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Luísa Cálem: Elogio ao Douro no Chiado

Redacção Caras
20 de dezembro de 2008, 00:00

Um 'regresso' ao Douro foi o melhor dos pretextos para que Luísa Cálem nos abrisse as portas da sua casa no Chiado, em Lisboa. E para recordar memórias de outros tempos, enquanto preparava a mesa de Natal e dava uma sugestão para a ceia da noite de festa. Nesta casa, de onde se vê o Tejo e o Castelo de S. Jorge e se inspira o ar que chega do rio, Luísa fez uma simples, mas sentida, homenagem a outro rio, o Douro, através do "seu" vinho do Porto, que propôs acompanhar com um queijo, para lhe perfumar o paladar. "Não foi fácil descobrir vinhas em Lisboa para poder recolher algumas folhas para a decoração", explicou, com um sorriso, a decoradora, descendente de António Alves Cálem, fundador da Casa Cálem. "Na nossa família - e eu faço parte da quinta geração -, sempre se cultivou a arte de bem receber. Mas nessa altura era bem mais fácil improvisar um centro de mesa. Bastava ir à horta ou à vinha e estava o problema resolvido", lembrou. "Numa família em que sempre existiu o hábito de prolongadas conversas, a ceia de Natal era o auge dessa tradição." Aos 53 anos, assumidos sem complexos, Luísa Cálem faz da simpatia e da arte de conversar o melhor acompanhamento para um vintage, servido em cálices que são uma herança familiar. "Decidi-me por esta sugestão porque, infelizmente, em Lisboa ninguém bebe vinho do Porto. Nasci em 1955, ano que deu uma grande colheita [risos] e, por isso, optei por um Porto, devidamente acompanhado por um queijo Stilton, as passas de uva, as nozes e as amêndoas." Inglês, o Stilton é um dos chamados queijos azuis, de aroma frutado, e produzido a partir de leite de vaca, ideal para ser harmonizado com vinho do Porto. "Quando se aproximava a época de Natal, começávamos a receber dos nossos agentes em Inglaterra muitos Stilton. Como não existia muito o hábito de comer queijo, os Stilton arrastavam-se até à Primavera. Sendo um queijo que dura bastante tempo, o segredo era esburacá-lo e deitar-lhe vinho do Porto, acabando por se comer praticamente em papa. Assim nasceu esta íntima ligação entre os dois produtos, sempre com a obrigação - manda a tradição - do vinho do Porto ser servido pelo lado esquerdo", explica, de forma didáctica, Luísa Cálem. Nesta época de festa, a tradição obriga ainda a um aperitivo muito especial: "Para além da vinha, o Douro oferece bom azeite e muitas amêndoas. Quando chegava o Natal, as amêndoas eram descascadas e levavam-se ao forno com azeite e sal. Depois de torradas, podem ser servidas com um Porto tónico." "Como em Lisboa ninguém bebe vinho do Porto, decidi trazê-lo para esta mesa, devidamente acompanhado por um queijo Stilton." Os Cálem tinham ainda tradições influenciadas pelo facto de neles também correr sangue britânico. Assim, além do peru, que podia ser acompanhado com diversos molhos tipicamente ingleses, o pan pudding era também obrigatório. "Numa família em que sempre existiu o hábito de prolongadas conversas, a ceia de Natal era o auge dessa tradição, porque se juntavam mais de trinta pessoas à mesa e ali se ficava a apreciar o vinho do Porto e a filosofar pela noite dentro", recorda a decoradora, que, no baú das memórias, vai ainda buscar o aroma do chocolate quente e dos churros, em casa da avó, um momento mágico para as crianças, que ainda não podiam apreciar um bom Porto. "Sou a quinta de sete irmãos e isso fez com que vivesse o Natal de uma forma diferente. Ao contrário de hoje, não se falava em Pai Natal, mas sim em Menino Jesus. Ainda assim, fui rapidamente informada pelos meus irmãos sobre quem verdadeiramente nos trazia os presentes", [risos] recorda a decoradora, que se fixou há uma década em Lisboa.

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