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Maria da Luz Sequeira: "Nunca me senti discriminada por ser mulher"

Redacção Caras
3 de fevereiro de 2009, 00:00

Quem por ela passa, seja nos corredores da Assembleia da República, seja noutros locais conotados com a vida política - onde, enquanto membro da direcção da Plataforma Saúde em Diálogo, que defende, acima de tudo, a participação do doente no sistema de saúde português, se debate pelas necessidades dos doentes -, não imagina que por detrás desta mulher firme e determinada na luta pelos seus ideais está uma farmacêutica empenhada, que ainda hoje veste a bata na sua própria farmácia e não consegue recusar um medicamento a quem não pode pagá-lo. Maria da Luz Sequeira, farmacêutica de profissão e paixão, tem como um dos pontos altos da sua carreira o momento em que Jorge Sampaio, então Presidente da República, a distinguiu com a Ordem de Mérito e o título de Comendadora. O amor pela área profissional a que se dedicou é partilhado pela filha, Vera Costa Santos Toregão, que, aos 29 anos, é já o braço direito da mãe na farmácia. "Tenho muito orgulho na minha filha. Ela seguiu os meus passos e é hoje uma grande profissional." - A decisão de ser farmacêutica teve que ver com alguém da sua família?Maria da Luz Sequeira - Não tenho ninguém na família ligada a esta área. Foi uma decisão minha seguir este caminho. E fico feliz, porque hoje ainda trabalho como farmacêutica na minha farmácia. - Mas não quis ficar apenas atrás do balcão e actualmente tem um papel bastante interventivo na área da saúde em Portugal...- As coisas foram surgindo e, quando gostamos do que fazemos, tudo acontece com naturalidade. Hoje estou ligada à Associação Nacional de Farmácias, que representa a classe farmacêutica e proprietários de farmácias. E estou ligada à Plataforma Saúde em Diálogo, que junta associações de doentes, de promotores de saúde, de consumidores, com os farmacêuticos. "Até hoje sempre consegui defender os meus princípios (...) a sociedade está mais aberta ao papel interventivo da mulher." - É complicado, psicologicamente, estar sempre em contacto com pessoas que estão a sofrer, em especial quando se trata de doenças crónicas?- Sim. E isso acontece-nos muito, tanto na farmácia como neste campo mais associativo da plataforma, porque congregamos muitas entidades. Temos uma grande diversidade de associações de doentes com diferentes patologias, e com algumas é mesmo muito difícil lidar. E se estiverem ligadas a crianças, ainda é mais complicado. Mas depois sabe muito bem ajudar a pôr um sorriso na cara de uma criança. Psicologicamente, pode ser complicado, mas é muito gratificante, e isso supera tudo o que se possa sofrer. - Teve de se impor num meio mais político, habitualmente com maioria masculina...- Sim, a minha profissão é muito feminina, mas, curiosamente, nos órgãos da política associativa existem mais homens. Mas até hoje sempre consegui defender os meus princípios e nunca me senti discriminada por ser mulher. A sociedade de hoje está mais aberta ao papel interventivo da mulher. Temos mais peso actualmente, há 20 anos tudo era muito diferente. - É uma mulher optimista e muito determinada...- Tento ser, sobretudo naquilo em que acredito. - Uma farmácia acaba por ser, muitas vezes, um porto de abrigo para os doentes, que vêem no farmacêutico um amigo e confidente...- Quem tem necessidade apenas de uma palavra, por exemplo, tem esse acolhimento numa farmácia. Muita gente vem desabafar à farmácia. A porta está sempre aberta, não paga taxa moderadora para entrar e é sempre bem recebida. Constrói-se uma relação forte com as pessoas. Posso dizer-lhe que muitos dos meus amigos de hoje começaram como meus utentes. Isso dá-me algum alento, é muito gratificante. Até já fui aos casamentos dos filhos de muitos deles. [risos] "Quando se fazem as coisas com gosto, tudo se concilia. É evidente que temos de ter um forte apoio familiar, e eu tenho todo o apoio." - Essa ligação próxima com os utentes deve fazê-la sofrer quando eles sofrem...- O pior é quando as pessoas precisam mesmo dos medicamentos e não têm dinheiro para os pagar. Não consigo deixar que uma pessoa não leve os medicamentos por isso. E quase todas acabam por vir pagar mais tarde. - Como consegue conciliar todas as suas actividades com a vida pessoal e a família?- O dia tem 24 horas para todos, mas quando se fazem as coisas com gosto, tudo se concilia. É evidente que temos de ter um forte apoio familiar, e eu tenho todo o apoio da minha família, quase sempre. Como viu hoje, a minha filha odeia aparecer nas fotografias, mas hoje associou-se a mim neste trabalho, o que me deixou muito feliz. - Tem um grande orgulho na sua filha...- Tenho muito orgulho mesmo. Ela seguiu os meus passos e é uma grande profissional. - Deu-lhe alguns conselhos para vingar na profissão?- Dei-lhe muitos conselhos e espero que ela aproveite ao máximo os meus ensinamentos. Mas a sua opção profissional não teve a minha influência. Foi ela quem decidiu ser farmacêutica e eu fiquei feliz com isso. E gosta também muito do que faz, o que é importante. "Queremos atingir os objectivos daqueles que estão numa situação mais débil, que são os doentes." - E o seu marido...- Trabalha numa área completamente diferente, mas com duas farmacêuticas em casa só tinha que nos apoiar. Pelo menos nunca lhe faltam medicamentos! [risos] Mas é uma pessoa muito compreensiva, mesmo quando lhe dedico menos tempo que o desejado. - Quais os principais objectivos da Plataforma em Saúde, que promove e defende há alguns anos?- Queremos atingir os objectivos daqueles que estão numa situação mais débil, que são os doentes. Queremos fazer chegar aos governantes as necessidades sentidas pelos doentes. Em 2008 fizemos dez anos de existência, que foi uma data muito importante, e que comemorámos no dia 10 de Dezembro, que é o Dia Internacional dos Direitos Humanos. - E está ligada desde o início à plataforma?- Estou ligada a esta organização desde o primeiro minuto, e, ao comemorarmos dez anos, podemos afirmar que nessa altura pouco ou nada se falava dos doentes. Estava escrito que o doente estava no centro do sistema, mas na verdade não havia documento nenhum emanado do poder político em que os doentes tivessem voz activa. Podemos dizer que fizemos por ser ouvidos. "Muita gente vem desabafar à farmácia. A porta está sempre aberta e não paga taxa moderadora para entrar..." - E em 2008 expandiram o trabalho da plataforma para o Sul do País...- O ano passado assinámos um protocolo para abrirmos o primeiro espaço Saúde em Diálogo em Faro, para mostrarmos o nosso trabalho, mas também para acolhermos os doentes que vão ao hospital, fornecendo todas as informações. Tipo uma loja do cidadão do doente crónico. A escolha do Algarve prende-se com o facto da população ali triplicar no Verão e não existir muita informação. Mas queremos evoluir e expandir ainda mais o projecto já este ano.

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