Nas Bancas

Decoração: Encontros na Baixa de Lisboa

Um palácio do século XVIII foi convertido num condomínio de topo. Exemplo de reabilitação, integra características pombalinas na arquitetura contemporânea.

Joana Pinheiro
30 de março de 2012, 12:59

Datado da segunda metade do século XVIII, o edifício, situado no bairro de Santa Catarina, na Baixa de Lisboa, apresentava características típicas da arquitetura pombalina. "Ao contrário do habitual, a opção foi trabalhar sobre o que existia e não destruir. Assim, mais do que apenas manter a fachada principal, manteve-se toda a estrutura original, que estava em bom estado de conservação. Pre­servaram-se ainda as paredes portantes, em al­venaria de cal e pedra, e o pé-direito alto", refere João Luís Carrilho da Graça, o conceituado arquiteto que assina o projeto.
As vigas, em madeira maciça pintada a branco, que percorrem os tectos da área de estar e do quarto principal, evocam e reinventam, de forma sofisticada, a estrutura original dos barrotes em madeira. "Respeitando a memória do edifício, o arquiteto Carrilho da Graça reinterpretou um sistema construtivo antigo, combinando-o com finas lâminas em betão armado. Esta solução, aliada à existência de janelas duplas, uma com vidro simples, outra com vidro duplo, permitiu adaptar o edifício aos exigentes requisitos, térmicos e acústicos, de conforto e de privacidade, dos nossos dias", explica a arquiteta e designer de interiores Lara Matos, proprietária de um dos 19 apartamentos do seleto condomínio.
"O modo como o arquiteto trabalhou os vãos exteriores é outro traço distintivo do projeto. Dotados de uma profundidade invulgar, contendo as portadas, têm uma moldura que aumenta a escala das janelas e lhes confere protagonismo e grandiosidade", realça a proprietária.
O encontro entre o passado e o presente, o antigo e o novo está patente também na escolha dos materiais, nomeadamente a madeira de riga, nos pavimentos das áreas sociais e dos quartos, e a pedra lioz, nas casas de banho e na cozinha. "A pedra típica da cidade de Lisboa, tradicional­mente aplicada em mosaico nos átrios dos edifícios públicos, foi usada de forma contemporânea, quer em peças de grande formato quer em blocos maciços", nota Lara Matos.
A casa configura-se em torno de um pátio interior, permitindo uma circulação de 360 graus. A partir da entrada acede-se à área social, passa-se depois pelo hall dos quartos e, abrindo uma porta de correr, entra-se na cozinha, que mantém uma comunicação com a entrada. "A sala de estar é um espaço de comunhão e, simultaneamente, de passagem. Gosto do modo como se relaciona com as outras divisões. Sendo um local de encontro, não é fechado, incentiva as pessoas a deambularem pelos espaços comuns. É, sem dúvida, o ex-líbris da casa", enfatiza a arquiteta.
Formada também em Design de Interiores, Lara Matos decorou sozinha a sua casa. Sem se preocupar em seguir um estilo, procurou o lugar certo para o mobiliário e a iluminação, as obras de arte, os objetos, os livros... "Todas as peças têm uma história, foram adquiridas ao longo do tempo e não para compor uma estante ou decorar uma mesa. São memórias do meu percurso", conta. Dominando o design contemporâneo, há peças de época compradas em antiquários.
Na área social, ícones do design, como a chaise-longue e o otomano da dupla norte-americana Charles e Ray Eames, as cadeiras do italiano Harry Bertoia e a mesa de apoio da irlandesa Eileen Gray, convivem com peças de design contemporâneo, como os sofás da Minotti e a mesa baixa da B&B Italia. A proprietária releva ainda a secretária antiga, semelhante à que usou na escola primária, e o trilho, utilizado para separar o trigo do joio, que adquiriu pelo seu carácter escultórico. "Tenho poucas peças antigas, mas isso tem que ver com uma questão de oportunida­de e não tanto de gosto. Atualmente gostava de incluir mais mobiliário e iluminação Art Déco. É um estilo que aprecio bastante".
O interesse de Lara Matos por arte contemporânea transparece na sua casa. Destaque para, na área de jantar, o quadro do norte-americano Barton Benes, com peças autênticas que pertenceram a artistas plásticos como Edvard Munch, Andy Warhol e Dorothea Tanning. No quarto principal, na zona de entrada e na cozinha sobressaem os quadros de Carlos Roque. O outro quarto reúne obras de Ana Vidigal, Miguel Abrantes, Isabel Faria e Fátima Mendonça.
A arquiteta mudou-se há oito meses, com o filho, Santiago, de cinco anos, e ainda está a descobrir os prazeres da nova vida. "O apartamento é fantástico e a localização dificilmente poderia ser melhor. Ficando muito perto do Chiado e do Bairro Alto, acaba por estar afastado da confusão. Adoro viver nesta zona da cidade, faço imensos programas com o meu filho e raramente usamos o carro. Passeamos imenso a pé, vamos jantar fora e quando queremos ir ao Jardim da Estrela ou ao Castelo apanhamos o elétrico. Além disso, Santa Catarina tem vida de bairro, mercearias, correios, bancos, livrarias antigas e, sobretudo, pessoas afáveis. Quando estávamos a fazer as mudanças, as vizinhas vieram à janela dar-nos as boas-vindas. É muito gratificante sentir que as pessoas que cá moram há décadas têm um carinho especial por quem escolhe viver aqui"

Comentários

ATENÇÃO: ESTE É UM ESPAÇO PÚBLICO E MODERADO. Não forneça os seus dados pessoais (como telefone ou morada) nem utilize linguagem imprópria.

Nas Bancas

Newsletters

Receba grátis no seu email as notícias, as últimas caras!

Caras Nas Redes

Mais na Caras