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Decoração: De natureza genuína

No nosso passeio de verão pela Comporta encontrámos um exemplo de respeito e equilíbrio pelo meio natural. Duas cabanas reconstruídas decoradas por Marta Mantero resultam num projeto cem por cento ecológico.

Esmeralda Costa
2 de setembro de 2012, 20:00

Num dos nossos passeios de verão fomos visitar uma das regiões de férias, e não só, mais apetecíveis. Por estar integrada na Reserva Natural do Estuário do Sado, a Comporta é um autêntico paraíso natural banhado pelo rio Sado.
Nesta zona encantadora, além do mar nas imediações e de uma paisagem natural genuína, existem ainda extensos campos de cultivo, com tradição na produção de arroz, batata-doce e mais recentemente vinho. E foi aqui que visitámos duas cabanas reconstruídas, um exemplo de respeito pelas melhores diretrizes ambientais, projeto de arquitetura e decoração assinado por Marta Man­tero, decoradora e proprietária de diversas lojas.
Estas cabanas, assim designadas na região, têm uma área de 120m e respeitam na íntegra os métodos de construção tradicionais, uma é em colmo, a outra, em madeira. Nasceram literalmente a partir de ruínas e, tal como diz o velho ditado "quem vê caras não vê corações", apesar de parecerem iguais a tantas outras que proliferam na zona, no interior, estas cabanas têm as mesmas 'regalias' de uma casa. São construídas em palafita (habitações tradicionais assen­tes num conjunto de estacas em madeira) para precaver humidades, mas registam outras valências atuais, como o aquecimento central ou o pavimento em microcimento.
Marta Mantero, com a ajuda de Nuno Car­valho e o aval do proprietário, acompanhou a reconstrução desde o início até porque o cliente quando adquiriu o terreno (1.600m, incluindo as ruínas) já tinha o projeto aprovado, por isso, todo o processo foi aligeirado.
"Quando comecei a idealizar a obra, fui à arquitetura local beber inspiração. Tentei o mais possível manter o tipo de construção da zona, mas acabei por abrir rasgos maiores para as janelas, fiz também um pé-direito mais alto, dei um toque meu, aqui e ali, sem fugir muito das diretrizes tradicionais. Acima de tudo, não quis descaracterizar a região, como infelizmente se vai vendo em alguns casos, em que as cabanas são completamente em vidro, por exemplo. Dei um ar de contemporaneidade, mantendo o tipo de arquitetura tradicional", explica a profissional.
Um fio condutor que se estende à sala, onde salta à vista que muitos materiais nela utilizados são típicos da região. É o caso de uma das paredes daquele espaço, cujo acabamento é em reboco de barro. "Utilizámos o reboco de barro porque absorve a humidade e tem propriedades ambientais, a ideia inicial não era funcionar como acabamento, só que o cliente gostou muito de o ver a olho nu e assim ficou... Faz um contraste fantástico com as paredes revestidas a madeira e relembra um pouco o adobe, um outro material característico da Comporta. Pelas suas excelentes qualidades, também há reboco de barro nos quartos, mas como têm um outro acabamento, não está à vista como acontece na zona da sala de estar e no sótão".
As duas cabanas acabam por se complementar. A nível da tipologia, uma delas tem sala comum, com zona de estar e jantar, cozinha e casa de banho. Na área da cozinha e sala de jantar, aproveitou-se o sótão para mais um quarto. Na outra construção, foram feitos dois quartos de dimensões generosas e boas casas de banho, uma opção sugerida pela profissional e que muito agradou ao proprietário.
A filosofia destas duas habitações reside na ideia de que uma casa de férias tão confortável pode ser também usada durante o inverno, daí o facto de ser climatizada, isolada termicamente e ter vidros duplos. "Existe esta série de comodidades fundamentais porque não queria que fosse uma casa só de verão. Esta zona é bonita o ano inteiro, não é só durante a estação quente. A minha ideia foi tornar as cabanas confortáveis o ano todo, não gosto nada de situações sazonais", acrescenta Marta Mantero.
Ao nível da decoração, ninguém melhor que a decoradora e proprietária de três lojas de decoração (Almogador, em Cascais e Grândola, e Rice na Comporta) para finalizar o que até ali havia sido edificado. "De acordo com a orientação do proprietário, acabei por fazer todo o projeto, da arquitetura à decoração", esclarece a profissional.
Quase tudo é novo, pensado para aqui e na­da foi recuperado, "apesar de gostar muito de reenquadrar peças em novos projetos", salienta Marta, para acrescentar "estas casas são bonitas pela sua simplicidade, quanto menos se fizer e menos se colocar mais apelativas se tornam. Basta usar os materiais da zona, só esses detalhes falam por si. Mesmo o cimento, um material que se usava nos pavimentos, foi atualizado para microcimento na cor bege, não foge da tradição local e parece que traz a areia da rua para dentro de casa", explica a decoradora.
Se a decoração está em harmonia com a construção e a própria vivência na casa, é notória também uma grande preocupação ambiental. Entre outros melhoramentos, foi instalado um conjunto de painéis fotovoltaicos para aproveitamento da energia solar e criada uma mini estação de tratamento de águas residuais, Etar, que elimina a tradicional fossa, trata as águas e as reutiliza para a rega do jardim, da horta e do pomar.
"Construir uma casa o mais ecológica possível foi desde logo uma das premissas, o proprietário gostou e respeitou", conclui, orgulhosa, Marta Mantero. Digno de registo é o facto de se perceber que aqui tradição e modernidade podem partilhar projetos ao mesmo tempo que se mantém praticamente intacta a pureza de uma região.

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