicional, visceral, não tem tamanho. É tudo.


Júlia Pinheiro em produção para a CARAS
Júlia Pinheiro em produção para a CARAS
João Lemos
- Que tipo de relação mantém com eles?
-
O Rui é já muito adulto, elas, em muitas coisas, são ainda muito meninas da mamã e do papá, noutras já são muito adultas. É uma fase muito agradável quando não estão os três à bulha, pois ainda têm aquelas cenas de irmãos e uns ataques de adolescência pungente.


- Uma das suas filhas passou por alguns problemas de saúde. Como lidou com isso?
-
Em relação à saúde dos meus filhos e à vida deles, não faço comentários, eu é que sou a figura sobre quem as pessoas têm curiosidade. Sobre eles devo a reserva absoluta.


- A adolescência é uma fase complicada, com inseguranças, incertezas, descoberta... Como foi a sua?
-
Tive as crises de crescimento, existenciais, normais. Fui uma adolescente bem-disposta, com muitas amizades e sempre a fazer muitas coisas ao mesmo tempo e ainda namorava violentamente, portanto, não tinha tempo para chatear os meus pais, mas claro que houve momentos de confronto.


- Viveu algum grande amor não correspondido?
-
O meu grande, grande amor foi (e é), sem dúvida, o meu marido, foi uma coisa assolapadíssima, casei-me num estado catatónico de paixão e acho que ele também. Tive antes disso um namoro de alguns anos, típico de adolescência, que foi muito intenso num período e, depois, por alguma preguiça e inércia, porque dava imenso trabalho arranjar outro, foi-se arrastando mais no tempo do que deveria.


- Os seus pais eram permissivos?
-
A minha mãe não tanto, o meu pai era disciplinador, muito conservador. Um pai à antiga, tirano mesmo. Por exemplo, nunca tive autorização para sair à noite e mesmo aos 18 anos só saía até à meia-noite e com alguém de confiança, namorar só em casa, e quanto ao resto, não tomavam conhecimento. [risos]


- O seu pai tinha abertura para expressar o amor que sentia por si?
-
Sim, ele não é uma pessoa empedernida. É um homem doce, terno. Muita da cumplicidade entre mim e o meu pai é feita no humor. Somos ambos sarcásticos, cáusticos, de arrasar. A minha mãe diz que é um cansaço aturar-nos. [risos]


- Como reagiu quando soube que o seu pai tinha cancro?

- O prognóstico que tenho em relação à doença do meu pai é, não direi auspicioso, mas muito positivo. O meu pai tem uma doença oncológica que foi provocada, achamos nós, pelo vício de fumar durante décadas e ele deu-me o maior sinal de amor quando, diagnosticado o problema, lhe pedi para deixar de fumar. Achei que ele não conseguiria, mas fê-lo e, a partir desse momento, fiquei muito calma. Se foi capaz de chegar até aqui, a batalha que se segue não pode ser tão difícil quanto essa ruptura. Estou muito tranquila e ele está bem e animado.

- Tem medo da morte?
-
Hoje a maturidade e o desaparecimento de algumas pessoas próximas dão-me maior tranquilidade sobre isso. Lido com a morte com uma serenidade que não tinha há uns anos. É inevitável, faz parte da vida, é preciso ter uma espécie de reserva emocional para o dia em que nos deparamos com a morte de alguém querido. Só não conseguiria ter essa tranquilidade se acontecesse com algum dos meus filhos, porque a perda de um filho é uma coisa que nem quero verbalizar. No meu caso, por exemplo, gostaria de morrer a dormir, é uma coisa que gosto de fazer...

- Parece ser uma pessoa bem 'resolvida'. Lida bem com o seu corpo?
-
Só não lidei quando realmente engordei mais do que a imagem televisiva suportava. Se não fosse a televisão, não pense que ia pôr-me mais magra, embora, por uma questão de saúde, também fosse importante, porque a menopausa está próxima e nessa altura tudo o que está nas ancas sobe para a cintura, que eu prezo e quero manter, portanto, foi bom ter emagrecido, mas muito pressionada pelo que estava a ver na antena. Portanto, emagreci, mas um bocadinho sob protesto. [risos]

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