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Morreu Vítor Direito

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Morreu Vítor Direito

O fundador do 'Correio da Manhã' faleceu ontem

Redacção Caras
3 de abril de 2009, 00:00

Segundo o site do Correio da Manhã, o fundador do jornal morreu na passada quarta-feira, dia 1 de Abril, aos 78 anos. Vítor Direito estava internado há já algum tempo, na sequência de uma pneumonia. Antes de ter fundado e de ter sido o primeiro director do diário português, em 1979, o jornalista foi chefe de redacção do Diário de Lisboa e do República. Foi também responsável pela criação do jornal A Luta, do qual foi director-adjunto. O corpo do jornalista está em câmara ardente na Capela de Santo António, no Estoril, desde ontem ao final da tarde, e a missa realiza-se amanhã, por volta das 10h30, no mesmo local. O funeral terá lugar pelas 12h00, no cemitério de Rio de Mouro.

A jornalista Manuela Silva Reis recorda Vítor Direito
Não foi por acaso que Vítor Direito fundou o Correio da Manhã a 19 de Março, data em que se celebra o Dia do Pai. Nesse dia, e durante os 18 anos em que escrevi para aquele jornal, o director do 'CM' reunia a "família" em dia tradicionalmente comemorado... em família. Desde que soube da sua morte, a 2 de Abril, vítima de um internamento prolongado, depois de diagnosticada uma pneumonia, que tenho pensado na tal 'Família CM'. Era composta por todos, desde o senhor Martins, recepcionista profissionalíssimo que atendia a cada um de nós, passando pelas telefonistas, as melhores do Mundo, daquelas que esgravatavam uma morada ou número de telefone para ajudar o nosso trabalho, até ao Carlos Barbosa, hoje presidente do ACP, mas naquela altura o homem que formava com Vítor Direito a grande dupla ao leme dos destinos de um jornal que leva 30 de existência. Mas lembro todos os outros: Agostinho de Azevedo, Manuel Andrade Guerra e Belmiro Vieira, chefes de redacção que nos fizeram crescer. Nós próprios éramos notícia no nosso próprio jornal, porque Vítor Direito fazia questão de imortalizar os dias dos nossos casamentos e os nascimentos dos filhos. Para nós ele era 'o V.D.', o mesmo que de todos sabia os nomes e que a todos tratava por tu. Desde ontem que ando a recordar a sua figura: alto, sempre elegante, cigarro na mão -às vezes charuto - cabelo grisalho, é verdade, mas dono de uma jovialidade que lhe vinha da forma íntegra como recebia a vida. Entrava na redacção, passo lento, mão no bolso e dizia "olá menina". Tratava-nos assim, por meninos. E éramos todos, naquela altura, uns meninos cheios de sangue na guelra, com vontade de trabalhar, vestir a camisola e até protestar. Hoje, à luz do que se passa em todas as grandes empresas, interpreto os nossos protestos como pormenores sem importância alguma. Assinava o 'Bilhete-postal', pequena rubrica no canto superior direito da página 1. Ali dizia de sua justiça doesse à esquerda, à direita ou ao centro, porque não era homem de 'água na fervura' ou 'paninhos quentes'. Podíamos não concordar, mas era a sua opinião, que sempre assinava 'V.D'. Foi chefe de redacção de jornais dos quais não me lembro, como A República, por exemplo, mas sempre ouvi o seu nome ligado à existência de jornais que fizeram história - Diário de Lisboa, onde esteve levado pelo tio, o grande Norberto Lopes, República, A Luta - , como ele fez depois acontecer com o 'CM', um jornal independente, que apontou na direcção do Sul do país, já que o Norte era açambarcado pelo Jornal de Notícias. Uma visão que lhe deu a vitória. Nasceu em Vimioso, Bragança, a 23 de Novembro de 1931, fez o curso de Direito na Universidade de Lisboa e depois foi o que se sabe. Muitos de nós continuamos a encará-lo como "o mestre". Recrutou dos melhores jornalistas e isso agradecemos-lhe todos. Porque foi com esses, hoje pouco considerados e já desconhecidos, que aprendemos tudo o que havia a saber sobre o Jornalismo. Mestres que nos ensinaram e que nos deixaram crescer, como ele deixava. Se precisava de fazer um reparo, não o mandava fazer, ligava para os telefones pessoais e dizia o que tinha a dizer. Assumiu a direcção de um tablóide, popular, é certo, mas onde podíamos escrever sobre todos, desde o cantor mais popular ao cantor de ópera, do taxista ao presidente de Câmara, não esquecendo - outra aposta - as regiões mais recônditas do País. Delas falava-se. Das suas corporações de bombeiros ou dos espectáculos dos ranchos folclóricos... Naquele jornal pude, eu e muitos dos que ali ainda trabalham, dar nome e envolver-me em matérias que recordo com muita saudade. Verdadeiro trabalho em equipa, recompensado muitas vezes por saídas pós-laborais em conjunto, que tornavam coeso qualquer grupo. Podia dizer nomes, mas todos nós sabemos quem somos. Muitos, como eu, deixámos as saias - neste caso, do pai - na altura em que o 'CM' mudou de mãos, outros ficaram e tiveram de se moldar ao novo 'CM'- porque a Globalização assim o exige -, o mesmo que fez 30 anos no último dia 19 de Março. Vítor Direito ainda estava vivo... gostava de saber o que pensou ou recordou, se é que o fez. Espero que todos os que com ele trabalharam lembrem a quem lá está - nomeadamente o Luís Santana, que há 30 anos começou por ser um grande vendedor de publicidade e hoje é distinto administrador - que ele era um grande director humano e que jamais atropelava os direitos dos trabalhadores, pelo menos à luz do que se faz hoje em dia em todas as grandes empresas. Nunca gostou de ameaças de greves e de protestos, porque disso percebia ele, que bem teve de marcar posição nos tempos do Estado Novo e, depois, do PREC. Para lutar por algo, tinha de ser a dar tudo por tudo e com pés e cabeça. Nós éramos uns bebés e ele sabia disso. Era exigente e duro, sim! Mas atento e amigo! Fica a memória de um homem profissionalmente íntegro e que nunca disse que não a um pedido de ajuda de algum dos seus colaboradores. O 'CM' devia lembrá-lo mais. O jornal fez 30 anos à conta de um projecto inteligente que ele visionariamente fundou e cimentou. O corpo de Vítor Direito estará em câmara ardente a partir das 17h00 de hoje na Igreja de Santo António, nos Salesianos do Estoril, e o funeral realiza-se amanhã, depois de uma missa de corpo presente marcada para as 10h30. Sei que muitos estaremos com ele nesta hora e é bom recordarmos tudo o que através do seu jornal e da sua pessoa atingimos. Esta não podia ser uma notícia igual a tantas outras porque o conheci. A ele deixo o meu obrigada e o de muitos companheiros de "laudas", "linguados", telexes e "tituleiras".

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