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Baptista Bastos: "A minha mulher foi sempre a escora da minha vida"

Redacção Caras
22 de janeiro de 2009, 00:00

Armando Baptista-Bastos chegou sem o laço habitual. Agasalhado, como manda o Inverno, e pronto a falar da sua vida atravessada pela vida de muita gente. Conspirou com o Grupo da Seara Nova, esteve metido no Regime, foi despedido de jornais. Casou-se em 1965 com Isaura, mãe dos seus três filhos (Pedro, de 39 anos, Miguel, de 37, e Filipe, de 33), com quem ainda hoje dança um bocadinho lá por casa.Perdeu a mãe cedo, aos seis anos, e talvez por isso mesmo não esconda que as mulheres sempre tiveram um papel fundamental na sua vida. Vida essa que teve mais baixos do que altos, mas da qual diz gostar.Continua a deitar-se tarde para escrever. Colabora com o Jornal de Negócios, Diário de Notícias e para o Jornal do Fundão. "Este último é uma espécie de recurso dos escritores e jornalistas de esquerda (e não só) que caem em desgraça", explica. As Bicicletas em Setembro é o seu último livro, e na calha está a adaptação de O Cavalo a Tintada-China para cinema, pelo amigo Fernando Lopes. BB, como muitos o tratam, foi operado, no final do ano passado, a um aneurisma na aorta abdominal, mas não quis dar muita importância ao assunto. Aliás, ainda é uma experiência que quer escrever. "Ainda hoje gosto muito de mulheres." - Costuma dizer que não teve infância, que foi logo promovido a homem...Baptista Bastos - A cidade tomou conta de mim. Sou de Lisboa, já vivi noutros sítios, mas esta é a minha cidade. As ruas tomaram conta de mim. Fiquei sem mãe muito novo, aos seis anos, o meu pai era muito novo também, tinha 36 anos. Era tipógrafo, foi fundador do Diário Popular, Diário Ilustrado e trabalhou também n'O Século. Como trabalhava de noite, eu ia para as ruas, o que me permitiu que eu não tivesse medo. Só tenho medo da miséria, da fome, da intriga. Adoptei uma cultura de rua, de autodefesa. Eu era muito brigão. A sabedoria de rua diz: nunca se ameaça, dá-se. - Ter perdido a sua mãe cedo contribuiu para a tal paixão pelas mulheres?- Sim, mas só muito tarde percebi isso. A minha geração estudou o Freud. Fiz auto-análises e cheguei a essa conclusão. Mas as mulheres também tomaram conta de mim, as minhas tias, a minha avó e a minha mulher. Quando conheci a minha mulher, estava desempregado, tinha 26 anos, tinha sido corrido d'O Século por ter estado envolvido na Revolta da Sé. Foram momentos terríveis. - O grande amor é o que dura muitos e muitos anos?- Sim, continuo a estar apaixonado pela minha mulher e ela por mim. Conhecemo-nos desde 1960. É uma vida inteira. Cruzámo-nos num baile. Ia com o Artur Portela, filho, o Francisco Nicholson, um actor que já faleceu, chamado Alexandre Vieira, e é um baile que dura até hoje. "Agora reparei que os meus filhos têm uma grande vigilância sobre mim e sobre a mãe, e chega a ser comovente." - Ainda dançam?- Às vezes dançamos um bocadinho lá em casa. - E o que dançaram nesse baile de 1960?- Dançámos um bolero. Ela era uma rapariga deslumbrante e tem ainda muita força. Foi sempre a escora da minha vida. Entende que é uma vida de causas e de cuidados. Estava a falar com ela de umas patifarias que me fizeram recentemente e o meu filho dizia-me: os teus inimigos continuam os mesmos, só que os teus amigos multiplicaram-se. Os patrões não têm a capacidade de criar vedetas do jornalismo, e isso é o leitor que percebe. - Acha que foi e é uma vedeta do jornalismo?- Sim, sobretudo a partir do Diário Popular, com o Francisco Pinto Balsemão. Ele costumava dizer: "Entrámos no mesmo mês." E eu dizia: "Está bem.. o senhor como patrão e eu como assalariado." Mas uma das vezes em que fiquei sem trabalho, aos 55 anos, ele mandou-me uma carta a dizer que quando quisesse colaborar para falar com o director, e colaborei muito para o Expresso. - Foi no tempo do Diário Popular que passou a usar laço. Qual é o seu grande nó?- O nó mais difícil que eu terei é o de desfazer uma amizade e eu sou quase tirânico na exigência da amizade. Porque sou um tipo de lealdades. Sou muito bem formado moralmente e, às vezes, leio e oiço coisas que não devia ouvir nem ver, e isso irrita-me. A desonestidade intelectual é a pior das desonestidades. É medonho. - Os seus três filhos não quiseram seguir as pisadas do pai.- Não, e ainda bem. São terríveis. É uma tribo muito fechada. Adoramo-nos e envaidece-me que eles achem que sou um bom exemplo. Sempre lhes disse que a nossa vida é com trabalho, cultivando-nos e ajudando os outros. "Sou quase tirânico na exigência da amizade." - Quais são os vossos rituais de família?- São rituais da atenção uns com os outros. Falamos todos os dias uns com os outros. São os meus rapazes. Agora reparei que eles têm uma grande vigilância sobre mim e sobre a mãe, e chega a ser comovente. - A operação que fez mudou-o de alguma forma?- Fui operado a um aneurisma na aorta abdominal que é uma coisa que eu não sabia e era perigosíssima. Tive uma sintomatologia que não me assustou nem preocupou, mas assustou e preocupou a minha mulher. Fui internado, tratei das coisas e no dia 1 de Outubro trataram-me da saúde. É uma experiência que vou escrever. Tinha um aneurisma com 5cm de diâmetro. Três dias depois saí, comecei logo a andar, mas senti-me muito cansado, com uma indolência que não é habitual em mim. - Está ou não está nos seus livros?- Qualquer livro é uma autobiografia transposta. Não escrevo sobre coisas que não conheço e países de que não gosto. São como as mulheres. Têm que ter cheiro. E cada uma tem um cheiro especial. O cheiro das raparigas é uma coisa lindíssima. Ainda hoje gosto muito de mulheres. A mulher é talvez a única coisa que me faz acreditar na existência de Deus. Uma mulher a dançar é de uma beleza... A curva do seio de uma mulher é o mais difícil de desenhar, já dizia o Miguel Ângelo. E o homem não consegue atingir aquela perfeição.

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