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Susana Félix: "Vale a pena dar valor aos momentos bons de cada dia"

Redacção Caras
4 de junho de 2008, 00:00

Por muito que os pais de Susana Félix sonhassem com um futuro sem sobressaltos para a filha, de preferência à sombra de um curso superior, esse não era o sonho da miúda que reproduzia todas as canções que ouvia na televisão ou que imitava a mãe a cantar fado. Era nas artes que sabia sentir-se como peixe na água. Experimentou os movimentos artísticos sobre quatro rodas, a patinagem, e ganhou a Grande Noite do Fado aos 12 anos, sem ter sequer uma ínfima noção do futuro que estava a desenhar e que hoje já inclui as actividades de compositora, letrista e actriz. Ao contrário do que canta, Susana Félix, de 32 anos, não tem "mais olhos do que barriga". Antes os tem postos em cada dia da vida, porque "isto aqui é breve", justifica.Por trás da figura franzina, a cantora esconde uma enorme tenacidade para fazer o melhor que puder na vida pessoal e na carreira. Casada com Renato Júnior há quase um ano, embora já há vários partilhem a casa e a música, Susana Félix vive ao sabor da Pulsação, o novo disco que, não sendo de originais, podia sê-lo, já que os sucessos da carreira estão virados do avesso. A estes juntam-se dois originais, Bem na Minha Mão e Amanhecer. - Pulsação percorre já oito anos de carreira discográfica. É um disco de êxitos?- São canções que quis regravar para as transportar para o meu universo actual, para a música que faço agora. - Porque já não fazem sentido?- Não, não quis emendar nada, foi antes querer revivê-los. Tocava-os ao vivo com novos arranjos e apeteceu-me registá-los. Costumo dizer que é quase como aproveitar um dia de sol para abrir as janelas de casa, abrir os armários e encontrarmos coisas que não víamos há algum tempo. Este não é o best of da praxe, é muito mais do que isso, porque os temas ficaram todos diferentes, e isso pode tornar o disco interessante para quem já gostava dos temas e também para quem até agora ainda não lhes tinha dado atenção. - Acha, então, que Pulsação está a atingir um público diferente?- Acho que sim. Nota-se que o disco está a ser muito bem aceite por um público mais alternativo. Já o disco anterior tinha deixado alguma curiosidade numa faixa etária que ouve coisas mais alternativas. - Ainda se lembra da felicidade que sentiu quando saiu o seu primeiro disco?- O primeiro é sempre especial, mas eu nunca tive grande pressa para fazer o primeiro disco, talvez até por já trabalhar em música há mais tempo e ter tido oportunidade de fazer coisas que me ensinaram muito e que me deram imenso prazer. Nunca tive uma ansiedade especial para fazer o primeiro disco e assumi-o com muita responsabilidade. Acho que vivo agora melhor os meus discos do que vivi o primeiro. - Quais são as suas pulsações hoje em dia? O que é que a faz pulsar?- Aquilo que me faz pulsar é aquilo que me toca, aquilo que me emociona. - Consegue emocionar-se com a sua música?- O motor para a minha música são as emoções que fazem parte da vida de qualquer artista, e cada vez mais. Acho que este século vai ser um tempo de descoberta e de emoções. - Acha isso porquê? Acha que estamos com défice de emoções?- Não, acho que estamos em descoberta, porque temos outros objectivos de vida, temos outras preocupações e estamos a aprender a lidar com as emoções, que têm cada vez mais importância. Estivemos muito tempo sem grande vontade de pensar e estamos agora a ser obrigados a repensar a nossa forma de estar e de viver. - Trabalhar as emoções é um exercício que faz diariamente?- Não é uma coisa nova na minha vida, isso sempre aconteceu, talvez por isso tenha feito uma série de escolhas, algumas difíceis, um bocadinho à parte daquilo que é comum fazer-se. - Qual foi a escolha mais difícil?