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Simone de Oliveira em produção para a CARAS

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Simone de Oliveira: "Tenho sido posta à prova durante toda a minha vida"

Redacção Caras
14 de abril de 2009, 00:00

É uma mulher de garra, de paixões assolapadas. Vive intensamente as alegrias, os sucessos, os problemas... enfim, a vida. São 71 anos de reconhecido talento para a música e para a representação, durante os quais também enfrentou muitas vicissitudes e contrariedades. A primeira foi aos 19 anos, quando percebeu que era vítima de violência doméstica. Por isso, ao fim de apenas três meses de casada, decidiu fugir de casa. Pouco depois entrou em depressão, da qual só conseguiu sair graças à música. Enfrentou duas vezes o drama do cancro da mama: o primeiro há 21 anos, o último há dois. Amarguras que nunca lhe conseguiram roubar a alegria de viver. "Adoro viver! Continuo a gostar de sair à noite, de guiar, de beber um copo", assegurou Simone de Oliveira nesta entrevista à CARAS. - Comemorou recentemente 50 anos de carreira, 71 de idade. Apesar de todas as contrariedades, o balanço de vida continua a ser positivo?Simone de Oliveira - Com certeza. Uma pessoa que chega a esta idade, que tem a sorte de ser entrevistada para a CARAS, é estar no pico do mundo! [risos] Têm sido 70 anos muito bons, misturados com alguns balanços de saúde menos positivos, mas, uma vez mais, ultrapassados. Estou convencida de que tenho uma 'estrelinha' que me tem apoiado. Não digo que seja Deus, porque não vou muito por aí... - Mas é católica?- Sim, mas não sou praticante. Sou baptizada, fiz a Comunhão Solene e o Crisma, e, infelizmente, casei-me pela Igreja. - Infelizmente porquê?- Porque mais tarde isso me impediu de muitas coisas, inclusivamente de baptizar os filhos que tive posteriormente, noutra relação. Tive de esperar dez anos para que eles não ficassem com o nome do meu primeiro marido. - Sente que tem sido constantemente posta à prova?- Sinto. Aliás, começou muito lá atrás... "Hoje fala-se muito de violência doméstica, mas há 50 anos toda a gente tinha vergonha de falar e medo de voltar para casa." - Com uma depressão aos 19 anos, por causa do seu primeiro casamento...- Sim, fui vítima de violência doméstica. Casei-me aos 19 anos, mas separei-me logo. Tive medo e fugi. Hoje fala-se muito de violência doméstica, mas há 50 anos toda a gente tinha vergonha de falar nisso e medo de voltar para casa. Mas eu tive a sorte de ter um pai e uma mãe brilhantes. - Há dois anos descobriu outro tumor maligno na mama, 20 anos depois de ter combatido o primeiro. Sentiu diferenças na forma como foi tratada?- Senti diferença no método e na forma de tratamento. Há 20 anos fiz 50 sessões de radioterapia e desta vez fiz mais 35. Agora entrei numa espécie de nave espacial, com raios laser e portas de aço, da outra vez entrei numa casinha, deitei-me numa marquesa com um aparelho muito grande por cima de mim, e a única coisa que ouvia era o bater do meu coração e o tiquetaque do relógio. A senhora que trabalhava naquele consultório disse-me que um dia havia de morrer de cancro, e morreu, porque a sala não tinha protecção nenhuma... Desta última vez fiz os tratamentos durante as gravações de uma telenovela, porque não me senti agoniada nem maldisposta. - Chorou nessa altura?- Não, desta vez não chorei. Da outra vez chorei duas vezes violentamente, uma delas agarrada às mãos do meu filho. Eu fujo à frente do medo! Nunca deixei de fazer os exames de seis em seis meses, mas a verdade é que das duas vezes fui eu quem se apercebeu de que algo estava errado, o que os médicos acabaram por confirmar. Tenho tido muita sorte... Desejava ardentemente que todas as mulheres que passam por isto tivessem sempre a sorte que eu tenho tido. Claro que cada tumor é um tumor, cada pessoa é uma pessoa, mas também acredito muito na força da nossa mente. "Fiz os tratamentos de radioterapia durante as gravações de uma telenovela, porque não me senti agoniada nem maldisposta." - Com uma vida tão rica, o que lhe falta ainda fazer?- Morrer... Tenho 71 anos, dois filhos, quatro netos, tenho os prémios todos deste país, as condecorações, continuo a ter a voz óptima, um cabelo maravilhoso... Um dia destes saio de casa, levo com um tijolo na cabeça, e acordo a cantar a Desfolhada para o São Pedro. O que me falta fazer? Já não vou ter uma casa com piscina, nem ganhar discos de platina ou tão-pouco cantar mais 50 anos e viver mais 70. - Continua a deixar o candeeiro da sua sala aceso, como passou a fazer desde que o seu marido, Varela Silva, morreu?- Sim, continua aceso nesta altura, mas um dia destes perco esse hábito. - Já tentou fazê-lo?- Já, mas depois chego à rua e acabo por voltar atrás para o acender. - Sente o peso da solidão?- Há ocasiões. Eu sou naturalmente uma pessoa solitária, embora tenha muitos amigos à minha volta. Vivo sozinha e às vezes não é muito confortável chegar às 11h da noite e pensar que me pode acontecer alguma coisa e não ter tempo de chegar à porta... "Não voltaria a viver na mesma casa com outro homem. Estou tão bem assim..." - Nunca ponderou voltar a partilhar a sua vida com alguém?- Tenho uma casa de duas assoalhadas. Se entrasse alguém por uma porta, eu teria de sair por outra! [risos] Não viveria jamais com ninguém. - Jamais?- Estou tão bem assim... Saio com quem quero, almoço e janto com quem quero... Vivi 33 anos com o Varela, 17 dos quais maritalmente... Não voltaria a viver dentro da mesma casa com outro homem. Tinha de ser alguém alto, bonito, com uma idade compatível com a minha, inteligente, rico, não chato, e viúvo ou divorciado, para poder estar comigo calmamente. Não dava muito jeito agora ter de andar a fugir de porta em porta... Já o fiz há muitos anos, não tenho vergonha nenhuma de o dizer. Mas com esta idade, ainda por cima com uma prótese da anca, tinha que andar de bengala rua acima rua abaixo, não dava jeito nenhum!

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