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As confissões de Carla Bruni-Sarkozy

Redacção Caras
20 de fevereiro de 2008, 00:00

A guitarra sobre o canapé; atrás dela, um lume discreto na lareira; à volta do piano, microfones, fios, mesas de mistura. Na sua casa parisiense, Carla Bruni-Sarkozy dá os últimos retoques nas maquetas do disco que está a gravar. E recebe o L'Express para dar a sua primeira entrevista desde que é mulher do presidente da República francesa, Nicolas Sarkozy. Com meticulosidade, como se estivesse a aperfeiçoar uma canção, respondeu às nossas questões ao longo de várias sessões. Casada desde 2 de Fevereiro, Carla Bruni-Sarkozy conviverá a partir de agora com as honras, as dificuldades e os deveres de uma função singular na República. No fim de Março, realizará, no Reino Unido, a sua primeira viagem oficial ao lado do marido. Nesse país do qual fala fluentemente a língua graças à sua vivência de manequim e de cantora, estará completamente à vontade, apesar das exigências do protocolo real. Mas a mulher do presidente tem, acima de tudo, que convencer os franceses que é capaz de representar bem o país deles. Depois, terá de encontrar um lugar e um tom certos a nível interno. E se ainda não sabe a que questões se dedicará no Eliseu, pelo menos já encontrou um método e uma forma de estar. O método será baseado na escuta, a forma de estar na independência. Continuar a ser a mulher que é, livre e artística, e aprender a dominar uma função inédita e exigente: é esta a nova vida de Carla.- Ficou surpreendida com a vaga mediática que se seguiu ao anúncio da sua ligação amorosa com Nicolas Sarkozy, a meio de Dezembro de 2007?Carla Bruni-Sarkozy - Não fiquei surpreendida, fiquei submersa.- E, no entanto, a vida de manequim e, depois, de cantora, já a tinham habituado a isso...- Estava habituada a uma exposição mediá-tica considerável, mas isto foi incomparável. É todo um outro mundo, no qual entrei com tranquilidade, mas também inconscientemente.- E como é esse mundo?- É um mundo onde as coisas se repercutem enormemente, onde as palavras têm mais peso, um mundo onde as pessoas se ocupam de coisas essenciais: as que mudam a vida dos cidadãos, os seus direitos, as suas oportunidades, a sua liberdade. É um mundo de questões fundamentais para a existência das pessoas, enquanto a arte e a moda o são sobretudo para a alma, o coração, o prazer.- Mas não imaginava que a política fosse assim?- Imaginava, mas nunca tinha tido relação com esse mundo. A política suscita pulsões primitivas, enquanto a arte e a imagem suscitam pulsões mais subtis, mais refinadas, mais civilizadas.- Quando descobriu essa violência, teve vontade de fugir desse universo?- Não, porque estou apaixonada, assumo a situação e não posso mudá-la. Não quero lutar contra o mundo exterior, agarro-me é a uma intimidade reconfortante e maravilhosa, tão maravilhosa quanto o resto é, por vezes, cruel.- A imagem que provocou mais polémica foi a do seu filho, levado aos ombros pelo presidente, a esconder a cara, em Petra, na Jordânia. Cometeu um erro?- Sim. E passo a explicar. Vivo com um homem que ama o meu filho não sendo pai dele. Isso é uma bênção e todas as mulheres na mesma situação que eu o compreenderão. Em Petra, depois de 45 minutos de caminhada, eu não conseguia carregar mais o meu filho; Nicolas pô-lo aos ombros e eu apreciei esse gesto sem pensar nas consequências. Quando vi os fotógrafos que nos aguardavam, disse ao meu filho para esconder a cara, pois achei preferível que não fosse reconhecido nas fotos. O meu erro foi não reagir suficientemente depressa quando vi os 600 fotógrafos que ali se reuniram de repente. O meu maior erro, claro, foi ter levado o meu filho nessa visita a Petra. Isso originou uma imagem chocante, violenta, obscena, que me envergonhou enquanto mãe. Não foi um erro de Nicolas, foi meu.