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Gabriela Albuquerque revela: "Hoje ando a metade, a minha outra metade foi-se embora"

Foi ao lado de Ruy de Albuquerque que Gabriela viveu os 54 anos mais felizes da sua vida. Agora, sem ele, está a reaprender a viver

Redacção Caras
12 de março de 2008, 00:00

Sempre se considerou uma mulher feliz e satisfeita com o que a vida lhe tinha reservado, pelo menos assim foi até 20 de Janeiro de 2007. Foi nesse dia que perdeu o grande amor da sua vida, Ruy de Albuquerque, com 73 anos, professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. Gabriela de Albuquerque, de 71 anos, tem vivido o último ano da melhor forma que sabe, tentando que a saudade e a tristeza não sejam os sentimentos predominantes no seu dia-a-dia. Esteve casada 48 anos, depois de seis de namoro, e deste amor nasceram quatro filhos, hoje todos eles casados e com as suas próprias famílias formadas. O filho mais velho, Alexandre, de 47 anos, e a mulher, Vera Salgado, têm três filhos, Martim, Manuel e Constança, de 12, dez e nove anos, respectivamente. Isabel, de 46 anos, casou-se com João Mello e também tem três filhos: Diogo, de 26 anos, Joana, de 24, e Ana, de 21. Pedro e a mulher, Ana Botelho, são pais de Lourenço, de 15 anos, e Maria, de 12. O filho mais novo, André, de 34 anos, é pai de Matilde, de dez anos, e João, de cinco, fruto do seu casamento com Catarina Noronha.Foi na moradia onde viveu com Ruy de Albuquerque desde os seus trinta anos, e onde filhos cresceram, que Gabriela nos abriu o seu coração e recordou aqueles que considera os melhores anos da sua vida. E explicou como tem sido reaprender a viver depois da morte do marido: para se distrair, no último ano fez várias viagens e agora, para ter mais um elo de ligação aos netos, está a fazer um curso de informática, experiência que está a adorar.- Que recordações guarda da sua infância e adolescência?Gabriela de Albuquerque - Muito poucas. Essa época não me vem muito à memória, mas tive uma infância divertida. Tinha um avô que tinha uma quinta onde é agora Miratejo e ia para lá aos fins-de-semana, era muito divertido. Tenho dois irmãos e acho que não poderia ter tido uma infância melhor do que a que tive.- Por que será que se recorda tão pouco da sua infância?- Porque acho que houve coisas mais importantes na minha vida depois disso. Comecei a namorar com o meu marido aos 16 anos, e para mim não há factos assim tão importantes antes dele que justifiquem pensar neles.- Como é que se conheceram?- Conhecemo-nos há 54 anos, no Cinema Monumental, a ver a Serenata à Chuva. [risos]- Foi um namoro à antiga? O Ruy teve de pedir autorização aos seus pais para namorar consigo?- Não, mas nunca saíamos só os dois. Tinha de haver sempre um terceiro elemento. [risos]- Tem saudades dessa altura?- Imensas.- Namoraram seis anos e casou-se com 22 anos. Que memórias guarda desse dia?- Foi um dos momentos mais importantes da minha vida. Tudo o resto nasceu a seguir ao casamento. Casei-me numa quinta de uns tios em Runa e acho que foi uma festa muito bonita. Correu como eu idealizei... [levanta-se para mostrar as fotografias do casamento]- E que recordações guarda desses 48 anos de casamento?- Tenho óptimas recordações. Eu e o meu marido dávamo-nos muito bem, éramos muito amigos e ele tratava-me como uma princesa. Há tanta coisa... Foram tantos anos...- Tiveram quatro filhos e dez netos. Sempre quiseram uma família grande?- Eu gostaria de ter tido muito mais filhos e de cada vez que estava à espera de bebé rezava imenso para ter gémeos. Na verdade, não pude ter mais, porque nasceram todos de cesariana e o médico proibiu-me. Os meus dois primeiros filhos nasceram em dois anos e meio e o médico fartou-se de ralhar comigo por causa do pouco tempo de diferença entre eles.- Em que é que a vossa vida como casal mudou depois de terem sido pais? Ficou mais completa?- Sem dúvida. Hoje em dia as mulheres casam-se e não querem ter logo filhos, pois têm as suas carreiras e muitas outras coisas que querem fazer primeiro. Quando eu me casei, as coisas eram totalmente diferentes, normalmente as mulheres não trabalhavam e tinham imensas ajudas. A vida era mais fácil em muitos aspectos e acho que nunca fiquei muito sobrecarregada pelos filhos.- Perdeu o seu marido há um ano. Já aprendeu a contornar a dor?- É mesmo isso, contornar a dor... Consegui lutar bastante contra a tristeza em alguns aspectos, mas sinto uma saudade imensa! No dia seguinte ao funeral fui para a rua fazer a minha vida normal. Fiz um esforço tremendo, custou-me horrores, mas não fiquei em casa. Acordei, olhei para as paredes e pensei: "Que horror, como eu me sinto, não posso ficar aqui!" Arranjei-me com o maior dos esforços e saí. Como tenho feito até aqui. Nunca ninguém me viu chorar, aliás, só choro quando estou sozinha em casa, porque ninguém tem culpa do que me aconteceu. A minha vida antes dele não existe, quase não tenho recordações. A minha vida foi toda passada ao lado do meu marido, por isso é normal que tenha uma saudade muito grande... Mas as pessoas têm de andar para a frente.- Até porque tem os seus filhos e os seus netos...