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Francisco Pinto Balsemão escreve sobre o seu amigo Luiz Vasconcellos

Redacção Caras
20 de janeiro de 2009, 00:00

"Mais do que um amigo, Luiz Vasconcellos, para mim, era um irmão. O irmão que nunca tive porque sou filho único. Conhecemo-nos há muitos, muitos anos, mas foi sobretudo no princípio da década de 70 que construímos laços cada vez mais apertados de um são companheirismo, de mil cumplicidades e vivências, de um mundo de histórias muito nossas e de piadas privadas a que só nós achávamos graça. Laços de confiança pessoal, de segredos de vida, de compromissos de trabalho, que criaram uma relação de interdependência aberta que é a base das amizades verdadeiras e eternas. Luiz Vasconcellos esteve comigo desde os primeiríssimos tempos do Expresso, em 1972. Entendeu o projecto, apoiou-o, fortaleceu-o com o seu bom senso e o seu espírito prático. Compreendeu e aceitou que a última palavra me competia a mim. Mas, dito isto sem que nunca fosse preciso dizê-lo, jamais se colocou numa cómoda posição de subserviência. Actuou sempre de igual para igual, como sócio que era e como parceiro que não se coibia de discordar, de apresentar soluções alternativas, de travar os meus entusiasmos ou optimismos excessivos. Fê-lo com uma dignidade aristocrática, com uma frontalidade corajosa. Nunca teve medo de dizer o que pensava nem sacrificou as suas opiniões às conveniências. Poupou-me a muitas situações desagradáveis e complicadas, assumindo-as ele. Durante os difíceis três anos e meio em que ficou sozinho à frente do Expresso, porque eu estava no Governo, procurou não me envolver senão em casos extremos, porque sabia que eu queria manter o jornal independente; esses três anos e meio foram, para ele, os mais duros da sua vida profissional. Quando necessário, agiu com virulência, cortando a direito. Ganhou autoridade crescente dentro daquilo que, juntos, edificámos e que hoje se chama Grupo Impresa. Esteve em todas: na distribuidora VASP; no crescimento da área das revistas, primeiro com o "Blitz" e o "Autosport" e depois com a Abril e a Edipresse; na montagem da gráfica Imprejornal; nas empresas de vídeo; nos Jogos de Gestão e nas peregrinações mundiais com o Luís Alves Costa; na SIC, onde começámos apenas com 56% de 25% do capital; na SIC Notícias e nos outros canais temáticos; na SIC Internacional; nos investimentos da Impresa Digital; e em tantas e tantas outras iniciativas, algumas fora da área da comunicação social, como o ter sido membro da minha Direcção no Automóvel Club de Portugal (para ele, uma extensão da sua breve carreira como piloto de corridas). Teve sempre uma visão estratégica ampla e de enorme utilidade, sobretudo nas áreas financeira, comercial e de recursos humanos. Viajámos juntos pelo mundo inteiro, do Japão ao Chile, dos Estados Unidos à Turquia, do México à África do Sul. Vivemos peripécias e aventuras, nem todas de carácter estritamente profissional, que alimentaram o património comum da nossa amizade, da nossa irmandade. Para quem não o conhecesse bem, o Luiz poderia parecer uma pessoa pouco sensível, ríspida, por vezes de discurso cortante e demasiado sóbrio. Mas era um falso duro, tinha um coração de ouro, preocupava-se com os outros, chamava-me constantemente a atenção para os aspectos humanos de casos de pessoas que connosco trabalhavam, dava-me conselhos preciosos sobre como lidar com os meus filhos. E tinha um feitio muito fácil, sempre pronto a simplificar, a resolver problemas em vez de os complicar. Quando, há cerca de três anos, começou a falar-me em reformar-se, eu, egoisticamente, fui tentando adiar a questão. Não queria perder o contacto diário com ele, o diálogo permanente, a ajuda inestimável que me dava, a própria partilha de responsabilidades. Sabia também a falta que me iria fazer a camaradagem extra, trabalho dentro do trabalho, o valor incalculável que é rirmo-nos das mesmas coisas quando estamos juntos ou em gabinetes contíguos dez horas por dia. Acordámos, para 2006 e 2007, um regime bastante aliviado, de meio gás, em que ele se comprometia a participar em todas as reuniões