- Porquê um casamento tão discreto, quase secreto?- Porque tudo o que não é escondido é considerado uma encenação. Queria casar-me com o homem que amo no momento que escolhemos. Pouco importa o décor, foi um casamento genuíno. No dia seguinte, hesitámos em sair, por causa dos fotógrafos, mas estava um dia tão bonito... A minha viagem de núpcias foi um passeio de vinte minutos pelo Parque de Versalhes... Ainda assim, uma viagem de núpcias maravilhosa.- Os média roubaram-lhe o seu casamento, ao obrigá-la a essa discrição?- Os média não me roubaram nada. Muito nova, aprendi uma coisa: aquilo que é publicado e o que eu vivo são coisas distintas. O resultado de uma exposição mediática é sempre impreciso e frequentemente inexacto, mas isso não é grave. O que seria grave é que os média não fossem livres. No nosso país são-no, e ainda bem. Quando cheguei a Petra e dei de caras com os fotógrafos e os câmaras, compreendi que se os impedíssemos de trabalhar diriam que Nicolas se comportava como um ditador.- O presidente apresentou queixa em tribunal, por falsidade, do sítio de um semanário [Le Nouvel Observateur], na sequência da publicação on line de um alegado SMS [alusão à mensagem que Sarkozy teria enviado à ex-mulher, Cécilia, dizendo-lhe que se ela voltasse para ele cancelaria o casamento com Bruni]. É o princípio de uma atitude agressiva para com os média?- A queixa, justificada, do meu marido, não é contra um órgão da Imprensa, claro, mas contra os "novos meios de desinformação". A internet pode ser a pior e a melhor das coisas. Através do seu sítio na internet, o Le Nouvel Observateur entrou na imprensa do coração. Se esse tipo de sítios tivesse existido durante a II Guerra, como teriam sido as denúncias dos judeus?- A senhora, que nunca se tinha casado, parece não ter hesitado...- Não hesitei. Senti de imediato vontade de me casar com o Nicolas. Parece-me que junto dele nada de grave poderá acontecer. O Nicolas não está agarrado ao poder e é isso que o torna corajoso. Gosto de estar com ele acima de tudo. Junto do Nicolas libertei-me de uma inquietude que sentia desde a infância. Dizem-me que foi tudo muito rápido. É falso: as coisas entre mim e o Nicolas não foram rápidas, foram imediatas. Por isso, para nós, até foi tudo bastante lento. Sei bem que as pessoas não se devem casar precipitadamente e que, ainda por cima, nós estamos expostos aos olhos do mundo. Mas os apaixonados têm o seu tempo próprio. O nosso é um up-tempo. Culturalmente sou italiana e não gostaria de me divorciar... Sou, portanto, primeira-dama até ao fim do mandato do meu marido e sua mulher até à morte. Sei bem que a vida pode reservar-nos surpresas, mas é esse o meu desejo.- Qual será o seu estilo no Eliseu?- Estou a começar, ainda não planeei nada, mas não pretendo instalar nenhum estilo em particular. Sou trabalhadora, mas não sou muito corajosa. O Nicolas tem coragem pelos dois, é muito protector e paternal. Eu gosto de aventura. Ora, é uma grande aventura estar ao lado do homem que dirige a França. Seria uma pena não partilhar isso com ele. Quero, em primeiro lugar, ouvir o Nicolas, ouvir as pessoas, ouvir todos os que sabem, pois eu não sei nada. Gosto de perceber as coisas, gosto de descobrir esse mundo e observar o trabalho do meu marido. Gosto, também, de observar as reacções que as suas acções suscitam nas pessoas, bem como nos média. Gosto de estar atenta a tudo o que se passa, gosto de ler tudo o que se escreve, mesmo quando isso me magoa. Ainda não sei o que poderei fazer enquanto primeira-dama, mas sei como vou fazê-lo: com seriedade.