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Paco Rabanne defende: "Não sou uma estrela, sou apenas um trabalhador"

Redacção Caras
13 de novembro de 2008, 00:00

Mal se entra no antigo angar, nos arredores de Paris, o preto domina. Ao centro do velho espaço há um enorme cofre. Lá dentro está o segredo mais bem guardado de Paco Rabanne: o novo perfume masculino, 1 Million. Dos cheiros à embalagem, que imita uma barra de ouro, tudo lembra sofisticação. Os detalhes foram pensados minuciosamente, nada foi entregue ao acaso. Aliás, o criador tem um conceito por detrás de tudo o que faz e com este perfume, que tem como base de criação o mundo das fantasias masculinas, não foi excepção.Depois de ter abandonado as passarelas em 1999, Paco Rabanne dedica-se agora a outros desafios. Durante toda a vida, os desenhos foram a sua paixão. Agora, o criador viaja pelo mundo com as exposições, que são uma forma de não deixar esmorecer a sua criatividade. Vê-se a si próprio como um 'alquimista', para quem a criação continua a ser a sua essência. Se na década de 60 ficou conhecido como o enfant terrible da moda francesa, com os seus fatos metálicos e a irreverência que pautava todas as suas criações, o avançar dos anos não o impediu de continuar a ser polémico. Sem medo de mostrar as suas convicções, Paco Rabanne assume plenamente o seu lado místico e foi sem receio que previu a queda de uma estação russa em Paris. Se nesta previsão errou, a vida do criador está repleta de escolhas certas. A CARAS esteve em Paris com o estilista, onde falou, em exclusivo para a CARAS, sobre este novo desafio e a sua personalidade que pouco ou nada foi beliscada pela fama. "Sei que digo coisas diferentes do resto das pessoas, mas vêm-me do coração e, por isso, não as evito." - A sua fragrância é baseada nas fantasias masculinas. Em quais é que pensou concretamente?Paco Rabanne - Penso que estão muito adequadas ao tempo em que vivemos. Já é impossível fugirmos ao mundo de globalização, com grandes dificuldades sociais e económicas. E, para mim, este perfume corresponde a este momento tão particular pelo qual passamos. Todos têm medo do futuro e esta imagem do ouro corresponde à segurança que procuram. O meu trabalho foi como o de um alquimista, em que se tenta chegar à perfeição de se criar o ouro. Temos a parte material do ouro e o outro lado, mais místico. Este perfume simboliza o princípio de tudo em Paco Rabanne. Um milhão de possibilidades que cada pessoa pode ter no seu futuro. Contudo, é também uma fragrância que simboliza a minha necessidade de viver a magia do momento presente. - Encara este perfume como um novo começo?- Não. Toda a minha criação é um desafio. E sinto exactamente o mesmo que sentia quando comecei a minha carreira. Gosto muito de criar perfumes. Na moda, os cinco sentidos são utilizados e, portanto, o cheiro é essencial. Tudo representa o início de qualquer coisa, só não sei o quê. Não sou profeta. "O trabalho mais importante da vida é aquele que fazemos connosco próprios, na nossa personalidade." - Já se afastou das passarelas há algum tempo. Tem saudades?- Não sinto saudades de nada, porque continuo a trabalhar imenso. Desenho, pinto, tenho exposições pelo mundo inteiro... Estou sempre a trabalhar, e é assim que gosto de estar. Estou sempre atarefado. - Continuar a trabalhar, estar ocupado, é uma necessidade?- É obrigatório. Não posso morrer intelectualmente. Estou sempre ansioso por coisas novas, é um desejo constante que já faz parte de mim. É mesmo uma necessidade. Não me conheço de outra forma. - Acha que ainda mantém a mesma irreverência e criatividade que o tornaram conhecido nos anos 60?- Isso não sei. Só os outros é que podem dizer isso. Apenas sei que trabalho muito e com o mesmo entusiasmo. Mas não sou eu que julgo o meu trabalho, são sempre os outros. "Sou uma pessoa como todas as outras, sem mais nem menos importância." - Assume muito o seu lado místico. Como é que começou a interessar-se por estas questões?- A minha avó era shaman (feiticeira) e sempre falou sobre isso. Ensinou-me a ter uma visão dupla sobre as coisas. Há o lado pragmático, mas coloco sempre a questão do que está por detrás disso. E nunca me esqueço de que somos estes dois lados que andam de mãos dadas. O que procuro, essencialmente, é o equilíbrio entre estas duas realidades. - Mas em algum momento sentiu medo de ser criticado por mostrar este lado?- Não. Eu sou como sou. E eu respeito os outros como espero ser respeitado. Sei que digo coisas diferentes do resto das pessoas, mas vêm-me do coração e, por isso, não as evito. Não tento convencer os outros a concordarem com aquilo que penso e acredito que ninguém o consegue. O importante é conseguirmos convencer-nos a nós mesmos. O trabalho mais importante da vida é aquele que fazemos connosco próprios, na nossa personalidade. Cada um tem as suas convicções, que devem ser respeitadas. - Se pudesse mudar alguma coisa na sua carreira, o que seria?~- Não mudava nada ou então alterava tudo. Sempre fiz as coisas de forma honesta, mas também cometi erros. Sou humano, não sou Deus. Mas tentei aprender com os erros e melhorar sempre. Deus criou-nos imperfeitos, por isso, a responsabilidade é dele. [risos] "Não posso morrer intelectualmente. Estou sempre ansioso por coisas novas. É um desejo constante." - O que é que ainda não fez e gostaria de fazer?- Os desafios nunca param. Trabalho, durmo, relaxo. Tenho uma vida banal, simples. Não sou uma estrela, apenas um trabalhador. Este ano é muito especial. Há 40 anos assinei o meu primeiro contrato para fazer perfumes, e já tenho 45 de moda. E tudo foi feito com muita harmonia. Quero continuar a fazer perfumes e a ter sempre novas ideias. - Diz que é um trabalhador, mas também não deixa de ser uma figura conhecida em todo o mundo...- Não entendo o significado de ser conhecido em todo o mundo. Isso é algo que sempre me passou ao lado, nem sequer dou importância. Sou uma pessoa como todas as outras, sem mais nem menos importância. Conhecido também pelo seu lado místico, o estilista nunca teve medo de assumir as suas convicções e de dizer tudo aquilo que pensa.

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