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Decoração: Entrevista com Andreas Enslin

Segundo o diretor de "design" da Míele, no futuro bastará colocar os alimentos sobre a placa de indução para ter a garantia da sua frescura e origem. Estas "superfícies ativas" foram apresentadas, em abril, na Eurocucina, em Milão.

CARAS Decoração
25 de junho de 2016, 17:00

Andreas Enslin formou-se em Design Industrial, pela Universidade de Munique de Ciências Aplicadas, em 1985. Dois anos antes de ter terminado o curso, já tinha fundado, com dois colegas, o ateliê Conceptform, direcionado para a indústria, e de que viria a ser o gestor. Entre 2001 e 2005, foi responsável pelo centro de design da Grohe, em Hemer. A partir daí, transitou para a Míele, liderando o centro de design. Tem 57 anos.
Depois da cozinha como espaço de trabalho, implantou-se a ideia de cozinha enquanto zona social. Qual será a próxima grande mudança?
A tendência da cozinha enquanto espaço social é relativamente recente. Tem seis, sete anos. Ao mesmo tempo, a esperança média de vida de uma cozinha é de 12, 12 anos e meio. Por vezes, a sociedade muda mais depressa do que a própria arqui­tetura, que acaba por ir atrás. Hoje em dia os dois conceitos coexistem e o de cozinha social ainda vai perdurar.
As casas, sobretudo nas cidades, são cada vez mais pequenas. As cozinhas são cada vez maiores...
Não é um contrassenso. A resposta é fácil. A sala de estar e a cozinha estão a fundir-se. As cozinhas ocupam o espaço antes só destinado à sala.
Entre a ideia para um produto até ao seu lançamento no mercado, quanto tempo demora, em média?
As circunstâncias podem ser as mais diversas. Se estivermos a falar de uma peça avulsa, pode ser um ano. Se estivermos a falar de uma nova geração de eletrodomésticos, ronda os seis anos. Tudo depende da complexidade.
A ausência de puxadores nos eletrodomésticos é predominante nos novos modelos apresentados na Eurocucina. Detalhes como esses?
A minha equipa já tinha tentado introduzir isso diversas vezes, mas o departamento de marketing recusou sempre. Não foi assim tão simples. Há questões técnicas, como a existência de três tipos diferentes de mecanismos de abertura, que levou o seu tempo. Um ano, pelo menos.
Qual foi a primeira reação do departamento de marketing?
"Ninguém precisa disso".
Por norma, o marketing adora criar falsas necessidades. Os designers também?
A Míele é uma empresa familiar, de capitais próprios. Não responde a acio­nistas e prefere não especular. Só se avança com certezas. A questão é que os designers têm de trabalhar e pensar para o que poderá vir a acontecer na sociedade. Fazemos cenários e planos quinquenais. Temos bastante segurança em relação ao que se irá passar daqui a uns anos e decidir – hoje – se haverá uma nova geração de produtos daqui a cinco anos.
Vocês são um operador global. Como é que adaptam os produtos aos diferentes mercados? Ou o mundo, nesta área, é um lugar aborrecido e normalizado?
Há produtos que apenas não parecem diferentes, são realmente diferentes. Por exemplo, a forma como as pes­soas nos EUA usam a máquina de lavar roupa, inclusive o detergente, não tem nada a ver com a Europa. É claro que os eletrodomésticos têm de ser diferentes. Os fogões Range (em breve, no mercado nacional) foram inicialmente desenvolvidos para os EUA. É engraçado constatar que os americanos acham que têm um toque europeu, clean, moderno. E os europeus acham que têm um visual americano. O que, de facto, aconteceu realmente é que foram desenhados na Europa para o mercado americano. Além disso, no software temos sempre a preocupação de incluir receitas locais. Mais do que local, o gosto é individual, daí haver possibilidade de o utilizador definir as suas receitas e respetivos passos.
Num evento paralelo à feira, apresentaram a Invisible Kitchen (cozinha invisível). São avançados conceitos associados a novas tecnologias como as que permitem aferir a qualidade dos alimentos, respetivos nutrientes e quem os produziu, bastando, para tal, colocá-los sobre a placa. É necessário e viável?
Confia na indústria alimentar? Eu não. Tenho dúvidas acerca da organicidade do produto, da frescura. É viável, claro. Já há dados que permitem seguir o rasto dos alimentos. Há toda uma cadeia logística que, atualmente, termina no momento em que pagamos a conta do supermercado. O que propomos é que os dados sejam do domínio público e acessíveis ao consumidor.
Os retalhistas e produtores libertarão informação?
São os mais interessados em prolongar a ligação com o consumidor, pós caixa registadora ou entrega ao domicílio.
Qual foi a sua maior conquista enquanto designer da Míele?
Difícil responder. A In­visible Kitchen e os meus primeiros anos na Míele foram muito intensos. Também a gama 5000, que marcou uma nova geração de eletrodomésticos.
Algum português na equipa?
Nunca, não sei porquê.
Como é a sua cozinha?
Completamente branca.

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