- Mas tem um disco para acabar...- Sim, estou em pleno trabalho neste momento e estou muito envolvida neste projecto. Assumi o compromisso de o fazer.- Vai haver uma digressão?- Não havia propriamente uma digressão prevista, tal como não houve para os meus discos anteriores. Havia a possibilidade de alguns concertos em Paris. Isso agora parece me comprometido.- E quanto à promoção do disco?- Estou a concentrar-me para que este disco seja o melhor possível, é tudo o que posso fazer. Mas sei que ele será recebido em função das circunstâncias e do meu novo estatuto.- A sua vida privada não a impediu de escrever e compor como desejava?- Não, pelo contrário, galvanizou-me, sem dúvida, porque estou apaixonada. Isso dá um outro fervor e inspiração à minha escrita. Há algumas canções completamente espontâneas, outras mais trabalhadas. Quando estamos apaixonados, as canções são muitas vezes mais espontâneas, não forçosamente naquilo que dizem, mas pelo ardor que as inspira.- Este disco vai render-lhe dinheiro...- Não sei se este disco terá algum êxito, mas sei que não acumularei privilégios. Ser mulher do presidente é um enorme privilégio. A nossa vida é assegurada e toda a gente se ocupa de nós. Pertenço a uma família favorecida, exerci profissões privilegiadas, o meu primeiro disco foi um êxito inesperado. É normal que a minha editora discográfica, o meu agente e o meu produtor sejam pagos. Eu doarei a totalidade dos meus direitos. Não sei ainda a que causa, a dificuldade está na escolha, pois há sofrimento por todo o lado. Trabalho desde os 18 anos e gosto de ganhar a minha vida, mesmo se nunca precisei realmente de o fazer. Mas, como disse, não pretendo acumular privilégios.- Suspenderá a sua carreira de cantora depois deste disco?- Não deixarei de escrever e de compor canções, mas, até ao fim do mandato do meu marido, certamente não gravarei outros discos. Depois, logo se verá.- Pretende viver no Eliseu?- O apartamento do Eliseu é muito humano, muito acolhedor. O presidente gosta de estar em minha casa e eu gosto de estar no Eliseu, por isso, continuaremos a viver como até agora, umas vezes aqui, outras lá.- No Eliseu, sente o peso da instituição?- É um local mágico, situado num parque maravilhoso a poucos passos da Étoile, com uma imensidão de pessoas amáveis e profissionais que cuidam de nós. Se isso é o peso da instituição, não é muito insuportável... É um peso que aligeira a vida. Por vezes sinto até alguma culpabilidade, pois o Nicolas tem necessidade de estar rodeado dessas facilidades para trabalhar melhor, eu não.- Pelo seu casamento, vai tornar-se francesa...- Como a minha avó materna, nascida em Saint-Etienne. Mudo de passaporte, mas não de identidade. Acima de tudo, sou europeia e acredito na Europa. Nasci na região do Piemonte, venho do Norte, mesmo colado ao vosso Sul. Partilhamos as mesmas montanhas. A língua francesa é uma língua de poesia e música que eu acarinho desde a infância.- Há alguns políticos que admire?- Não conheço o suficiente sobre o assunto para poder dizer mais do que o óbvio: Charles de Gaulle, pela sua acção durante a Guerra, François Mitterrand, por ter abolido a pena de morte, Winston Churchill, pela sua coragem e o seu humor, Kennedy... O que me suscita admiração é o altruísmo dos homens públicos, por exemplo Nelson Mandela, a capacidade de se comprometerem pelos outros. E admiro Nicolas.- A sua primeira viagem oficial será a Londres?- Sem dúvida.- Vai encontrar-se com a rainha...- Extraordinário...- Tem medo do protocolo, das circunstâncias solenes?