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Ana Zanati confessa: "Preciso de algumas horas de silêncio diárias"

Redacção Caras
10 de setembro de 2008, 00:00

Não sabe uma única nota de música, mas o seu permanente desejo de fazer coisas novas levou Ana Zanatti a aceitar o convite para adaptar as letras do musical Cabaret. Uma experiência exigente, a que se dedicou de corpo e alma com muito prazer, mas também com a noção de ter pela frente uma grande responsabilidade. Aos 59 anos, e depois de ter escrito dois romances e terminado a trilogia infantil O Povo-Luz e os Homens-Sombra, a actriz, apresentadora e escritora já está envolvida num novo livro. Foi durante uma tarde passada em Cascais, junto ao mar - cuja presença considera quase vital -, que Ana conversou com a CARAS sobre esta nova fase, mas também sobre o desejo de fazer mais teatro e até experimentar a direcção e encenação. - Enquanto experiência literária, não se sentiu espartilhada com a adaptação do libreto de Cabaret? É que não pôde deixar a imaginação voar livremente, como faria num original...Ana Zanatti - Claro que tive um grande espartilho, porque para fazer a adaptação tive de respeitar em primeiro lugar o tema de cada cantiga, o perfil da personagem que a canta, a história que relata, a acentuação tónica das palavras portuguesas no mesmo ponto das inglesas e as rimas. Isto não permite a liberdade que tenho ao escrever uma letra original, mesmo que a música já exista. E senti uma grande responsabilidade, por se tratarem de temas muitíssimo conhecidos, com letras muito marcantes... Sabia desde início que corria um sério risco de destruir uma canção ou de a tornar ridícula apenas por uma palavra mal escolhida. A peça vive essencialmente das 18 canções, que são temas muito fortes, e uma má adaptação pode destruir um espectáculo deste tipo, por muito extraordinários que sejam os actores e tudo o resto. E, sem qualquer facciosismo, este espectáculo tem actores, bailarinos e músicos que merecem que eu dê o meu melhor. O Diogo [Infante] reuniu uma equipa fantástica. - Entretanto, está a gravar a série Liberdade 21. Fazer televisão dá-lhe prazer ou fá-lo sobretudo por questões monetárias?- Tenho uma pequeníssima participação na série e aceitei-a pelo prazer de trabalhar com a coordenadora deste projecto, a Patrícia Sequeira (com quem já tinha trabalhado anteriormente), e com a equipa dela. Gosto de trabalhar com pessoas que se empenham tanto na qualidade daquilo que fazem que não fazem batota. Não me sinto bem na pele de uma total mercenária, embora já tenha aceite trabalhos em que a parte material teve grande peso. Mas não os respeitei menos por isso. - É a escrever ou a representar que se sente mais realizada?- Adoro fazer as duas coisas. Ambas me pedem uma grande entrega, e eu não sou de me ficar pelas meias-tintas em nada do que faço. Confesso que a escrita me tem tomado mais tempo desde que lancei o primeiro romance, Os Sinais do Medo. Andei muitos anos a escrever para mim, mas, agora que comecei a publicar, ainda tenho muito para aprender e descobrir na escrita. Desde os 18 anos que levo uma vida de exposição e, por vezes, tenho uma necessidade enorme de me resguardar. Essas fases passam ao fim de um tempo, quando as campainhas começam todas a soar cá dentro mal entro num teatro ou num estúdio. - Quando escreve, tem por hábito isolar-se. No caso do libreto, o processo funcionou de igual forma?- Para fazer a adaptação de Cabaret, aproveitei uma estada no Brasil, num local longe do mundo, onde passo alguns meses por ano. Foi aí que fiz o trabalho todo. Acordava e deitava-me com as cantigas. Literalmente. Um trabalho obsessivo, mas fascinante. Sinto-me feliz a trabalhar com música, embora não saiba uma nota. - Sente que necessita da reserva e da solidão que a escrita lhe proporciona?- Imenso. Mesmo que não seja para escrever, preciso de algumas horas de silêncio por dia, passadas apenas comigo. Posso estar a ler, a escrever, a pensar, mas preciso dessas horas como de água. - É sabido que é muito auto-crítica. Essa maneira de ser tem-na prejudicado ou, pelo contrário, ajuda a que se empenhe cada vez mais no que faz?- Por um lado, obriga-me a dar sempre o melhor, por outro, às vezes tolhe-me, enche-me de medo de não conseguir ser tão boa naquilo que faço quanto gostaria, retira-me alguma confiança em mim. E isso, para quem vai entrar num palco, por exemplo, é terrível. Nesse aspecto, tem sido mesmo muito prejudicial, porque me tem impedido de fazer mais teatro, coisa que não me perdoo. E tenho tido propostas tão interessantes... - Em 2005, numa entrevista à CARAS, disse que lhe apetecia escrever. Isso mantém-se, ou há algo que a motive mais?- Continuo fixada na escrita, embora queira continuar a representar e tencione começar a dirigir e a encenar. - Olhando para trás, analisando o passado, mudaria algo na sua vida?- Claro. Se pudesse, faria tudo o que fiz, mas melhor.

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