- Foi não ter continuado a estudar, não ter entrado para a faculdade. Era inevitável fazer aquilo que sempre quis fazer, que era a música, e tudo o que tinha que ver com arte. Racionalmente, teria sido mais certo, mais normal, ir para a faculdade, e fazer as coisas com que os meus pais sempre sonharam e que eu própria achava que iriam acontecer. Difícil também foi sair de casa muito cedo. - É certo dizer que por detrás do ar calmo e sereno há uma vontade indómita de arriscar?- Acho que sim. Gosto do novo e preciso disso. É uma necessidade que acaba por vezes por se sobrepor ao medo de que as coisas não corram bem, um medo que também tenho, mas que aprendi a suplantar. Por exemplo, com o tema Mais Olhos que Barriga, achei sempre que já tinha feito muito melhor e perguntava-me por que é que continuava a ouvi-la em todo o lado. E o que é certo é que a canção tem hoje mais significado para mim porque o tempo tem mesmo mais olhos que barriga e não vale a pena estarmos presos a receios que não valem nada. Porque isto é muito breve, como diz a música. - Essa é uma consciência que se vai adquirindo?- É. Aos 18 anos não temos medo de nada e temos de adquirir outra vez essa capacidade porque, depois de crescermos e de termos uma série de obrigações, não podemos ficar agarrados só a isso. Temos de continuar a pensar que podemos errar agora e que não faz mal. Este disco foi um bocado feito assim. O ano passado vivi uma série de desaires, um familiar próximo que adoeceu, e a minha manager, a Marta Ferreira, que morreu de um momento para o outro, de uma forma brutal, e eu pensei que não me podia fechar, por mais que me custasse emocionalmente, e que tinha de aprender alguma coisa com a situação. O que tirei de todas essas experiências foi que tinha de continuar e fazer o disco com a maior alegria do mundo. Foi isso que aconteceu. - O facto do Renato, o seu produtor de sempre, ser também o seu marido, prejudica o trabalho?- Não prejudica em nada. Se existe alguém de fora que pode trazer coisas boas ao trabalho é ele. É o Renato que consegue desbloquear qualquer problema que não consigo resolver. É uma peça fundamental no meu trabalho. Temos mais coisas para falar, mais ideias para discutir. Nós complementamo-nos. Ele é um excelente produtor, tem uma visão muito pragmática das coisas. Eu sou mais um trabalho no meio de muitas coisas que ele faz. - A música é o destino certo na sua vida. E o papel de actriz, onde fica?- Não sou actriz, sou alguém que tem muita lata para experimentar. Fiz muitas formações, mas nunca pensei ser actriz. Fiz pela experiência, mas a representação acabou por acontecer. Gosto mesmo muito de representar. Foram coisas que fui deixando em aberto para ver o que dava. É bom ter consciência que conseguimos fazer coisas que nunca pensámos fazer. Hoje tenho a certeza que não sou a cantora que sonhei ser, mas sou a letrista e a compositora que nunca sonhei vir a ser. - Já está recuperada do acidente de automóvel que sofreu e que atirou o seu carro para a sucata?- Ainda não estou completamente recuperada fisicamente. Estou é muito grata a Deus por não me ter acontecido nada de mais grave. A lição a tirar é que, de um momento para o outro, o que estava bem deixa de estar. Não vale a pena arranjarmos aborrecimentos com familiares ou por causa da falta de dinheiro porque nada disso tem importância. Vale a pena fazer o exercício de dar valor aos momentos bons de cada dia. - É pessoa para fazer grandes planos?- Sou pessoa de sonhar, mas não de grandes planos. Os planos nem sempre correm como queremos e depois temos de lidar com decepções e o sonho é mais construtivo. - Faz parte dos seus sonhos ser mãe?- Faz, mas, mais uma vez, não faço planos. De futuro não percebo nada. Não sei o que vou estar a fazer daqui a três anos. Não vivo obcecada por isso. O tempo o dirá.

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