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Ana Bacalhau, o marido e os primos dela dão corpo a Deolinda, banda que não é de fado, mas tem uma fadista a dar-lhe voz

Redacção Caras
3 de dezembro de 2008, 00:00

Começaram discretamente, sem promoção, e deixaram que o público passasse a palavra. E passou. Do pequeno palco do Maxime, por exemplo, à Aula Magna, que lotaram, passaram-se quase dois anos. Falamos dos Deolinda: três músicos e uma cantora criaram um universo musical que muitos dizem que é fado, mas não é só isso. É música popular portuguesa.A cantora, Ana Bacalhau, é casada com o contrabaixista, José Pedro Leitão, os dois guitarristas, Pedro Silva Martins e José Luís Martins, irmãos, são primos da cantora e, por afinidade, do contrabaixista. Baralhados? Afinal, trata-se muito simplesmente de uma família que se reuniu à conta dos dotes que cada um tinha para a música. Portugal trauteia Fon Fon Fon, mas há muito mais para conhecer. "Em casa, tenho a Ana a maior parte do tempo e Deolinda quando ensaiamos um bocadinho." (José Pedro Leitão) - Em casa, tem Ana ou Deolinda?José Pedro Leitão - Ana a maior parte do tempo, Deolinda quando ensaiamos um bocadinho. Trabalhar com ela é muito agradável, somos uma família.Ana Bacalhau - Temo-nos dado bem os dois. Desde que nos conhecemos, há sete anos, estivemos juntos noutros projectos e transitámos para os Deolinda juntos. - Já tinham tocado juntos?Pedro Silva Martins - Tanto eu como o meu irmão tínhamos um grande carinho pela música e a Ana também. Encontrávamo-nos de vez em quando para sabermos o que cada um estava a fazer. A Ana estava nos Lupanar e eu e o Luís noutro projecto, mas houve uma altura em que começámos a pensar que era giro aproveitar o facto de tocarmos guitarra, da Ana saber cantar e do Zé também tocar. "Encontrei o contrabaixista da minha vida e resolvemos dar esse passo [o casamento]." (Ana) - Esse carinho pela música veio por herança?- Sim, de forma amadora. Houve sempre música na família. Uma das recordações de infância que tenho é a da família reunida a tocar e a cantar. - Quais de vocês são formados em música?- O meu irmão e o Zé.José Pedro - Eu fiz o curso no Conservatório, estive no Hot Club e também frequentei o Técnico, onde fiz Engenharia Civil, e trabalho num gabinete de projectos. Ainda toquei jazz, e em orquestras clássicas, e nunca me tinha imaginado a tocar alguma coisa ligada ao fado, mas este projecto nasceu muito naturalmente e tem-me dado muito prazer. "Houve uma altura em que começámos a pensar que era giro aproveitar o facto de tocarmos guitarra, da Ana saber cantar e do Zé também tocar." (Pedro S. Martins) - Percebi que a Ana não tem formação musical e, depois do seu marido me ter dito que é engenheiro, imagino que me vá dizer que tem formação numa área completamente inesperada...Ana - Nem consegue adivinhar... Fiz o curso de Português/Inglês, tirei uma pós-graduação na área de arquivo e... sou arquivista no Ministério das Finanças. Depois de um dia a arquivar, tenho mesmo de cantar! - Também cantou no seu casamento?- Sim, cantei. Foi a nossa oferta para os convidados. - Era um sonho casar-se?- Quando era miúda, pensei no meu casamento como num conto de fadas, mas nunca foi uma coisa com que sonhasse muito. Aconteceu. Encontrei o contrabaixista da minha vida e resolvemos dar esse passo. "A personagem Deolinda é partilhada por todos, mas claro que, estando eu um bocadinho mais à frente, notam-me mais a mim." (Ana) - A música reforçou laços entre todos vocês?- Acho que sim. Lembro-me que, quando tinha 14 ou 15 anos, comecei a cantar por mero acaso. Queria era ser guitarrista, mas a verdade é que não tinha jeito nenhum. Comecei a acompanhar-me a cantar e descobri a minha voz. O Luís já era um senhor na guitarra e o Pedro também tocava, e eu ficava com imensa vergonha. Ao pé dos meus primos só cantava. Olhando para trás, acho que posso dizer que os nossos laços foram fortalecidos através da música, e agora muito mais. - Como definem a música que fazem?Pedro - Acho que fazemos sobretudo música popular portuguesa, com base naquilo que de mais português há, que é a música tradicional, o fado. Há uma conjugação de influências que resulta na Deolinda. "Sou arquivista no Ministério das Finanças. Depois de um dia a arquivar, tenho mesmo de cantar." (Ana) - Que é também uma espécie de personagem a que a Ana dá corpo...Ana - A personagem Deolinda é partilhada por todos, mas é claro que, estando eu um bocadinho mais à frente no palco, notam-me mais a mim. [risos] A Deolinda foi-se compondo à medida que o Pedro trazia as letras e as músicas. Percebemos que estava ali uma entidade artística e musical que precisava de um nome. Baptizámo-la Deolinda e depois o João Fazenda deu-lhe a cara que aparece no álbum. Olhando para ela, e lendo as letras do Pedro, mais não fiz do que tentar incorporar esse espírito que, se calhar, até fui buscar um bocadinho a mim. A Deolinda adora divertir-se, adora gatos, peixinhos e melros [em alusão ao tema Eu Tenho um Melro]. Eu tenho um gato, mas ainda não tenho um melro e, se calhar, é melhor não ter, porque poderia concorrer comigo. [risos]

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