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Decoração: Uma casa construída com gozo

No centro de Lisboa, uma casa centenária foi recuperada de acordo com exigências atuais, num encontro equilibrado entre tradição e modernidade. Um projeto pessoal muito ao gosto de quem nele vive.

Esmeralda Costa
14 de abril de 2012, 02:15

O desejo de criar o seu projeto a partir do zero, assumindo a responsabilidade de pensar em todos os pormenores, moveu o protagonista desta história a procurar nova morada numa outra zona da cidade de Lisboa. Há cerca de ano e meio deixou para trás um apartamento no Alto dos Moinhos, agora é um dos habituais transeuntes residente na área de Picoas.  
"Tinha um certo encanto por esta rua, apesar de ter procurado noutros locais, acabei por escolher este, gostei da zona e da luz!", começa por contar o enérgico proprietário. Nem mesmo o estado em que encontrou a casa o fez baixar os braços. Além de várias infiltrações com paredes amarelas e algumas situações críticas, o apartamento estava também muito dividido, com pequenos quartos interiores e portas mal colocadas. "Quando lá fui a primeira vez tinha uma luz espetacular na sala e uns tectos lin­díssimos. Olhei para o espaço e tive a noção do seu potencial, mentalmente visualizei o resultado em que aqueles interiores se podiam transformar", conta.
Com a cabeça a fervilhar de ideias, foi organizando e apontando prioridades até chegar ao que pretendia para este seu projeto pessoal. Para o edificar, não hesitou em procurar a ajuda de um profissional da área. E não foi difícil encontrá-lo, afinal, o arquiteto João Tiago Aguiar, responsável por esta remodelação, é casado com uma amiga de infância que ainda hoje pertence ao núcleo de amizades do proprietário.
"Deparei-me com uma casa em avançado estado de degradação, com quartos interiores e as divisões com os usos invertidos (quartos na fachada virada para a zona mais ruidosa), a sala na área mais recolhida, que dá para o jardim do saguão do quarteirão, um tranquilo espaço verde. Dado a configuração do apartamento ser mais ou menos quadrada, tinha uma área grande de espaços interiores, sem luz natural. Tentou-se, então, que a luminosidade entrasse o mais possível nesses espaços. Daí separámos as divisões interiores, abrimos uma para o closet da suíte e o espaço que era das máquinas foi transformado em casa de banho da suíte. A sala de jantar passou a estar ligada à de estar com a eliminação de uma parede. Além de ficarem estas duas divisões interligadas, a área das refeições passou a ter luz natural. No fundo, inverteram-se as funções da casa, criou-se a zona social junto à fachada principal, por ser a mais ruidosa, e levaram-se os quartos para a mais recatada do apartamento", explica o arquiteto responsável.
A par do exaustivo trabalho de restauro que esteve na base deste projeto, havia duas claras premissas por parte do proprietário, a existência de dois quartos, sendo um deles em suíte com closet, já o outro, inicialmente iria funcionar como escritório.
Os tectos trabalhados foram preservados e sujeitos a restauro, assim como as molduras de algumas paredes. "No fundo, tentámos manter os elementos de exceção, eliminando o supérfluo. Selecionou-se o que era bom, recuperável e identificador da idade da casa, daí as molduras das paredes terem ficado. Depois de pronto, o resultado pode ser definido pela mistura do clássico com o contemporâneo", define João Tiago Aguiar. 
Além da necessária recuperação, o profissional adaptou o espaço à nova vivência urbana, respondendo às necessidades do proprietário. É o caso da montagem de uma série de estantes, que além de apoiarem e decorarem a divisão social comum, são um apontamento contemporâneo.
A propósito, o proprietário acrescenta: "Este é um trabalho que tinha de ser levado a cabo por um bom arquiteto. O João conseguiu conjugar muito bem as duas traças e de forma equilibrada, épocas distintas coexistem muito bem  no mesmo espaço". Este ponto faz parte de conceitos básicos presentes nos projetos de recuperação do arquiteto João Tiago Aguiar, "enquadrar elementos claramente novos sem que entrem em conflito com os previamente existentes na casa. Conciliar o atual com o antigo, de maneira inteligente e harmoniosa, é uma preocupação que está inerente nas remodelações deste tipo, a maior parte apartamentos que têm mais de 100 anos", refere o arquiteto.
No espaço de seis meses e com as obras concluídas, chegava a segunda fase do projeto, a decoração. Aqui foi o proprietário quem tratou de tudo e sem a ajuda de terceiros. Como o próprio revela, "foi feita com peças de que gosto, sem qualquer tipo de projeto muito pensado. Da outra morada apenas trouxe peças pequenas porque vendi a casa mobilada. Quem a comprou, optou por fazer uma proposta que incluía a decoração. Confesso que quando se sai de casa e tendo a hipótese de poder investir, deu-me muito mais gozo mobilar do zero".
Do anterior apartamento vieram então candeeiros, jarras, e pouco mais. Este espólio de pequeno formato acabou por ser composto por fragmentos de memórias da história pessoal do proprietário.
Sem um plano minimamente delineado sobre como iria preparar a casa num total de 120m, o resultado foi ganhando vida através daquilo que o protagonista foi adquirindo aqui e ali, simplesmente porque gostava.

Por exigências pessoais, algum do mobiliário, como a cama, optou por mandar fazer à medida e segundo o seu próprio desenho.
Mesmo sem um plano estratégico definido de escolha e disposição do mobiliário e dos di­ferentes objetos, a casa foi ganhando consistência graças ao seu olhar visionário, a que juntou algumas peças com história. "No caso do escritório, decidi-me por peças de família que estavam guardadas, é o caso da secretária, de uma cadeira com braços e um cadeirão. Mas também encontrei algumas coisas na rua, que depois de resgatadas foram restauradas", revela o bem disposto e criativo proprietário. Os detalhes que faltam têm sido acrescentados aos poucos, durante este ano e meio em que tirou o máximo partido da morada que tanto gozo lhe tem dado construir a partir do zero.
"Hoje é uma casa muito vivida por mim e pe­los meus amigos. Gosto muito de cozinhar, adoro comer e dar jantares, gosto de receber. Por isso, sempre que posso tenho a casa cheia. Aliás, este ano obriguei a minha família a fazer o Natal cá em casa", acrescenta, bem humorado.
À primeira vista e pelo empenho e prazer com que se dedicou a edificar este terceiro andar, diríamos que este seria um apartamento para a vida, mas tudo se pode inverter, ainda mais quando o dono da casa é um homem dinâmico que preza a mudança: "Começou por ser uma casa para ficar, mas como tudo na vida é eféme­ro, valores mais altos podem surgir e de um momento para o outro, tudo muda", termina.

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