importantes mas não se obrigava a ir ao escritório todos os dias, a trabalhar cinco dias por semana. Imediatamente, se auto-impôs uma limitação de salário - a seriedade total nos números, em todos os números, não apenas nas suas remunerações, era uma das suas grandes qualidades. E lá fomos funcionando no novo regime, com frequentes "infracções" minhas, através do telefone, a pedir-lhe conselhos, a desabafar ou apenas a insultá-lo amigavelmente por eu estar a trabalhar e ele não, ao que ele me respondia que era mais inteligente do que eu... O Luiz aproveitou os novos tempos livres para se dedicar mais ao Alentejo, à herdade familiar na Carregueira do Mato, à agricultura, à pecuária, ao regresso às suas origens de engenheiro agrónomo. E andava feliz com isso e com a mais recente reforma da Dores, sua mulher e companheira de todos os bons e maus momentos nos últimos catorze anos, que lhes dava mais disponibilidade para passar dias seguidos no campo. Em 2008, finalmente, entrou na reforma plena, mesmo assim aceitando permanecer como não executivo na vice-presidência da Impresa e da SIC. Aí foi interessante ver como veio ao de cima o que chamávamos o lado suíço do Luiz (a mãe dele era suíça e ele nasceu em Berna): conseguiu disciplinar-se no sentido de não telefonar todos os dias, de não aparecer, de não querer sequer receber em casa as audiências da SIC. Mas eu sabia, e comprovei-o mais de uma vez, que podia contar com ele, consultá-lo sobre os problemas mais graves. E ele, como sempre, nunca falhou quando foi preciso. Continuámos, além disso, a manter o convívio social e intenso de toda a vida: os almoços no Pabe, os jantares com as nossas mulheres, as idas a espectáculos, os fins-de-semana na Carregueira do Mato, as viagens, a consoada do Natal, as passagens de ano. E, claro, a jogar golfe, o desporto que praticámos juntos desde miúdos e que nos proporcionou grandes alegrias, como a vitória, com o José Manuel Durão e um profissional sueco, no Pro-Am do Open de Portugal. Jogar golfe, apostar nas nossas partidas, descobrir novos campos, ver golfe na televisão foi algo que sempre partilhámos. E ainda há um ano, em Janeiro de 2008, conseguimos para a Impresa um honroso 2º lugar num torneio nacional, tendo o Luiz obtido o melhor score da nossa equipa. Infelizmente, a reforma merecida e plena pouco durou. Em Maio foi descoberto e operado o sarcoma. Seguiram-se meses de tratamento em Nova Iorque. No princípio de Setembro, parecia tudo bem. O Luiz veio com a Dores, ao Algarve, passar os meus anos. E estava em óptima forma: banho na praia, almoço no Gigi, jantar no Amadeus. Quinze dias depois, começaram as complicações, as metástases, as doses brutais de quimioterapia, os internamentos no hospital, os regressos a casa com enfermagem permanente. Ele lutou sempre. Embora por vezes parecesse triste e desiludido e tenha efectuado uma reflexão natural sobre a vida e a morte, nunca me pareceu resignado. Pelo contrário. Queria acreditar que era possível vencer a doença. Nos últimos tempos, a partir do fim do ano, havia sinais de que esta etapa estava ganha: todos detectámos uma recuperação notável na movimentação física, no estado de espírito, na amplitude e profundidade dos assuntos que voltaram a interessá-lo. O Luiz estava animado, começou a sair, foi almoçar lampreia aos Arcos com a Dores, telefonou-me a combinar o jantar dos anos dele a 21 de Janeiro, vinha jantar a nossa casa no dia em que nos deixou. E, de repente, de um dia para o outro, de sexta para sábado, de um modo violento, inesperado, tudo mudou, tudo aconteceu, e o Luiz faleceu na noite de sábado. Morreu com a Dores e o filho, o Nuno, meu afilhado de casamento, as duas pessoas que mais o acompanharam na doença, um de cada lado. A filha, a Maria João, que vive em São Francisco, ainda lhe disse pelo telefone o que sentia. Ele adorava a Dores e os filhos, orgulhava-se deles, valorizou-os devidamente nestes meses derradeiros de doença, sofrimento e esperança. Faz-me muita falta o meu amigo Luiz, o meu irmão. Sem ele, o mundo, o meu mundo, fica ainda mais pequeno."

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