- Tenho sempre um pouco de medo das coisas que não conheço, mas sou curiosa. As novidades, com ou sem protocolo, fascinam-me, interessam-me as pessoas, as coisas por viver, gosto de acumular recordações, é assim que escrevo canções.- Ao longo da sua carreira exprimiu opiniões, nomeadamente sobre os testes de ADN aos imigrantes, que a classificaram como sendo de esquerda: vai mudar de opiniões para se colar às do seu marido?- Não mudei de opinião sobre os testes de ADN, mas o Nicolas ama a discussão e a contradição. Ele é o oposto de um homem obstinado. Não corresponde à imagem que eu tinha de um presidente da República, que imaginava como um pilar de certezas.- Não corresponde à imagem que tinha dele antes de o conhecer?- Não tinha propriamente uma imagem dele enquanto homem. Pressentia apenas a sua coragem e energia. Descobri a sua leveza de espírito, que talvez venha do facto dele estar seguro da sua identidade, dos seus valores. É por isso que consegue mudar de opinião. Quanto menos sabemos quem somos, mais somos dogmáticos e sectários. Não me teria casado com um homem que não me deixasse pensar livremente, falar livremente, ser quem sou. Ele não só me deixa ser livre como me encoraja a sê-lo. E mesmo sendo eu uma pessoa impulsiva, ele presta-me atenção. Como mulher, essa atenção foi uma das coisas que mais me seduziu nele. Porque, com o lugar que ocupa, podia não ser assim. É um homem tocante, que gosta de ir em frente, a vida junto dele tem sempre um sentido, e, sem dúvida, será ainda melhor depois de terminar o seu mandato. É um homem tolerante, capaz de perder, de se enganar e de o reconhecer.- Mas que gosta de ser provocador...- Sem dúvida. É certo que não é uma pessoa convencional.- A conjuntura económica e a perda de poder de compra tiveram um papel fundamental na queda de popularidade do presidente, mas os analistas dizem que a sua presença a seu lado também tem a sua dose de culpa, pois perturba uma parte da opinião pública. Que pensa disso?- Não acho que a felicidade de um homem o impeça de ser eficaz; espero fazer o Nicolas feliz. Penso que foi a exibição dessa felicidade que prejudicou a sua imagem de presidente. Juntos, nós demos - e lamento-o - a impressão de termos uma vida quase normal, com tempo para o lazer. Foram apenas algumas horas de pausa, mas que foram exibidas durante semanas e meses. As pessoas acham, e com razão, que o presidente deve estar ao serviço do país 24 horas sobre 24. Posso assegurar-lhe que é assim. Ele tem, no entanto, necessidade de um pouco, mesmo que minúsculo, de vida normal, como todos nós. O que é mais impressionante é o contraste entre o pouco tempo livre de que dispõe e a impressão escandalosa que isso provoca. E é por isso que os jornais "sérios" me confundem com a perda do poder de compra...- A sua personalidade, a sua notoriedade e o seu percurso não são irrelevantes e não podem deixar a opinião pública indiferente...- Compreendo que as pessoas se inquietem, sobretudo por causa dos retratos mirabolantes e por vezes terríveis que fizeram de mim. Mas quero tranquilizar os franceses. Tenho 40 anos, sou uma pessoa normal, séria, consciente, simples, mesmo sendo uma privilegiada. Sou honesta, sou mãe de um rapaz, escrevo canções e sou a mulher do presidente há duas semanas. Tornaria a viver tudo da mesma maneira, como diz a canção: "Je ne regrette rien". Gostei muito de ter sido manequim, adoro ser cantora, é uma profissão maravilhosa, uma carícia. Já o trabalho do meu marido é um murro. Tenho orgulho por sempre ter trabalhado, como estou orgulhosa por me ter casado com Nicolas. E, de igual modo, estou orgulhosa e feliz por ser primeira-dama de França. Farei o meu melhor.

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