- Não é a mesma coisa. A pessoa vai encontrando memórias em todas as pequeninas coisas. Tenho imensa fé, e isso ajuda-me. Hoje não posso fazer nada pelo meu marido, mas como tenho fé, posso rezar, e neste momento é só isso que faço por ele. Mas posso fazer outra coisa... O meu marido sempre disse que morria primeiro que eu e pedia-me para depois eu levar a minha vida o mais normalmente possível. E eu tenho tentado cumprir. Tento arranjar-me e não estar triste quando estou com outras pessoas.- Também tem noção de que enquanto estiveram juntos fez tudo por ele e foram felizes...- Isso é verdade. E não poderíamos ter sido mais felizes. Mas é complicado, é mau demais. Dois meses antes, soube que ele ia morrer, embora ele não soubesse, e tive de assumir isso. Era um desgosto muito grande já nessa altura, mas nunca pensei que fosse tão mau. A pessoa só realiza depois de passar pelas coisas.- Parece ser uma mulher muito forte...- Se a forma como tenho agido é sinónimo disso, então sou-o. [risos] Tenho fraquezas, como toda a gente, mas tenho energia para andar para a frente.- Agora sente mais necessidade de ocupar o seu dia-a-dia?- O Ruy toda a vida trabalhou muito e não passávamos muitas horas juntos, por isso estava habituada a organizar o meu tempo. Nesse aspecto, não foi muito difícil, arranjo sempre coisas para fazer, mas obviamente chego ao fim do dia e não há ninguém com quem compartilhar as vivências, e é aí que me vou abaixo.- Tem tido apoio da família?- Sem dúvida, e dos meus amigos também, passam a vida a ligar-me e a convidar-me para programas. Disso não me posso queixar.- O seu marido contribuiu muito para a sociedade portuguesa com o seu trabalho. Tinha orgulho nele?- O mais possível. Ele escrevia muitos livros de Direito, e escrevia várias coisas ao mesmo tempo. Já depois de ele ter morrido, o meu cunhado fez a revisão das provas de um dos seus livros, que já saiu. Quando me deram o livro, escrito por ele e publicado depois de ter morrido, fez-me a maior das confusões.- A saudade que sente e o carinho com que o recorda são visíveis no seu olhar. Gosta de o recordar?- Claro que sim. O meu quarto, hoje em dia, parece uma loja de fotógrafos repleta das nossas fotografias, quando anteriormente nem sei se tinha uma...- Como gostaria que ele fosse recordado?- No fundo, por um conjunto de coisas. O Ruy foi um marido e pai fantásticos e um profissional muito bom.- Sente-se uma mulher privilegiada por ter tido a possibilidade de viver um grande amor?- Com certeza. Por isso e por muitas outras coisas. Fui realmente muito feliz, não podia querer mais. Vivi um grande amor, tive muita sorte em tudo. Os meus filhos são óptimos, nunca me deram problemas, e com os meus netos tem sido igual. Se me perguntar qual a coisa que me fez mal na vida, só posso responder a morte do meu marido, mais nada.- Continua a viver na mesma casa, apesar de ser enorme...- É verdade. O meu filho mais velho está sempre a perguntar-me porque é que não vou para um apartamento, e eu respondo-lhe sempre que não posso, pois era como se o Ruy morresse outra vez. Ele adorava esta casa e passava a vida em antiquários...- E foi aqui que passaram a maior parte da vossa vida...- Quando viemos para esta casa ainda não tínhamos 30 anos. Os meus filhos foram criados aqui, é aqui que estão todas as minhas memórias. E são tão boas que quero é estar próxima delas.- Há pessoas a quem as recordações aumentam o sofrimento...- A mim não, faz-me bem lembrar. E não gosto de chorar ao pé de outras pessoas, mas quando estou sozinha, não evito o choro, porque me faz bem.- De que forma mudou a sua vida neste último ano?- Mudou de uma forma estranhíssima, porque tenho procurado reagir e ocupar-me a fazer as mais diversificadas coisas. Por exemplo, defendi-me muito viajando. Quando o Ruy era vivo, não viajávamos muito, e muito menos para destinos longínquos, pois ele preferia a Europa. Agora, tenho aproveitado para visitar e rever locais mais distantes, como a Índia e Cuba, entre outros. Fiz oito ou nove viagens num ano, porque quando viajo estou ocupada de manhã à noite, no meio de pessoas e a ver coisas, e quando chega a noite estou tão cansada que caio na cama e durmo.- Ou seja, está a reaprender a viver conforme pode...- Exactamente. [suspiro] Agora vou parar, vou ficar por cá uns tempos. Apetece-me ficar cá e começar a receber amigos em casa. A vida tem de continuar, é preciso arranjar novos hábitos. Hoje ando a metade, a minha outra metade foi-se embora...- É isso que sente, que perdeu uma metade de si?- Completamente, mas a metade que ficou tem de andar, tem de ter coragem para andar para a frente, para continuar a vida. Foi na casa onde viveu com o marido durante mais de quarenta anos, e onde quer permanecer, para manter perto de si as lembranças dele, que Gabriela deu esta entrevista à CARAS. "Vão-se encontrando memórias em todas as pequeninas coisas." "Eu e o meu marido dávamo-nos muito bem, éramos muito amigos e ele tratava-me como uma princesa." Aos 71 anos, Gabriela de Albuquerque faz tudo o que pode para ocupar os seus dias. Depois de ter feito várias viagens, actualmente, para além da ginástica e dos almoços com as amigas, inscreveu-se num curso de informática, actividade que está a adorar. "As minhas recordações são todas de coisas passadas ao lado do meu marido, por isso é normal que tenha saudades.""Defendi-me muito viajando. Tenho procurado reagir e ocupar-me a fazer as mais diversificadas coisas."

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