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Decoração: A entrevista com Graça Viterbo

Graça Viterbo é uma personalidade que se confunde com a história do Design de Interiores em Portugal. 40 anos de carreira não lhe roubaram o carisma e a força de vontade de marcar sempre a diferença.

Teresa Mafalda
1 de setembro de 2012, 20:00

Mais de 40 anos de carreira não lhe arrefeceram a insaciável curiosidade e gosto pela diferença, Graça Viterbo é um nome que se confunde com a história do design de interiores em Portugal. Uma força de vontade indomável fez do nome Graça Viterbo (GV) uma marca de qualidade consolidada internacionalmente.
GV foi a maior responsável por colocar o design de interiores a um patamar até então desconhecido em Portugal, foi ainda graças a si que os decoradores ganharam o reconhecimento da profissão. A atividade desenvolveu-se deixando de ser encarada como um hobby para senhoras abastadas e sem ocupação, tornando-se um métier para ser levado a sério. E foi com essa temeridade que GV construiu uma carreira que lhe tem valido diversos prémios e distinções (um dos últimos, o reconhecimento do New York Times, destacando o excelente design no Hotel Bela Vista, da Praia da Rocha). Hoje, parte da família segue-lhe as pisadas e muitos outros beberam os seus ensinamentos. A marca Viterbo (www.gviterbo.com) tornou-se sinónimo de rigor e criatividade, o que permite a GV afirmar com legitimidade que "somos nós que criamos as nossas próprias tendências, em vez de segui-las". Graça Viterbo abriu as portas da sua casa (ver reportagem) e recebeu amavelmente a Caras Decoração, num espaço que é o espelho intimista e familiar do trabalho do ateliê Graça Viterbo Interior Design.
CARAS DECORAÇÃO – Como nasceu o inte­resse pelo design de interiores?
GV – Acabei em 1965 o Curso de Artes De­corativas na Fundação Ricardo Espírito Santo (FRESS) e fui para Londres, em 66/67, onde me formei na Inchbald School of Design, quando voltei, comecei logo a trabalhar, primeiro como assistente de Maria José Salavisa, mais tarde, sozinha, após o meu casamento e por altura do nascimento do meu primeiro filho, Bruno, em 1970, onde me dividia entre o trabalho de mãe e de designer.
– Na década de 70, como estava a decoração de interiores em Portugal?
– A atividade estava pouco desenvolvida e ainda havia preconceitos em recorrer aos serviços de um decorador. Existiam dois grandes nomes na decoração, Maria José Salavisa e Lucien Donnat, os cursos na FRESS, o IADE (Escola Superior de Design) veio mais tarde. Comecei numa altura em que eram escassas as ferramentas, era muito difícil importar um rolo de papel de parede ou um metro de tecido, não havia showrooms ou lojas com marcas estrangeiras de qualidade, exceção feita à Mitnitzky (mais tarde adquirida por GV), onde nos tempos de estudante ia pedir amostras de tecidos – uma das minhas paixões. Recém-chegada de Londres, vinha com os olhos bem abertos ao mundo, não tinha ainda o treino, mas muita curiosidade.
– Há 40 anos, como se desenvolvia o trabalho de um designer de interiores?
– Com muita imaginação criadora! Havia muito esforço, foi tudo muito vivido e experienciado, hoje, quando falo com os meus assistentes, penso como era possível funcionar numa obra sem telemóvel, sem Internet, sem todos os meios que estão hoje à disposição! Sempre gostei muito de desenho, era tudo muito minucioso, nada estava já fabricado, recorríamos aos bons artesãos, aos marceneiros, a quem trabalhava bem a pedra... a decoração na altura era muito ornamentada, com muito porme­nor. E foi assim que o meu ateliê foi crescendo, a pulso, mantendo essas competências de rigor e pormenor, mas sabendo adaptar-se às novas realidades. É com muito orgulho de mãe e profissional que obedecendo à ordem natural das coisas tenha passado esta filosofia à minha filha Gracinha, que com a mesma intensidade, vontade e talento está agora à frente do ateliê. 
– Neste percurso, qual o trabalho que guardou na memória e que se tornou a rampa para o sucesso?
– Há vários, mas aquele que considero como uma pedrada no charco foi, sem dúvida, a intervenção no Albatroz, em Cascais. Na altura não se falava ainda em hotéis de charme, mas essa foi decerto a primeira unidade hoteleira de charme portuguesa, um 'simples chique'. Era bastante marcado pelos anos 50 e uma espécie de 'bijou intocável'. Quando a intervenção foi concluída, toda a gente gostou. Hoje, já teve outras alterações, mas fico muito contente quando vejo que a base ainda se mantém, o mármore e a madeira no pavimento, por exemplo, na época, quase tive problemas para o fazer... Sempre que passo por lá, lembro-me desses tempos em que, por vezes, era difícil dar a conhecer a mudança.
– E hoje em dia?
– Por comparação, recordo-me do Hotel Bela Vista, na Praia da Rocha. Curiosamente, o conceito foi o mesmo. Transformei um palacete que tinha sido casa de família numa vertente mais comercial, mas mantendo e modernizando muitos pormenores que lhe dão carisma e fazem parte da sua história.
– Em seu entender, quando é que o design de interiores deixou de ser encarado com preconceito e assumiu estatuto de profissão?
– A decoração em Portugal talvez tenha verdadeiramente arrancado quando apareceram as primeiras telenovelas brasileiras na televisão, as pessoas viram outras casas, começaram a olhar de forma diferente para os interiores. Perceberam que a decoração não era só comprar a mobília de quarto ou da sala quando casavam, era preciso muito mais...
– E por contraponto, com toda a oferta que existe hoje em dia, com lojas, decoradores, showrooms e a Internet para ser consultada a toda a hora, como é que o seu ateliê pode oferecer a diferença?
– Primeiro pela inovação. O rigor com que fazemos um projeto, com uma boa base, desenhado, à mão ou 3D, bem acompanhado, assente no conforto. Mostrar ao cliente um board detalhado que é praticamente igual ao resultado do projeto (muitas vezes pedem-nos para o guardar!). Queremos também que o proprietário seja sempre surpreendido. É alta costura, um serviço tailor made, é essa a diferença! Fazer sempre à medida de quem vai habitar aquele ambiente. Um dia, um cliente disse-me: "Que engraçado, sinto-me como se já aqui estivesse há muitos anos!" Este é o maior elogio que se pode receber.  
– Nestes tempos mais conturbados e difíceis que conselhos deixa a quem tenha gosto em decorar uma casa?
– Apostar sempre em valores seguros, se naque­la altura não puder comprar uma peça de maior qualidade, em vez de adquirir duas ou três sem valor, guarde para mais tarde. Invista em arte, a partir dela pode ser construído todo um ambiente, misturando texturas, cores. Por outro lado, não deve desfazer-se das coisas que gosta ou de um móvel de boa qualidade que naquela ocasião não faz sentido expor. Guarde-o que mais cedo ou mais tarde po­derá ter novo uso. É o que faço em minha casa.

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